‘Tudo que vai aparecer no Brasil em 6 meses já existe na China’: quando vale a pena e como trazer produtos do gigante asiático?
Em meio ao fim da "taxa das blusinhas", executiva do segmento de importações e comércio exterior explica como fornecedores chineses podem impulsionar negócios brasileiros — mas não é para todo mundo

Que a China é uma das maiores potências globais de inovação já não é novidade. Não é à toa que, Maria Julia Luna, sócia-fundadora da LP Comex, empresa de consultoria para importações e comércio exterior, defende que “tudo que vai aparecer no mercado brasileiro nos próximos seis meses já existe no país asiático”. Mas para a executiva, essa discrepância pode ser justamente uma oportunidade para empreendedores do Brasil.
Durante um dos milhares de painéis do evento de inovação Hacktown 2026, que acontece entre os dias 3 e 7 de setembro em Santa Rita do Sapucaí, em Minas Gerais, Luna explicou como empresários brasileiros podem trazer produtos chineses para impulsionar os números da empresa.
A discussão ocorre em meio ao fim definitivo da chamada “taxa das blusinhas”, como ficou conhecido o imposto de 20% sobre compras internacionais de até US$ 50, aprovado pelo Senado Federal na quinta (3). O objetivo inicial da tarifa era proteger os produtores brasileiros, que apontavam concorrência desleal de gigantes estrangeiras. Empresas brasileiras também vinham pedindo a volta do imposto.
No painel, Luna reforçou que o Brasil não consegue acompanhar a velocidade chinesa, mas pode ter como estratégia ser de se juntar ao gigante asiático.
Entre as vantagens oferecidas pelos fornecedores da China estão preços competitivos, alta escala e volume, produtos e soluções que sequer já passaram pela cabeça do mercado brasileiro, e o desenvolvimento rápido graças à tecnologia avançada.
Mas isso não significa que importar da China seja o caminho ideal para qualquer empreendedor.
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China pode acelerar negócios brasileiros
Uma das vantagens mais reconhecidas em produtos chineses é o custo menor. Porém, Luna defende que o principal diferencial é justamente a escalabilidade.
Devido à capacidade tecnológica e ao país ter regiões especializadas em setores específicos, o desenvolvimento de produtos e serviços é muito mais rápido e barato.
A exemplo disso, a consultoria da executiva – que cabe destacar, é de Santa Rita do Sapucaí – faz a ponte entre fornecedores chineses e projetos de companhias brasileiras. Uma das empresas é a TrackPets, que desenvolve rastreadores para animais de estimação.
A startup já tinha o aplicativo programado, mas esbarrou em encontrar fornecedores para um hardware – a parte física – compatível. Em um projeto com a consultoria, eles foram em busca na China. “Em 30 dias, o produto ficou pronto na mão dos fundadores”, explica Luna.
Outro caso foi de uma empresa que buscava uma máquina de processamento para a extração da polpa de bananas. Quando a companhia entrou em contato com fabricantes chineses, o projeto foi desenhado, testado e totalmente criado em oito meses.
“Ele estava há três anos tentando criar essa máquina com fabricantes brasileiros.”
Estratégia também tem riscos
Mas Luna destaca que mesmo que a agilidade, a capacidade de desenvolvimento inovador e os preços baixos de plataformas como a Alibaba – que vende produtos chineses em atacado – brilhem os olhos, trazer produtos da China não é melhor estratégia para todos os negócios.
Não faz sentido, por exemplo, encomendar um material em larga escala de um produto que ainda não foi validado.
“Uma marca brasileira quer lançar um rímel e trazer a embalagem da China, mas o pedido mínimo é 10 mil unidades. Essa empresa é o sonho e o dinheiro da vida. Até o produto ser aprovado pela Anvisa e o produto girar no mercado, todo dia nasce uma nova marca de cosmético”, explica.
Ou seja, nem toda operação é viável financeiramente. O preço da fábrica pode ser atrativo, mas a decisão também precisa ser tomada com base na quantidade mínima, além de custos com frete, seguro, armazenagem e impostos.
Outro risco da importação chinesa é a dependência.
Embora a operação possa ser vantajosa, nunca é recomendável ficar dependente só dos produtos chineses. Um dos motivos é cambial. Devido às oscilações do dólar, um contêiner pode mudar drasticamente de preço entre uma semana e outra, e inviabilizar o projeto da empresa.
Outro risco que o empreendedor se expõe ao depender de fabricantes chineses é a variação de preços.
Um exemplo citado pela executiva é a importação de polipropileno – um tipo de plástico usado em embalagens. Com a Braskem, que é uma brasileira fabricante desse produto, em recuperação extrajudicial, empresas foram em busca do gigante asiático em meio ao receio de não ter a matéria prima no Brasil.
O resultado foi um aumento repentino de preços, como aconteceu com um cliente da consultoria que já havia negociado os valores com os chineses e, mesmo depois disso, teve uma alta de 20% no custo.
“Esse tipo de prática acontece em 20% dos casos de importação da China. É um percentual alto.”
Nem só Brasil, nem só China
O ideal, segundo Luna, é ter um equilíbrio. De um lado, empresas que dependem exclusivamente da China ficam expostas a oscilações cambiais, aumentos nos custos de frete, problemas logísticos e tensões geopolíticas – que podem impactar o fornecimento.
De outro, ignorar fornecedores internacionais pode limitar o acesso a tecnologias, insumos e soluções que não existem no mercado brasileiro.
A recomendação da executiva é construir uma operação híbrida, que combina fornecedores nacionais e estrangeiros.
"Tenha relacionamento com vários países, como México, Chile, outros latino-americanos, e não esqueça do Brasil. O calo aperta. Tem hora que o empreendedor vai depender daquele fornecedor pequeno que é o único que tem o insumo e vai ter horas que a China vai salvar por completo", afirmou.
O que ter em mente antes de importar da China?
Para a executiva, o primeiro passo antes de começar a importar da China é deixar de lado a busca por produtos da moda.
Segundo Luna, é comum que empreendedores afirmem ter um valor determinado e apostem em algum item sem conhecimento, só para vender no Mercado Livre e outros marketplaces. Para ela, fazer um planejamento nessa ordem dificilmente dá certo.
Antes de procurar um fornecedor, a ela recomenda entender exatamente qual necessidade da empresa pode ser atendida pela China.
Em alguns casos, o que vale a pena é trazer um produto pronto para o varejo. Em outros, a solução pode ser só um componente específico, uma matéria-prima ou um equipamento que não existe no mercado nacional.
Depois, é preciso mapear os fabricantes e olhar para além do melhor preço.
“No Alibaba, veja a avaliação e entenda o número de produtos que esse vendedor tem. Se ele vende garrafa, cosmético, cadeira e tudo com preço baixo, algo está errado.”
Outro fator é se atentar ao custo total e às exigências brasileiras. Nem todo produto da China pode ser importado para o Brasil e não existe uma fórmula para estimar o preço final da importação, considerando que há o valor da mercadoria, frete, seguro e impostos. Segundo Luna, cada caso deve ser avaliado individualmente.
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