O gigante Itaú, definitivamente, não está adormecido
O retorno sobre patrimônio líquido anualizado (ROE, da sigla em inglês) ficou em 23,6% – nada mau para um gigante que vem sendo atacado por todos os lados... Mas boa parte das fintechs moderninhas ainda não gera resultado, quanto mais caixa

Em novembro de 2017, assisti a uma palestra de Mark Yusko, fundador e gestor da Morgan Creek Capital Management. Por cerca de 40 minutos, Mark falou sem parar enquanto passava voando pelos slides da apresentação.
O cara é muito cativante e mudou a forma como enxergo a China – nada daquela imagem de ilhas de poluição, o ar sujo e pesado nas Olímpiadas de Pequim e o trabalho semiescravo em indústrias pesadas.
A China é, hoje, um dos principais polos tecnológicos do mundo e, não duvide, está no caminho para assumir papel de liderança econômica e cultural em pouco tempo.
Foi Mark quem me falou sobre o WeChat pela primeira vez: o “WhatsApp chinês” que conta com mais de um bilhão de usuários (China!) e já é uma das principais plataformas de pagamento no país. Mesmo sem acesso ao sistema bancário, qualquer chinês pode instalar o app no seu Xiaomi, fazer um depósito e sair pagando compras e transferindo dinheiro.
O WeChat é da gigante Tencent que, talvez, você conheça mais pelo braço de games – é muito provável que seu filho jogue Fortnite por horas e já tenha te pedido dinheiro para comprar uma picareta nova ou uma roupa escalafobética que não parece fazer muito sentido (adolescentes!).
Outro fenômeno chinês é o Alibaba, o Mercado Livre deles, que conta com diversas funcionalidades e, hoje, é responsável pelo maior fundo de investimento de curto prazo (Money Market fund) do mundo: o Yu’o Bao, da Ant Financial, tem quase U$ 300 bilhões sob gestão – basicamente, o fundo gere os valores de usuários da Alibaba que preferem deixar o dinheiro por lá do que mandar para suas contas correntes.
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Com essa história de aplicativos, smartphones e avanços tecnológicos nos meios de pagamento, armazenar e movimentar recursos financeiros nunca mais vai ser igual. Prazos e custos vão cair e os incumbentes terão que defender o império com unhas e dentes.
É no meio dessa história toda que muita gente tem abandonado o barco dos bancões brasileiros. O medo da “disrupção” e da linguagem moderna do Nubank, Banco Inter, Stone e qualquer outra fintech do momento fez muita gente decretar a morte do Itaú.
Por enquanto, não parece ser o caso: mesmo que os resultados do segmento de adquirência (as maquininhas da Rede) tenham sofrido, o primeiro trimestre do Itaú veio forte.
A carteira de crédito continua crescendo a um ritmo acelerado – fechou o trimestre com R$ 647 bilhões, 7,7% a mais do que no primeiro trimestre de 2019 – e com qualidade: a inadimplência continua caindo enquanto o índice de cobertura (razão entre as provisões e os empréstimos em atraso há mais de 90 dias) segue acima de 200%.
Se as linhas de serviço (que incluem as operações da Rede) sofreram, bem como as operações com o mercado (Tesouraria), a principal linha de negócios (ganho com diferencial de juros em empréstimos para clientes) voou e mais do que compensou todo o resto. Com isso, o resultado recorrente subiu e chegou a impressionantes R$ 6,9 bilhões nos primeiros três meses do ano. É verdade que rolou uma forcinha da queda da alíquota da Contribuição Social mas, mesmo assim, o Lucro Antes de Impostos (LAIR) cresceu em torno de 3%.
Com isso, o retorno sobre patrimônio líquido anualizado (ROE, da sigla em inglês) ficou em 23,6% – nada mau para um gigante que vem sendo atacado por todos os lados...
É claro que a preocupação dos detratores está muito mais no futuro do que no presente. Mas, cá entre nós, eu sinceramente acho que não há motivos para se preocupar.
Boa parte das fintechs moderninhas ainda não gera resultado, quanto mais caixa – o Nubank, por exemplo, é incrível, tem um baita serviço, app funciona redondinho, tem identificação forte de marca (quem não conhece o cartão roxo?) e, mesmo com mais de 3 milhões de cartões emitidos, o mais novo unicórnio do mercado brasileiro ainda luta para sair do vermelho.
Além disso, o mercado bancário brasileiro não é concentrado à toa: os fortes controles do Banco Central tornaram o sistema bastante robusto e confiável, mas também dificultam, e muito, a entrada de novos participantes. Por uma série de motivos, é difícil montar a lojinha, operar e ganhar dinheiro no Brasil.
Muito banco gringo veio para cá e quebrou a cara: sem pensar muito, posso citar o Boston, Citi e HSBC. Quem conseguiu se dar bem foi o Santander (baita execução do Rial), mas o sucesso só rolou porque o espanhol tirou o Banco Real das mãos do ABN.
Os bancos brasileiros ficaram tão grandes e o domínio é tão estabelecido que podem comprar qualquer ameaça que surgir no meio do caminho (Itaú gastou menos do que o lucro deste trimestre para levar 49,9% da XP).
Se não conseguir comprar, pode gastar um caminhão de dinheiro para desenvolver uma solução dentro de casa: lembra do WeChat, de seus 1 bilhão de usuários e do pagamento via QR Code?
O Itaú acabou de anunciar o lançamento do iti que, apesar de nome de palhaço demoníaco, tem tudo para resolver a vida de muita gente, inclusive no varejo.
Se há uma guerra das maquininhas, o Itaú resolveu quebrar a porra toda e acabar não só com a guerra, mas com o próprio mercado. Qualquer pessoa, de bem ou de mal, vai poder baixar o aplicativo, fazer um depósito (ou pagar um boleto) e sair por aí escanenado códigos e pagando suas contas.
O iti vai cobrar apenas 1% do lojista (a Rede, por exemplo, cobra mais de 3%) e promete fazer a transferência na hora. Você vai poder, também, mandar dinheiro pro amiguinho, filho, funcionário e até para a amante sem pagar nada.
Não precisa ter conta em NENHUM banco. Só um smartphone, um pouco de dinheiro e vontade de gastar.
E, olha que legal, sabe o dinheiro que você mandou para o aplicativo, mas ainda não usou par pagar nada? Bem, ainda não temos informações detalhadas sobre isso, mas nada impede que o banco aplique esses recursos! Da mesma forma que as seguradoras fazem a festa com os prêmios dos seguros, o Itaú vai ter esse dinheiro nas mãos, sem custo algum, para aplicar como melhor entender.
Genial.
Banco, por natureza, é um negócio arriscado. Pode ser grande, pode ser bem tocado, pode ser oligopólio e pode ser dominante. Um passo em falso e o sonho pode acabar da noite para o dia. Pergunte aos acionistas do Barings, Lehman Brothers e até mesmo do Unibanco.
Não têm ativos reais, são extremamente alavancados e, se acabar a confiança, acabou a marca e o negócio.
Mas, se o seu medo de investir no Itaú for por causa do Mercado Pago ou do Linx Pay, pode dormir tranquilo, o Itaú tem muito café no bule e, desse mal, não há de morrer.
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