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2019-10-14T14:34:07+00:00
Victor Aguiar
Victor Aguiar
Jornalista formado pela Faculdade Cásper Líbero e com MBA em Informações Econômico-Financeiras e Mercado de Capitais pelo Instituto Educacional BM&FBovespa e UBS Escola de Negócios. Trabalhou nas principais redações de economia do país, como Bloomberg, Agência CMA, Agência Estado/Broadcast e Valor Econômico.
Pé no freio

Névoa à frente: Ibovespa fecha em queda com falta de visibilidade a respeito da Previdência

As incertezas quanto à tramitação da reforma da Previdência, somadas ao mau desempenho das ações da Vale, colocaram o Ibovespa no campo negativo

2 de julho de 2019
10:26 - atualizado às 14:34
Indicação para os motoristas terem cuidado por causa da névoa
Ibovespa dirigiu com cuidado nesta terça-feira (2) e fechou em queda, mas sustentou os 100 mil pontos - Imagem: Shutterstock

Eu costumava viajar com certa frequência para a cidade de Praia Grande, no litoral de São Paulo. É uma trajeto muito simples: a rodovia dos Imigrantes, que liga a capital à Baixada Santista, corta a Serra do Mar com uma série de túneis, criando uma reta muito longa e diminuindo o tempo ao volante — num piscar de olhos, você já está sentindo a brisa do mar.

As curvas da Estrada de Santos, imortalizadas por Roberto Carlos, já não são mais usadas para chegar de carro às praias do litoral sul. Mas isso não quer dizer que o atual caminho para a Baixada não reserve suas surpresas.

Uma das situações mais tensas que já vivi nos meus anos como motorista ocorreu durante uma dessas viagens. E isso porque uma névoa muito espessa tomou conta da região do planalto da rodovia dos Imigrantes — a área que antecede os túneis. A neblina era tanta que impedia a visão dos carros ao redor.

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Com medo de me envolver em algum acidente — qualquer freada mais brusca ou mudança de faixa de algum veículo próximo resultaria num engarrafamento — a saída foi reduzir a velocidade e dirigir com a maior cautela possível. Cheguei são e salvo ao destino, mas a sensação de operar sem visibilidade é desnorteante.

Os mercados brasileiros que o digam. Afinal, a Estrada da Previdência esteve coberta por uma densa névoa nesta terça-feira (2), o que deixou os agentes financeiros operando com olhos atentos e em marcha reduzida desde o início do dia.

Como resultado, o Ibovespa fechou a sessão de hoje em queda de 0,72%, aos 100.605,17 pontos, após tocar os 100.072,77 pontos na mínima (-1,25%). O dólar à vista também sentiu os efeitos da viagem conturbada: terminou em alta de 0,29%, a R$ 3,8554 — na máxima, foi a R$ 3,8807 (+0,95%).

Os olhos dos mercados estiveram voltados à comissão especial da Câmara, em meio à expectativa em relação à leitura do parecer complementar do deputado Samuel Moreira — o relator da reforma da Previdência na comissão especial da Casa. Mas essa viagem, que no papel seria tranquila, mostrou-se mais difícil que o imaginado.

Em primeiro lugar, a sessão teve início apenas apos às 16h00 — no início do dia, os agentes financeiros trabalhavam com um cenário em que a leitura seria feita no começo da tarde. Assim, os mercados brasileiros fecharam parcialmente no escuro — às 17h, os debates no colegiado ainda estavam na fase inicial, embora o relator tenha adiantado que o texto trará uma economia um pouco maior que R$ 900 bilhões em dez anos.

Originalmente, o parecer complementar seria entregue na semana passada, mas indefinições entre os agentes políticos quanto à inclusão dos Estados e municípios no relatório jogaram a conclusão para esta terça-feira. Mas, mesmo após esses dias de discussão, tudo indica que o tema ficará de fora da nova versão do texto.

A possibilidade de a pauta não constar no parecer trouxe desconforto aos mercados por indicar que a votação da Previdência no plenário da Câmara enfrentará nebulosidade semelhante — ou ainda maior —, e há pouco tempo útil antes do início do recesso do Congresso, no dia 18.

"Muita gente já enxergava uma chance pequena de votação da reforma [no plenário da Câmara] antes do recesso", diz Luis Sales, analista de mercados da Guide Investimentos, ponderando que um eventual novo atraso na tramitação tende a inviabilizar a votação no plenário antes do recesso.

Essa visibilidade comprometida dos mercados em relação ao que pode ocorrer com a tramitação da reforma da Previdência foi suficiente para trazer cautela aos ativos locais. Os movimentos de correção, contudo, foram mais intensos no Ibovespa — e isso porque a estrada do principal índice da bolsa brasileira tinham um obstáculo extra.

Buraco na pista

Esse empecilho, no caso, responde pelo nome de Vale ON (VALE3). As ações da mineradora perderam força na parte final do pregão e encerraram com queda firme, aumentando ainda mais a percepção de risco no mercado acionário.

E isso porque a CPI de Brumadinho aprovou nesta tarde o indiciamento de 14 pessoas envolvidas no rompimento da barragem, incluindo o ex-presidente da mineradora, Fábio Schvartsman — a própria Vale também foi indiciada.

"Teoricamente, o dia deveria ser mais positivo para a Vale, já que o minério de ferro continua em alta por causa da potencial quebra de oferta da commodity na Austrália", diz Glauco Legat, analista-chefe da Necton. No entanto, em meio ao noticiário referente à CPI — e à possibilidade de elevação de tributos incidentes sobre os royalties do setor de mineração — as ações da empresa mergulharam ao campo negativo.

Ao fim do dia, os papéis da Vale fecharam em queda de 4,21%, o pior desempenho do Ibovespa nesta terça-feira. Os ativos PN da Bradespar (BRAP4), empresa que possui participação relevante na mineradora, também foram afetados e terminaram a sessão com baixa de 3,98%

As siderúrgicas seguiram o mesmo caminho da Vale: CSN ON (CSNA3) recuou 3,30%, Gerdau PN (GGBR4) teve queda de 2,59% e Usiminas PNA (USIM5) caiu 1,13%.

Easy rider

Lá fora, as bolsas americanas passaram o dia perto da estabilidade, num dia bastante calmo. Ao fim da sessão, ganharam força e terminaram no campo positivo: o Dow Jones teve alta de 0,26%, o Nasdaq teve ganho de 0,22% e o S&P 500 subiu 0,29% — este último atingiu uma nova máxima de fechamento.

Nem mesmo a elevação nas tensões comerciais entre Estados Unidos e União Europeia foi capaz de azedar o humor dos mercados externos. Ontem, o governo americano propôs tarifas adicionais a produtos importados da região, em resposta a prejuízos causados por subsídio do bloco às aeronaves da Airbus. A lista conta com 89 bens com valor de comércio de cerca de US$ 4 bilhões.

Apesar da ofensiva do governo Trump em relação ao velho continente, os agentes financeiros globais seguem mostrando um viés otimista, aproveitando a trégua firmada entre Estados Unidos e China na guerra comercial. Além disso, a perspectiva de corte de juros por parte do Fed continua trazendo tranquilidade às negociações

No mercado de moedas, o tom das negociações também é de certa cautela. O dólar teve leve queda na comparação com as divisas fortes — em relação às emergentes, o tom foi de alta, com o dólar subindo ante o rublo russo, o peso colombiano, o peso chileno e o dólar neozelandês.

Subindo a ladeira

O contexto de incertezas quanto à reforma, somado à alta do dólar à vista, fez a curva de juros fechar o pregão com viés positivo, após um dia de oscilações ao redor da estabilidade.

As curvas para janeiro de 2021 terminaram com alta de 5,80% para 5,84%. Na ponta longa, os DIs com vencimento em janeiro de 2023 avançaram de 6,59% para 6,65% — os para janeiro de 2025 foram de 7,05% para 7,10%.

Por um lado, eventuais atrasos no cronograma da Previdência podem manter a Selic estável em 6,5% ao ano por um período mais prolongado, já que o Banco Central (BC) sinaliza que um corte nos juros só será considerado quando ocorrerem avanços significativos na tramitação da pauta.

Mas, por outro, a fraqueza da economia local segue dando combustível para a percepção de que a autoridade monetária terá de agir para estimular a atividade doméstica. A produção industrial do Brasil caiu 0,2% em maio, um recuo menor que o esperado por analistas mas que, ainda assim, mostra que a economia nacional segue em ritmo lento.

Novos motoristas

As ações ON da Via Varejo (VVAR3) terminaram em alta de 6,45% e destoaram do Ibovespa como um todo, com os mercados reagindo positivamente às alterações no alto escalão da empresa. Após a retomada do controle da companhia pela família Klein, 12 executivos da Via Varejo foram demitidos para dar lugar a nomes de confiança da nova gestão.

Curvas sinuosas

Assim como os ativos da Vale, as ações da Petrobras também fecharam em queda firme e influenciam negativamente o Ibovespa, marcando uma sessão bastante negativa para os papéis de empresas ligados às commodities.

Os ativos da estatal foram impactados pelas quedas firmes do petróleo no exterior — o Brent recuou 4,09% e o WTI caiu 4,08%. Nesse contexto, os papéis PN (PETR4) caíram 1,61%, enquanto os ONs (PETR3) recuaram 1,50%.

Seguro contra acidentes

Fora do Ibovespa, destaque para o bom desempenho dos ativos da SulAmérica, em meio à notícia de que a empresa negocia a venda de sua divisão de seguro de automóveis e ramos elementares para a Allianz.

As units da SulAmérica (SULA11) — ativos da empresa com maior liquidez na B3 — avançaram 4,23%. As ações ON (SULA3) tiveram alta de 4,92%, e os papéis PN (SULA3) subiram 4,31%.

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