9 milhões de ‘sacolas surpresa’: como a Food To Save transformou desperdício de comida em negócio
Empresa fundada em 2021 conecta consumidores a alimentos próximos do vencimento e projeta faturar R$ 220 milhões em 2026

O desperdício de alimentos foi o ponto de partida para a criação da Food To Save. A ideia surgiu quando o empreendedor Lucas Infante, de 37 anos, operava uma unidade do Carrefour Express na Espanha e passou a conviver de perto com um problema recorrente no setor: a quantidade de produtos que acabavam sendo descartados diariamente.
“Já percebia isso como consumidor. Mas, como empresário, aquilo passou a doer no bolso também”, afirma.
Infante passou a estudar o problema com mais profundidade e a observar soluções que estavam surgindo em diferentes países para reduzir as perdas de alimentos.
Uma das referências foi uma plataforma europeia que conectava consumidores a estabelecimentos com excedentes de produção.
A ideia de adaptar um modelo semelhante ao mercado brasileiro começou a ganhar forma — e acabou se transformando em negócio em 2021.
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Foi assim que nasceu a Food To Save, startup que conecta consumidores a supermercados, padarias, restaurantes e franquias interessados em vender alimentos próximos do vencimento com desconto.
O modelo se baseia nas chamadas “sacolas surpresa”: o consumidor compra um pacote com itens excedentes do estabelecimento por um preço reduzido, sem saber exatamente quais produtos virão.
A proposta busca reduzir o descarte de alimentos ao mesmo tempo em que gera receita adicional para os estabelecimentos — e oferece economia para os clientes.
Cinco anos após a fundação, a empresa já reúne mais de 12 mil estabelecimentos parceiros, está presente em 14 capitais e cerca de 130 municípios e soma mais de 10 milhões de downloads do aplicativo.
Até agora, quase 9 milhões de sacolas foram vendidas pela plataforma, evitando que mais de 7,5 mil toneladas de comida fossem desperdiçadas.
Em 2025, a empresa registrou faturamento de R$ 160 milhões. Para 2026, a projeção é alcançar R$ 220 milhões.
Experiências empreendedoras antes da Food To Save
Em entrevista ao Seu Dinheiro, Infante conta que começou a trabalhar ainda jovem. Durante a adolescência, passou por diferentes atividades, inclusive como vendedor em shopping centers. Ainda assim, ele conta que sempre teve vontade de empreender.
“Vários familiares são donos de negócios, então sempre houve esse ‘sangue empreendedor’ dentro de casa. Isso acabou me inspirando desde cedo a buscar esse caminho”, diz.
O primeiro negócio surgiu em Campinas, no interior de São Paulo, com uma loja multimarca que vendia saldos de coleções de roupas.
Depois dessa experiência, ele passou um ano no exterior, onde estudou, trabalhou e morou durante o último ano da faculdade.
Ao retornar ao Brasil, abriu novos negócios no varejo e também decidiu experimentar o mundo corporativo, trabalhando na área comercial da Ultragaz.
Mudança para a Espanha e o contato com o desperdício de alimentos
Em 2017, Infante decidiu se mudar para a Espanha. Pouco mais de um mês após chegar ao país, surgiu a oportunidade de abrir uma pequena operação de franquia no setor de alimentação, em um modelo de loja express.
Foi sua primeira experiência no ramo de alimentos — um segmento no qual ninguém da família havia atuado até então.
Durante a operação, um problema começou a chamar sua atenção: o volume de alimentos que acabavam sendo descartados. A partir dessa constatação, ele passou a estudar com mais profundidade o tema das perdas de alimentos em diferentes países.
Foi durante essa pesquisa que encontrou iniciativas que buscavam resolver o problema com apoio de tecnologia.
Uma das referências foi a plataforma europeia Too Good To Go, que já operava em vários países.
A ideia de criar um negócio com um modelo semelhante no Brasil amadureceu ao longo do tempo, mas ganhou impulso durante a pandemia de Covid-19, em 2020.
Naquele momento, ele ainda dividia a atenção entre a operação na Espanha e o novo projeto. Com o avanço da iniciativa no Brasil, decidiu vender sua participação no negócio europeu e voltar definitivamente ao país para se dedicar à startup.
“Sempre acreditei que, para um negócio dar certo, é preciso estar completamente dedicado a ele. Não poderia ser um hobby”, afirma.
Estratégias para convencer estabelecimentos
O investimento inicial foi de aproximadamente R$ 400 mil. O primeiro passo era convencer padarias, restaurantes e mercados a participar da iniciativa. Essa etapa inicial se mostrou um dos principais desafios.
“Íamos apresentar a proposta com um PowerPoint, mas os donos de padarias e restaurantes quase nunca tinham tempo para ouvir”, afirma.
A solução encontrada foi investir em um vídeo institucional curto, de dois minutos, que explicava o funcionamento da plataforma. Os empreendedores passaram a usar um tablet para mostrar o conteúdo durante as abordagens presenciais.
Segundo Infante, a estratégia mudou o ritmo das conversas.
“Muitas vezes eles diziam que tinham dois minutinhos. Quando assistiam ao vídeo, a conversa se estendia para 10, 15 ou até 20 minutos.”
Com essa abordagem, a empresa conquistou os primeiros parceiros na cidade de São Paulo.

As primeiras vendas e a validação do modelo
A primeira versão da Food To Save estava longe de ser um aplicativo sofisticado. As vendas aconteciam diretamente pelo Instagram.
No início, o funcionamento era simples. A empresa publicava no Instagram as chamadas “sacolas surpresa” com alimentos excedentes. Os interessados respondiam pelo direct, faziam o pagamento por Pix e retiravam os produtos no estabelecimento parceiro ou combinavam a entrega.
Grande parte dos primeiros clientes era formada por amigos e familiares dos fundadores, que ajudaram a testar a experiência e fornecer feedback. “No primeiro mês comemoramos muito quando conseguimos vender 100 sacolas”, diz Infante.
A partir daí o crescimento foi gradual. Primeiro vieram 300 sacolas vendidas, depois 400, 500 e, mais tarde, as primeiras mil.
Quando perceberam que havia interesse real dos consumidores, os sócios passaram a investir em melhorias na plataforma.
Cerca de seis meses depois foi lançado um site para facilitar a compra e o pagamento. Um ano depois surgiu a primeira versão do aplicativo.
“Nosso foco sempre foi validar o modelo de negócio antes de investir pesado em tecnologia”, afirma.
O modelo das “sacolas surpresa”
Em vez de escolher exatamente os produtos, o consumidor compra um pacote com itens excedentes do estabelecimento, geralmente próximos do vencimento, por um preço reduzido.
A lógica é aproveitar alimentos que provavelmente seriam descartados, gerando receita adicional para o varejo e oferecendo desconto ao consumidor.
Segundo Infante, o modelo também simplifica a operação para os estabelecimentos.
“O varejo alimentar já é muito complexo, com muitos processos e atividades. Quando criamos a sacola surpresa, facilitamos muito a operação”, afirma.
Em vez de listar individualmente cada produto disponível, o parceiro apenas separa os itens excedentes e monta a sacola.
Atualmente, o tíquete-médio das compras na plataforma gira em torno de R$ 30.
Crescimento e entrada de grandes redes
Durante os primeiros anos, a Food To Save concentrou esforços em pequenos estabelecimentos — padarias, mercados e comércios independentes. Atrair grandes redes era mais difícil, principalmente para uma startup ainda em fase inicial.
Um ponto de virada ocorreu quando a empresa fechou parceria com a rede Rei do Mate. Segundo Infante, o movimento abriu portas para novas parcerias.
“Quando uma marca grande entra, as outras começam a prestar atenção.”
Com o tempo, outras redes passaram a integrar a plataforma, incluindo supermercados e franquias de alimentação. Hoje, entre os parceiros estão redes como Pão de Açúcar, St. Marche, Natural da Terra, Cacau Show e Zé Delivery.
Outro fator que impulsionou o crescimento foi o efeito de indicação entre os próprios estabelecimentos.
Estratégia atual: crescer onde já está presente
Segundo Infante, a prioridade é aumentar a presença nas regiões onde a plataforma já opera.
“Em vez de simplesmente entrar em novas cidades, queremos crescer mais nas capitais e regiões metropolitanas onde já estamos presentes”, afirma.
A empresa vê espaço para ampliar o número de estabelecimentos parceiros e aumentar a densidade de usuários nessas áreas.
Para Infante, o momento atual da empresa também representa uma síntese das diferentes posições acumuladas ao longo da carreira.
“Hoje sinto que estou em um momento de grande realização profissional e pessoal”, afirma. “A soma de todas as experiências profissionais que tive, inclusive aquelas de que eu não gostava tanto, foi fundamental para a construção do negócio.”
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