Vale do Silício brasileiro: como esta cidade de 40 mil habitantes virou potência em tecnologia e empreendedorismo
Santa Rita do Sapucaí, em Minas Gerais, recebe 15 mil visitantes entre 3 e 7 de setembro em um festival de inovação que pode movimentar R$ 40 milhões na economia

Ao chegar em Santa Rita do Sapucaí, no sul de Minas Gerais, há todas as características atribuídas ao interior: cooperativas de produtores rurais na estrada, casas de muro baixo, ruas que dão a sensação de calmaria e moradores conversando na praça principal. Mas, no caso dessa cidade de 40 mil habitantes, a tranquilidade divide espaço com o título de uma das maiores potências tecnológicas do país.
Autointitulada oficialmente como o “Vale da Eletrônica” e popularmente chamada até de “Vale do Silício brasileiro”, Santa Rita tem mais de 160 empresas de tecnologia e dezenas de startups, que ocupam o protagonismo na economia ao lado do setor de serviços e a agricultura de café.
Uma vez por ano, a cidade se multiplica. Ela é sede de um evento de inovação que recebe 15 mil pessoas do mundo todo – quase um terço da população local – para falar sobre negócios, carreiras, cultura e tecnologia.
A décima edição do Hacktown está acontecendo desde quinta-feira (3) e continua até segunda (7). Nela, são realizadas milhares de palestras com especialistas e atividades que envolvem música e artes visuais.
Essas atividades envolvem toda a cidade de Santa Rita: os painéis são feitos em escolas, padarias, restaurantes e lojas do centro, por exemplo. Então é bem comum, durante os cinco dias, andar pela cidade e, ao virar a esquina, ter alguma discussão sobre tendências.
Por conta da movimentação de turistas e do envolvimento dos moradores no evento, o festival também tem impacto econômico na cidade.
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Segundo Marcos David, cofundador do festival, o Hacktown injetou cerca de R$ 35 milhões em Santa Rita no ano passado. A expectativa para a edição de 2026 é de que esse número chegue a R$ 40 milhões.
Mas por que, afinal, a cidade é a escolhida como sede para esse evento de inovação?
Santa Rita tem história atrelada à inovação
Embora o evento leve milhares de pessoas para Santa Rita e gere visibilidade para os projetos da região, a história da cidade com a tecnologia e inovação começou bem antes do Hacktown, e teve origem com uma mulher.
Filha de coronel e sobrinha do décimo presidente do Brasil, Delfim Moreira, Luzia Rennó Moreira foi o nome por trás de parte do avanço tecnológico em Santa Rita.
Mais conhecida como Sinhá Moreira, ela passou boa parte da vida na primeira metade do século 19 viajando pela Europa e, em um dos países pelos quais passou, conheceu a eletrônica.
Quando voltou para o Brasil, usou o dinheiro da família para abrir, em 1959, a Escola Técnica de Eletrônica Francisco Moreira da Costa – mesmo nome do pai – na cidade.
“Na época, vários jovens começaram a vir [para Santa Rita] para estudar essa nova ciência. Essa escola foi fundamental para que tivéssemos uma formação de ponta mundial. Foi a sétima escola de eletrônica do mundo”, contou David em entrevista ao Seu Dinheiro.
Poucos anos depois, em 1965, surgiu outra instituição que favoreceu o crescimento da cidade: o Instituto Nacional de Telecomunicações (Inatel), que criou uma escola de Engenharia de Telecomunicações.
Com a mão de obra qualificada gerada pelas duas instituições de ensino, empresas de peso passaram a expandir para Santa Rita, mas não sobreviveram na região durante a década de 80.
Foi em uma tentativa de recuperar a economia da cidade que o Paulinho Dentista, prefeito entre 1987 e 1988, criou o apelido de “Vale da Eletrônica” para divulgar os projetos tecnológicos de Santa Rita e voltar a atrair companhias para a região.
“O nome deu super certo. Anos depois, empresas de Santa Rita já estavam exportando para outros países. A cidade também está por trás de várias tecnologias que todo mundo interage, por exemplo, câmeras e alarmes de segurança, internet 5G, TV digital e algumas ferramentas mais complexas de automação industrial.”
E por que o evento?
A criação do evento Hacktown também é parte das iniciativas de Santa Rita para manter a cidade em crescimento.
Em 2014, a cidade tentava criar uma nova onda econômica, com foco na economia criativa, que engloba atividades relacionadas à criatividade, ao capital intelectual e à inovação.
Nesse processo, um grupo composto tanto por agentes públicos quanto por companhias privadas passou a discutir e criar diferentes projetos que impulsionassem Santa Rita.
Nesse grupo estava Marcos David, natural de Barbacena, em Minas Gerais, mas que chegou em Santa Rita com 20 anos para estudar Engenharia de Telecomunicações e, após a graduação, criou uma startup de educação.
Em um dos projetos testados, David, ao lado de João Rubens Costa Fonseca e Carlos Henrique Vilela, criou o Hacktown, que surgiu a partir de uma inspiração do evento SXSW, que acontece no Texas, nos Estados Unidos.
“Com as devidas proporções, Santa Rita de Sapucaí poderia se assemelhar a isso. Criamos o Hacktown com a ideia de ‘hackear’ e transformar a cidade. Apesar de ter nascido em uma pequena cidade, a ideia era conversar com o mundo, por isso o nome inglês”, disse o cofundador do evento.

A primeira edição do evento, em 2016, esperava 50 pessoas, mas vendeu 600 ingressos. A segunda edição, no mesmo ano, teve mais que o dobro de participantes: 1,5 mil pessoas.
“Em 2017 tivemos um caso que mudou nossa história. Fizemos uma parceria com o Google para construir uma casa de conteúdo da empresa no evento. Isso fez com que o Hacktown saísse de 1,5 mil para 4 mil participantes.”
Segundo o cofundador, o diferencial do evento para a economia da cidade é justamente a participação de toda Santa Rita.
A indústria e o agronegócio, já bem fortes na cidade, ficam mais restritos a quem está imerso nesses setores, já a economia criativa possibilita a participação local por meio de diferentes frentes: música, arte, tecnologia e gastronomia, por exemplo, que dão espaço para pequenos empreendedores.
Cofundador enxerga outras cidades de interior no foco da inovação
Com a décima edição do Hacktown, o cofundador defende que enxerga potencial para outras cidades interioranas do Brasil também se destacarem em inovação.
“Nossa ideia é fazer com que essas tecnologias de Santa Rita possam ser espalhadas por outros lugares e outras cidades também se destaquem no desenvolvimento do próprio território”, diz.
Para ele, as pequenas cidades brasileiras têm espaço para gerar inovação e tecnologia. “Isso não pode ficar restrito somente aos grandes centros”.
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