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Eduardo Campos
Eduardo Campos
Jornalista formado pela Universidade Metodista de São Paulo e Master In Business Economics (Ceabe) pela FGV. Cobre mercado financeiro desde 2003, com passagens pelo InvestNews/Gazeta Mercantil e Valor Econômico cobrindo mercados de juros, câmbio e bolsa de valores. Há 6 anos em Brasília, cobre Banco Central e Ministério da Fazenda.
Sem chantagem

Governo libera R$ 500 milhões do BNDES para caminhoneiros. Diesel ainda será discutido

Recursos serão destinados à compra de pneus e manutenção dos veículos e Ministério da Infraestrutura terá  RS 2 bilhões para melhoria nas estradas

16 de abril de 2019
12:37 - atualizado às 14:50
Bolsonaro e Onyx Lorenzoni
O presidente Jair Bolsonaro e o ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni. - Imagem: Alan Santos/PR

O ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, anunciou que o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) vai disponibilizar R$ 500 milhões em linhas de crédito para os caminhoneiros autônomos. Já o ministro da Infraestrutura, Tarcísio Gomes de Freitas, anunciou a obtenção de R$ 2 bilhões para conclusão de obras e manutenção de rodovias.

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Sobre o preço do diesel, Onyx disse que o tema será objeto de reunião na tarde desta terça-feira, entre o presidente Jair Bolsonaro, o ministro da Economia, Paulo Guedes, e o presidente da Petrobras, Roberto Castello Branco, para discutir o tema.

“O governo sempre disse que Petrobras tem autonomia e liberdade para exercitar o que é necessário do ponto de vista dos combustíveis”, pontuou Onyx.

Entre as ideias em discussão está a possibilidade indexar o preço do diesel ao frete e o já anunciado cartão caminhoneiro, que garante o preço do combustível no momento de contratação do frete. Os ministros não falaram sobre eventuais mudanças na política de preços da Petrobras.

Ainda de acordo com Onyx, o governo atual não pode responder por governo anteriores que foram reativos. “Estamos sendo proativos. O presidente sempre disse que os caminhoneiros seriam tratados com respeito e valorização, o que estamos apresentando é exatamente isso”.

Freitas negou que o governo seja refém da categoria e disse que os pedidos são justos.

“Não se trata de ficar refém. Eles estão pedindo pouco, manutenção de rodovias, postos de parada. O que custa atender a esses pleitos? O que custa é vontade e temos essa vontade. São pleitos justos e construídos na base do diálogo, sem chantagem”, afirmou.

Perguntado se as medidas tiram do horizonte uma nova greve, Onyx não foi categórico em negar essa possibilidade. O ministro da Casa Civil disse que o governo está atendendo de 80% a 90% do que são os gargalos da atividade.

“O governo demonstra respeito, valorização e boa vontade, vontade de ajudar quem ajuda o Brasil. Mas respeitamos toda e qualquer decisão que as pessoas tomem, mas esperamos que valorizem o gesto que o governo está fazendo para categoria”, afirmou.

As concessões à categoria acontecem após o governo atender à demanda para que o preço do diesel não fosse reajustado no fim da semana passada. A preocupação do Planalto é com nova greve. A intervenção na política de preços teve impacto no mercado, tirando mais de R$ 30 bilhões de valor de mercado da Petrobras.

Linha de crédito e obras

A linha do BNDES, segundo Onyx, ainda está sendo desenhada, mas serão disponibilizados até R$ 30 mil por caminhoneiro para troca de pneus e manutenção de veículos. Os recursos serão disponibilizados pelo sistema bancário, começando por Banco do Brasil e Caixa e depois pelos outros bancos.

Freitas destacou o “carinho” e “consideração” dos caminhoneiros com o presidente Bolsonaro antes de divulgar um rearranjo orçamentário que liberou R$ 2 bilhões para investimentos na conclusão de obras e manutenção.

O ministro também falou que os contratos de concessão passarão a prever a construção de postos de parada. Foi retomado, também, o fórum do transporte rodoviário de carga, para ouvir e priorizar as demandas da categoria.

Freitas também anunciou que há um trabalho em desenvolvimento em conjunto com a USP para criar referências de preços mínimos para o frete. A ideia é ter uma referência técnica que seja aceita pelos caminhoneiros e contratantes.

A ideia do governo é aumentar a renda do caminhoneiro autônomo, pois segundo Freitas, todo mundo no setor tem razão. O embarcador acha o frete caro e ele é caro pelo custo Brasil e o caminhoneiro diz que ganha pouco.

O desafio, também de acordo com Freitas, é dar trabalho ao caminhoneiro autônomo, pois a greve anterior criou um ambiente de insegurança jurídica. As empresas partiram para a verticalização (comprando frotas próprias) e há excesso de oferta.

Freitas também falou que serão tomadas medidas para estimular o cooperativismo e que a já anunciada ampliação do prazo de validade da carteira de habilitação, de cinco para dez anos, também atende à categoria.

“O trabalho que estamos fazendo tem método, não tem chute ou orelhada”, disse Freitas.

Não somos reféns

Depois do anúncio das medidas, o governo negou que tenha se tornado "refém" dos caminhoneiros. "Não é se entregar à chantagem de caminhoneiro, é ter consciência da importância", afirmou o chefe do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), general Augusto Heleno.

Em sua fala, Heleno reclamou que o governo está sendo cobrado como se estivesse "no terceiro mandato" e afirmou que o modal rodoviário não é o ideal para o País, mas foi o escolhido há muitos anos. "Está errado o modal rodoviário, mas fizeram essa besteira há muito tempo. Até conseguirmos instalar modal ferroviário e fluvial leva tempo", afirmou.

Pacote "está do agrado"

Na avaliação do líder dos caminhoneiros, Wallace Costa Landim, conhecido como Chorão, o anúncio de uma linha de crédito específica para os profissionais autônomos de até R$ 30 mil agrada a categoria e pode evitar uma nova greve no setor, prestes a estourar a qualquer momento, sob as lideranças que surgem nas redes sociais.

Para bater o martelo sobre a questão, no entanto, a categoria espera ainda pela manifestação de Bolsonaro. "Inicialmente, claro que o pacote agrada (a categoria). Mas preferimos aguardar o que o presidente vai falar para comunicar oficialmente o posicionamento dos caminhoneiros", diz o líder.

Segundo Chorão, o presidente deve se pronunciar sobre o pacote de medidas anunciado por Onyx Lorenzoni ainda nesta terça-feira, 16.

Dívidas de R$ 32 mil

Pesquisa da Confederação Nacional do Transporte (CNT), divulgada neste ano, aponta que 34,1% dos caminhoneiros têm pelo menos uma dívida vencida ou a vencer, no valor médio de R$ 32 mil. Para a categoria, o gasto com combustível lidera como maior custo dos caminhoneiros (92,7%), seguido dos custos com pneu (35,3%) e manutenção (32,9%)

Em média, um caminhoneiro autônomo tem vencimentos mensais de R$ 5.011,39, contra R$ 3.720,56 dos empregados de frota.

Levantamento recente da Repom, marca da Edenred Brasil que atua com foco em soluções de gestão e meios de pagamento de despesas de transporte rodoviário de cargas, indica que 30% dos motoristas já tiveram que recorrer ao empréstimo para a manutenção do veículo no Brasil.

Mercado financeiro animado

No mercado financeiro, os investidores reagiram ao pacote do governo para o setor de transporte de cargas. A Bolsa abriu a tarde em alta firme, com avanço de 1,54% às 13h15, também na expectativa de uma solução para o impasse na questão do reajuste dos preços do óleo diesel.

O tom positivo da Bolsa reflete a leitura de que as medidas, incluindo linha de crédito de até R$ 30 mil para caminhoneiros autônomos e um cartão caminhoneiro para dar estabilidade ao valor do combustível, afastam a possibilidade de uma nova paralisação da categoria, que representa ameaça ao já fraco crescimento doméstico.

Quanto ao diesel, após o pacote, há aposta num entendimento que mantenha alguma autonomia da Petrobras na prática de sua política de preços, sem prejudicá-la, o que ajuda a sustentar as ações da estatal.

O dólar está em alta de 0,73%. Isso porque o efeito da questão do diesel é negativo no câmbio, até pelo lado da percepção de que não há espaço fiscal para subsidiar preços, o que se soma aos principais fatores de alta do dólar no dia: exterior e algum desconforto com o adiamento da votação da admissibilidade da reforma da Previdência na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara para a semana que vem.

*Com Estadão Conteúdo.

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