CazéTV não nasceu do dia para a noite: a trajetória de 25 anos dos empreendedores por trás do fenômeno
Edgar Diniz e Sérgio Lopes, fundadores da LiveMode, passaram por crises, mudanças de rota e apostas no digital até chegarem às transmissões que conquistaram milhões de espectadores

A CazéTV virou um fenômeno de audiência em poucos anos, mas a história por trás do canal começou muito antes de Casimiro Miguel aparecer na tela. Foram cerca de 25 anos de tentativas, mudanças de rota e apostas em novas formas de transmitir esporte até Edgar Diniz e Sérgio Lopes chegarem ao modelo que conquistou milhões de espectadores na internet.
Os fundadores da LiveMode contaram essa trajetória durante o Day1, evento promovido pela Endeavor na noite de segunda-feira (25), na Sala São Paulo. Depois de sete anos sem ser realizado, o encontro reuniu mais de mil pessoas para ouvir histórias de empreendedorismo.
E a jornada dos dois está longe de ser uma história de sucesso que aconteceu de primeira. Antes da CazéTV, houve uma empresa que perdeu a maior parte da receita, um canal esportivo que precisou disputar espaço com gigantes da televisão e uma venda que levou os empreendedores de volta ao ambiente corporativo do qual haviam saído.
Uma história muito antes da CazéTV
Há cerca de 25 anos, Diniz e Lopes seguiam carreiras tradicionais, mas queriam empreender no esporte. Formado em Economia e ex-técnico de vôlei, Diniz passou uma década trabalhando em bancos de investimento, entre eles o Banco Patrimônio e o Chase, antes de pedir demissão. Lopes, velejador desde a infância, também deixou a carreira corporativa em bancos para apostar no setor.
Juntos, eles comandaram a empresa d gestão de eventos TopSports, que começou a ganhar projeção com a organização da Copa Coca-Cola do Nordeste. O projeto fez sucesso, chegou à capa de revistas e mobilizou a região.
O problema veio quando uma decisão administrativa retirou a competição do calendário oficial do futebol brasileiro. A mudança teve um efeito devastador para a empresa: 80% da receita desapareceram.
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Os sócios e uma equipe de aproximadamente 30 profissionais chegaram a passar oito meses sem receber salários. Diante do cenário, o grupo precisou abandonar o modelo de negócio que havia construído e encontrar outra maneira de sobreviver.
Foi nesse contexto que surgiu o Esporte Interativo. "A gente só tinha três problemas: não tinha nenhum direito de transmissão, não tinha capital para investir e não tinha nenhum lugar para exibir a nossa ideia. Ali a gente aprendeu a amarrar elefante com barbante", afirmou Diniz.
Para tirar o projeto do papel, os empreendedores buscaram investidores, negociaram direitos de transmissão de competições como a UEFA Champions League, a NBA e a Premier League e conseguiram espaço na televisão aberta. O Esporte Interativo chegou a ter um canal de 24 horas, transmitido por parabólica para todo o país.
A empresa também apostou em formatos que ainda eram pouco explorados no Brasil. Desenvolveu votações e modelos de monetização por SMS, improvisou uma transmissão do clássico entre Real Madrid e Barcelona em uma página na internet e criou o EI Plus, serviço de streaming esportivo.
A ideia era experimentar diferentes maneiras de chegar ao público, em vez de depender de um único formato de distribuição. Mas competir com as grandes emissoras continuava sendo um desafio.
Enquanto o mercado brasileiro de televisão por assinatura crescia de cerca de 6 milhões para 20 milhões de assinantes, grupos como Globo, ESPN e Fox concentravam receitas bilionárias. Sem conseguir espaço nas operadoras de TV paga, o Esporte Interativo chegou a publicar um manifesto na capa da revista Veja para chamar a atenção para as dificuldades de acesso ao mercado.
A solução foi trazer a Turner como sócia minoritária e conquistar os direitos exclusivos de transmissão da UEFA Champions League. O negócio aumentou o peso da empresa no mercado, mas também exigiu investimentos elevados. A Turner condicionou o aporte à compra do controle do Esporte Interativo.
A venda levou os fundadores de volta a uma grande multinacional, mas a experiência também deixou aprendizados sobre direitos esportivos, distribuição de conteúdo e construção de audiência. Anos depois, eles usariam esse conhecimento para começar de novo.
Do Vale do Silício ao nascimento da LiveMode
Depois de cumprirem os compromissos contratuais na multinacional, Diniz e Lopes passaram uma temporada no Vale do Silício, nos Estados Unidos. A ideia era entender para onde caminhavam a tecnologia e a mídia esportiva.
Um dos movimentos que chamou a atenção da dupla foi a evolução dos direitos de transmissão no ambiente digital. Eles observaram a NFL, liga de futebol americano, vender pacotes de jogos por US$ 10 milhões no Twitter e, no ano seguinte, fechar um acordo de US$ 50 milhões com a Amazon.
Para os executivos, estava claro que o esporte começava a encontrar novas formas de chegar ao público. Em uma tarde no escritório na Califórnia, Lopes resumiu a decisão que daria origem à nova empresa: "Não sabemos o que nós vamos fazer, mas a gente vai fazer alguma coisa juntos", recordou.
Assim nasceu a LiveMode, com a proposta de desenvolver novos modelos de distribuição e transmissão esportiva.
A empresa começou experimentando. Transmitiu os treinos da Seleção Brasileira antes da Copa do Mundo de 2018 pelo Twitter, trabalhou com a Seleção Feminina e voltou a assumir a gestão da Copa do Nordeste. A ideia era testar como televisão aberta, TV por assinatura e plataformas digitais poderiam funcionar juntas.
No Campeonato Paulista, a equipe convenceu o Google a fazer um investimento, por meio do YouTube, em direitos de transmissão esportiva, segundo os fundadores.
Como o Casimiro e a CazéTV entraram na história
Durante a pandemia, a FIFA procurou a LiveMode em busca de alternativas para renegociar os direitos de transmissão da Copa do Mundo do Catar, em 2022, no Brasil.
A empresa juntou a experiência que vinha acumulando nas transmissões digitais de partidas do Athletico Paranaense ao talento de Casimiro Miguel, conhecido como Cazé, que havia sido estagiário nos tempos do Esporte Interativo. A proposta apresentada à FIFA foi criar um canal no YouTube, a CazéTV, para transmitir um jogo por dia do Mundial.
A aposta era levar as partidas para a internet com uma linguagem mais informal e uma dinâmica de interação diferente daquela das transmissões tradicionais. O resultado superou as expectativas de audiência: na estreia da Seleção Brasileira, a transmissão chegou a 3 milhões de aparelhos simultâneos. Na eliminação do Brasil, o número saltou para 7 milhões.
O sucesso mostrou que havia espaço para uma transmissão digital reunir milhões de espectadores. Mas a LiveMode não queria limitar o modelo ao futebol nem a uma única competição.
Paris 2024 ampliou o alcance da CazéTV
Depois da Copa do Mundo, a LiveMode recebeu um convite do Comitê Olímpico Internacional (COI) para levar o formato aos Jogos Olímpicos de Paris, em 2024.
O desafio era bem diferente. Enquanto uma partida de futebol concentra a atenção em um único evento, os Jogos Olímpicos têm diversas modalidades acontecendo ao mesmo tempo. Para dar conta da cobertura, a empresa montou uma central de produção capaz de realizar oito transmissões ao vivo simultaneamente.
A CazéTV também apostou em elementos culturais e ações nas redes sociais para aproximar o público dos atletas. Um dos destaques foi a participação do comentarista de carnaval Milton Cunha na cerimônia de abertura.
Outra iniciativa foi a mobilização digital em torno dos competidores. A ginasta Flávia Saraiva, por exemplo, passou de 30 mil para mais de 2 milhões de seguidores nas redes sociais em uma noite, segundo os números apresentados pelos fundadores.
Segundo os executivos, a cobertura ajudou a consolidar uma cobertura que não se limitava a mostrar as competições, mas envolver o público com os atletas e as histórias por trás dos resultados.
O que a LiveMode quer fazer até 2030
Mesmo com o crescimento da CazéTV, Diniz e Lopes dizem que não querem se acomodar. Para Diniz, a velocidade das transformações tecnológicas, especialmente com o avanço da inteligência artificial, torna arriscado imaginar que o negócio continuará funcionando da mesma maneira nos próximos anos.
"Se a gente em 2030 estiver fazendo alguma coisa parecida com o que a gente tá fazendo hoje, ainda mais nesse mundo cheio de IA, alguma coisa vai ter dado muito errado", alertou.
Lopes reforçou que o desafio não é apenas ampliar a audiência ou transmitir mais eventos, mas continuar mudando a relação das pessoas com o esporte, atrair novos públicos e gerar impacto na vida dos atletas.
"Se a gente pode mudar como as pessoas vivem o esporte, se a gente pode trazer um público novo, se a gente pode transformar até a vida dos atletas… o que a gente precisa fazer para não acordar em 2030 fazendo a mesma coisa que a gente faz hoje?", questionou.
Uma das respostas já está nos planos da LiveMode. Com o apoio de fundos de investimento como XP e Atlantic, a empresa quer ir além da operação de direitos e transmissões de terceiros e passar a comprar e ser dona de ligas, campeonatos e eventos esportivos.
A mudança representa uma nova ambição: em vez de apenas produzir e distribuir o conteúdo de outras organizações, a LiveMode pretende ter participação direta nos ativos esportivos.
Ao encerrar a apresentação, Diniz retomou a imagem que resume boa parte da trajetória dos fundadores: a de aprender a amarrar um elefante com barbante, encontrando soluções mesmo quando faltam recursos para executar um projeto.
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