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Para especialistas, aprovação de Lobo no Senado reduz risco de paralisia regulatória na CVM, mas levanta dúvidas sobre independência e influência política

Uma das cadeiras mais sensíveis do mercado de capitais brasileiro deixou de ficar vazia — mas não exatamente livre de desconfiança. Depois de meses de presidência interina, quórum apertado e temor de paralisia regulatória, Otto Lobo recebeu o aval do Senado para assumir de vez o comando da Comissão de Valores Mobiliários (CVM).
A aprovação encerra um período de “acefalia” na autarquia. Mas abre outra discussão, talvez ainda mais delicada para a Faria Lima: qual será o grau de independência da nova gestão da xerife do mercado?
Nos corredores do mercado financeiro, a dúvida não gira em torno da formação técnica de Lobo. O currículo é robusto e raramente contestado — veja mais abaixo.
O que divide opiniões é o peso político que acompanha sua efetivação, especialmente após decisões controversas envolvendo grandes companhias abertas e disputas recentes dentro da própria CVM.
A aprovação de Lobo no Senado mais cedo nesta semana foi interpretada como o fim de uma crise institucional silenciosa que já começava a preocupar agentes do mercado.
Ontem (21), o nome do advogado foi aprovado no Plenário da Casa, por 31 votos favoráveis ante 13 contra. Antes disso, na quarta-feira (20), a Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado já havia dado o sinal verde, por 19 votos a 4.
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Desde o início do ano, o diretor João Accioly ocupava a posição de maneira interina. Lobo chegou a ocupar a cadeira, também de forma interina, de julho a dezembro de 2025.
Há meses, a CVM operava com o colegiado incompleto, acumulando receios sobre lentidão em julgamentos, risco de prescrições e perda de capacidade decisória justamente em um momento em que o mercado brasileiro ainda tenta reconstruir credibilidade após tantos escândalos corporativos recentes.
Mas, se por um lado, a chegada de um presidente definitivo reduz o risco de paralisia, por outro ela reacende o debate sobre a autonomia da autarquia em relação a pressões políticas e empresariais.
“O mercado hoje não quer apenas uma CVM funcionando. Quer uma CVM forte, técnica, respeitada e, principalmente, independente”, afirma Farias Souza, especialista em gestão empresarial e CEO da Board Academy.
Segundo ele, a percepção pesa quase tanto quanto os fatos no mercado de capitais.
“Quando o presidente da principal autarquia de fiscalização do mercado começa a gestão sob suspeição e desconfiança, o dano reputacional já nasce contratado.”
Otto Lobo não chega à CVM como um novato. Advogado, doutor pela USP, mestre pela University of Miami e sócio-fundador do escritório Lobo & Martin Advogados, ele integra a CVM desde 2022, após indicação do então presidente Jair Bolsonaro.
Em julho de 2025, Lobo assumiu a presidência interina da autarquia após a saída antecipada de João Pedro Barroso do Nascimento.
Desde então, ele vinha ocupando o cargo em caráter temporário, enquanto Brasília travava uma disputa silenciosa sobre quem comandaria definitivamente o órgão.
Nos bastidores, a indicação foi vista por parte do mercado como uma derrota da equipe econômica de Fernando Haddad, que trabalhava por outro nome, e uma vitória política de forças ligadas ao Senado.
“Otto Lobo tem perfil técnico e experiência concreta em mercado de capitais. Não é uma indicação improvisada. Mas ele chega com um passivo reputacional importante”, resume um especialista em mercado de capitais ouvido pelo Seu Dinheiro.
Para André Camargo, professor do Insper e advogado especializado em governança corporativa e mercado de capitais, os requisitos técnicos do novo comando da CVM são sólidos.
Vale lembrar que Lobo não foi o único nome que recebeu sinal verde do Senado. Também foi aprovado o nome do advogado Igor Muniz, com 19 votos, para uma diretoria na reguladora do mercado de capitais. Seu nome também irá a Plenário.
“São nomes com requisitos formais, técnicos, eles entendem do que estão falando”, diz Camargo.
O problema, segundo agentes do mercado, é que em órgãos reguladores percepção de independência vale quase tanto quanto competência técnica.
Grande parte da resistência do mercado a Otto Lobo passa por um ticker específico na bolsa brasileira: AMBP3. O caso Ambipar virou um divisor de águas recente dentro da CVM.
Após uma disparada superior a 1.000% nas ações da companhia, a área técnica da autarquia levantou suspeitas sobre possível inflação artificial dos preços e defendeu que o controlador realizasse uma oferta pública de aquisição (OPA).
Lobo, porém, usou o chamado voto de qualidade para afastar a obrigatoriedade da oferta.
A decisão provocou forte reação entre minoritários e passou a ser vista como um símbolo de uma postura considerada “liberal demais” por parte do mercado.
“O caso Ambipar e a postura em outras votações trazem desconfiança sobre o poder de influência das grandes companhias”, afirmou uma fonte ouvida pelo Seu Dinheiro.
Outro especialista em direitos de acionistas minoritários vai além. “Há vários votos, sobretudo no caso Ambipar, que discrepam da leitura mais esperada de um diretor da CVM.”
Na visão de parte do mercado, o episódio se somou a um ambiente já contaminado por ruídos recentes envolvendo governança corporativa, fundos estruturados e o caso Banco Master.
“Houve luta interna entre Governo e outras forças pela sua indicação, prevalecendo a do presidente do Senado. Tudo isso, em um cenário do Banco Master, não reforça a segurança do mercado de capitais”, avaliou uma fonte.
Durante a sabatina no Senado, Otto Lobo rebateu as críticas e afirmou que “o presidente da CVM não pode se dobrar a pressões externas”.
Apesar das críticas, existe um consenso relativamente amplo no mercado: a CVM precisava sair do limbo institucional.
Nos últimos meses, o colegiado operava com cadeiras vagas e dificuldades crescentes para deliberações, alimentando uma percepção de lentidão e enfraquecimento regulatório.
Com a aprovação de Otto Lobo para a presidência e do advogado Igor Muniz para uma diretoria, o quórum mínimo foi preservado — embora o colegiado ainda permaneça incompleto, com uma cadeira vazia.
Dos cinco assentos previstos no colegiado, apenas dois contam hoje com mandatos vigentes: João Carlos Accioly e Marina Copola.
Na leitura de Souza, da Board Academy, a aprovação de Lobo expõe “um retrato preocupante do momento institucional brasileiro, em que a urgência para recompor estruturas enfraquecidas acaba atropelando discussões profundas sobre reputação, independência e percepção de mercado”.
Para o executivo, há uma “ironia inevitável” no cenário: a CVM estava tão esvaziada e próxima de uma paralisia institucional por falta de quórum e estrutura que Brasília “parece ter adotado a lógica de ‘melhor isso do que nada’”.
“A sensação de que o órgão está paralisado gera todo tipo de efeito de segunda ordem, sendo o primeiro deles a sensação de impunidade”, afirma Camargo, do Insper.
Segundo ele, a CVM funciona como uma espécie de “espelho da credibilidade do Brasil” para investidores estrangeiros. “Ter um órgão plenamente funcional é essencial para segurança jurídica.”
Carlos Portugal Gouvêa, sócio do PGLaw e professor da Faculdade de Direito da USP, também critica a demora do governo para recompor a estrutura da autarquia.
Para ele, a lentidão foi "ruim e injustificada", aumentando o risco de prescrições em processos administrativos e ampliando a insegurança no sistema. “Deixar uma agência tão importante para a nossa economia sem capacidade plena de deliberação é algo muito danoso.”
Por outro lado, o especialista em governança corporativa, Renato Chaves, alerta para um suposto processo crescente de “politização” da CVM.
“Infelizmente, parece que a vaga no colegiado se tornou alvo de cobiça de políticos e grandes empresas”, diz Chaves.
Ele ainda critica a falta de diversidade técnica no comando da CVM, hoje predominantemente formado por advogados.
Para além das disputas políticas e dos casos polêmicos, a nova gestão terá outro desafio estrutural: modernizar a capacidade de supervisão da autarquia.
O Instituto Empresa, entidade voltada à defesa de minoritários, defende que a CVM amplie investimentos em inteligência artificial e sistemas avançados de monitoramento para detectar riscos de forma mais preventiva.
A ideia é reduzir a dependência de atuações reativas da CVM somente após as crises já terem se instalado.
Mas, no fim das contas, tecnologia sozinha não resolve o principal problema. “O verdadeiro ativo regulatório da CVM é a credibilidade”, afirma um especialista em governança ouvido pela reportagem.
Depois de episódios como o da Americanas (AMER3), fraudes contábeis, conflitos em fundos e disputas envolvendo minoritários, a percepção de independência passou a valer ainda mais para o investidor estrangeiro.
E é justamente nesse ponto que os primeiros meses de Otto Lobo devem ser observados com lupa pela Faria Lima.
Além disso, ainda há uma vaga em aberto na CVM, que precisa ser preenchida o quanto antes, na visão dos especialistas.
“Até porque o número par pode levar a situações de empate indesejáveis em casos extraordinários”, diz Camargo, do Insper. “Em breve, os outros mandatos vão vencer, logo, manter o time completo é essencial para retomarmos o ritmo dos trabalhos e a credibilidade do órgão.”
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