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2019-04-20T17:19:01+00:00
Ana Paula Ragazzi
Ana Paula Ragazzi
EXPLICA ESSA PRA CVM!

Na (imprudente) recompra de ações da Gafisa, quem vende é Mu Hak You

Gestora GWI assumiu o comando da Gafisa há um mês e tomou decisões polêmicas, como fazer uma recompra de ações esvaziando o caixa da empresa. A GWI reduziu sua posição durante execução da oferta e abre discussões sobre motivação do negócio.

6 de novembro de 2018
9:11 - atualizado às 17:19
Montagem com bandeira da Coreia do Sul em em meio a prédios de São Paulo
Montagem com bandeira da Coreia do Sul em em meio a prédios de São Paulo - Imagem: Shutterstock

Há pouco mais de um mês, a gestora GWI, do investidor coreano Mu Hak You, tomou conta da Gafisa. De lá para cá, já conseguiu várias “proezas”. Da noite para o dia, trocou toda a diretoria que acumulava anos de casa pelo staff da GWI. Também decidiu parar de pagar fornecedores, mas teve de voltar atrás, para evitar paralisação dos trabalhadores nas suas obras. Anunciou, ainda, uma recompra de ações, julgando que a empresa, que vem do momento difícil do setor de construção no país, podia dispor de recursos de seu caixa não para tocar seus negócios, mas para retirar ações do mercado.

Todas essas decisões já eram difíceis de entender, mas complicado mesmo para Mu Hak será explicar aos investidores, ao mercado e muito provavelmente à Comissão de Valores Mobiliários (CVM) como é que, ao mesmo tempo em que decide tirar recursos do caixa da Gafisa para a recompra, reduz a posição da própria GWI  na companhia. Essa é a avaliação possível depois da análise de documentos recentes divulgados pela incorporadora. O objetivo da polêmica operação de redução de capital era o de dar liquidez a seu controlador em detrimento do saúde financeira da empresa?

A GWI tinha 37,32% das ações da Gafisa em 21 de setembro. Dia 25 aconteceu a assembleia em que a gestora conseguiu a maioria no conselho e passou a ditar as regras na incorporadora. Conforme informações sobre seu quadro acionário atualizadas em 1 de novembro no site da B3, a GWI possuía, naquele dia, 32,07% da companhia. A fatia caiu 5,25 pontos percentuais. Não haveria problema nenhum se a empresa, em outubro, não tivesse concluído 90% de seu programa de recompra de ações.

Conforme relatório sobre a negociação de ações da empresa e que obedece a Instrução CVM 358, a quantidade de ações em tesouraria da Gafisa subiu de 1,94% para 8,98% ou 7 pontos percentuais. Em número de ações, o incremento foi de 3,150 milhões. Quando anunciou a recompra, a Gafisa informou que ela atingiria até 3,5 milhões de papéis - da comparação desses dois números, saem os 90% de conclusão da recompra. A Gafisa gastou mais de R$ 40 milhões com o programa até aqui. Dois acionistas que possuíam mais de 5% da Gafisa até antes da entrada da GWI no comando também reduziram posições em outubro.

Aparentemente, não é exagero dizer que a recompra poder ter servido como porta de venda para alguns acionistas relevantes. Quando anunciada, houve protesto de dois conselheiros que não eram ligados à GWI e que  renunciaram aos postos dias depois. Por escrito, eles se manifestaram contra a recompra, afirmando que não havia uma projeção de fluxo de caixa futuro para embasar a decisão. Até aquela data, 28 de setembro, a empresa já havia consumido cerca de R$ 50 milhões do caixa que tinha divulgado em junho, de cerca de R$ 210 milhões. E eles observavam que a Gafisa possuía uma alavancagem de 82% do patrimônio líquido, ressaltando que a recompra poderia colocar em risco a liquidez da empresa.

Depois que a Gafisa anunciou que pretendia deixar de pagar os fornecedores, a agência de avaliação de risco Standard & Poors rebaixou a nota da empresa, dia 24 de outubro. A S&P, em seu comunicado, se dizia preocupada com as mudanças “abruptas” no conselho e diretoria da companhia e avaliava que a manutenção de política agressiva com fornecedores poderia afetar sua reputação no mercado. Dizia ainda que a composição atual de conselho e diretoria, concentrada na GWI, “sugere que o processo de tomada de decisão deverá favorecer os interesses da GWI acima dos interesses de outros stakeholders”. No comunicado, a S&P não tocou no assunto recompra.

Recompra segurou preço da ação

O formulário divulgado na segunda-feira (5) tem 15 páginas em que são detalhadas as operações com as ações em tesouraria. Houve muitos negócios a termo - os preferidos de Mu Hak - e também vendas de ações. As compras no primeiro dia foram com a ação a R$ 11,42. E, no dia 31, com o papel a R$ 12.

A impressão do mercado é que só a recompra é a responsável pela manutenção de Gafisa nesses patamares. E,  daqui para a frente, sem a recompra, ela pode engatar forte rota de queda. Oscilações negativas na ação podem prejudicar Mu Hak que costuma operar via GWI com posições alavancadas. Para você, investidor, a dica é: fique longe desta ação. Fundamentos da empresa não importam mais quando a governança está em xeque.

O documento só trouxe as informações das ações em tesouraria - ficaram de fora eventuais movimentações de conselheiros e diretores, com pede a Instrução 358 da CVM. Esses cargos são, hoje, ocupados por Mu Hak, seu filho Tiago, sua advogada Ana Recart, e outros funcionários da GWI.

A reportagem  questionou a Gafisa sobre todos os pontos abordados. A Gafisa, no entanto, informou que não poderia dar entrevista por estar em período de silêncio pré- resultados. O informe do terceiro trimestre deve sair na próxima quinta-feira, após o fechamento do mercado. Na sexta-feira, 9, está agendada uma teleconferência com investidores. Se houver algum interessado em ouvir, a nova administração da Gafisa vai ter muito o que explicar.

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