Quem ganha com o acordo Mercosul–UE? Veja os setores de pequenas empresas brasileiras que devem se beneficiar
O tratado amplia o acesso a um mercado consumidor de mais de 700 milhões de pessoas

A conclusão do acordo Mercosul–UE tende a redesenhar oportunidades para pequenas empresas brasileiras inseridas em cadeias exportadoras estratégicas. Ao reduzir tarifas e simplificar regras comerciais entre os dois blocos, o tratado amplia o acesso a um mercado consumidor de mais de 700 milhões de pessoas.
Um estudo do Sebrae divulgado nesta quinta-feira (29) indica que o impacto será mais relevante em setores onde a presença de pequenos negócios é expressiva, especialmente no agronegócio e em atividades industriais ligadas ao processamento de alimentos e matérias-primas.
A expectativa é de incremento tanto no volume exportado quanto no faturamento desses segmentos, à medida que as regras do acordo entrem em vigor. Segundo um relatório da Moody’s, o Brasil é o país que mais vai se dar bem com o acordo Mercosul-UE.
Porém, a abertura comercial vem acompanhada de um desafio imediato para os empreendedores.
“A hora é de reforçar a preparação dos pequenos negócios, diante desse grande mercado consumidor que se abre, somando mais de 700 milhões pessoas considerando os dois blocos, para estarmos prontos quando as regras passarem a valer”, diz Bruno Quick, diretor técnico e presidente interino do Sebrae, em nota.
Café beneficiado é um dos destaques do acordo Mercosul-UE
Entre os destaques está o café beneficiado, que inclui produtos torrados e solúveis. Atualmente, essas mercadorias enfrentam tarifas entre 7,5% e 11,5% na União Europeia, que serão eliminadas em até quatro anos.
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Segundo o levantamento do Sebrae, a exportação do café já processado pode gerar até 165% mais receita por quilo em comparação ao grão cru, o que favorece pequenos produtores e torrefadores que atuam na etapa de maior valor agregado.
Carnes e aves ampliam espaço no mercado europeu
O acordo também oferece perspectivas positivas para a cadeia de proteínas animais. Carnes de aves e suínos têm projeção de crescimento de 19,7% nas exportações até 2040, acompanhado de expansão produtiva de 9,2%.
Está prevista uma cota de 180 mil toneladas com tarifa zero, que será implementada de forma gradual ao longo de sete anos.
Para a carne bovina, o tratado estabelece uma cota de 99 mil toneladas com tarifa de 7,5%, percentual significativamente inferior às alíquotas atuais, que podem chegar a 31%.
A expectativa é de aumento de 5,1% nas exportações e de 1% na produção no médio prazo, beneficiando frigoríficos e fornecedores integrados, incluindo pequenos produtores rurais.
Diferentes segmentos vão se beneficiar
Produto tipicamente brasileiro, a cachaça deve se beneficiar tanto da redução de tarifas quanto do fortalecimento de sua identidade no exterior. A alíquota atual de 8% será zerada em até quatro anos para garrafas de até dois litros. No caso do produto a granel, haverá uma cota de 2.400 toneladas com tarifa zero.
O aumento do fluxo comercial tende a reforçar o reconhecimento da cachaça como denominação exclusiva do Brasil, reduzindo o uso indevido do nome por produtores estrangeiros.
O acordo também é visto como uma alavanca para produtos com Indicação Geográfica (IG), como o queijo da Canastra, o mel de melato de bracatinga e cafés de regiões específicas do país.
Esses selos, concedidos pelo Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI), agregam valor e autenticidade aos produtos — características valorizadas no mercado europeu.
O mel é outro segmento com potencial de crescimento, formado majoritariamente por pequenos produtores e com boa aceitação no mercado europeu.
Já as frutas uvas e maçãs terão eliminação imediata das tarifas, enquanto limões contarão com redução gradual em até sete anos.
A análise do Sebrae aponta ainda oportunidades para artigos de madeira processada, como móveis, além de ganhos indiretos para a indústria brasileira com o acesso facilitado a maquinário e insumos importados a preços mais competitivos.
Oportunidades e aumento da concorrência
Apesar das perspectivas positivas, o acordo Mercosul–UE também amplia a concorrência no mercado interno com a chegada de empresas europeias, exigindo adaptação das pequenas empresas às normas técnicas, ambientais e sanitárias mais rigorosas.
O Brasil é apontado como um dos principais beneficiários do pacto, mas o aproveitamento pleno dependerá da capacidade de preparação e adequação dos negócios.
Hoje, as pequenas empresas brasileiras respondem por menos de 1% do valor total exportado e permanecem fortemente concentradas no mercado doméstico.
Esse cenário indica que os ganhos previstos pelo acordo tendem a ser graduais, à medida que mais empreendedores consigam superar barreiras logísticas, regulatórias e de escala para acessar o mercado europeu.
Ainda assim, o tratado cria uma janela de oportunidade para setores onde os pequenos negócios já têm protagonismo e podem avançar em direção a mercados internacionais.
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