Tesouro Direto também reagiu mal ao reajuste do Bolsa Família, mas reverteu movimento no fim do dia; veja como fecharam as taxas
Após uma manhã de forte volatilidade provocada pelo reajuste no Bolsa Família, os títulos públicos devolveram boa parte da alta das taxas

O investidor de renda fixa acordou nesta quinta-feira (17) com o cenário pronto para um dia positivo para as taxas do Tesouro Direto. Na véspera, o Banco Central cortou a taxa Selic de 14% para 13,75% ao ano, uma decisão que normalmente favorece a queda dos juros de mercado e ajuda a sustentar a valorização dos títulos públicos.
Mas o roteiro mudou em poucas horas.
O anúncio de um reajuste de 15% no Bolsa Família provocou uma onda negativa nos ativos brasileiros.
O dólar se valorizou frente ao real, o Ibovespa chegou a perder quase 3 mil pontos e os juros futuros dispararam diante das preocupações dos investidores com o impacto fiscal da medida.
O Tesouro Direto chegou a paralisar as negociações na plataforma por algumas horas pela manhã. No entanto, quando voltou ao ar, a fotografia era bem diferente da observada nos demais mercados.
O vai-e-vem do Tesouro Direto
O Tesouro Prefixado 2032 foi o que mais reagiu. De uma taxa de 14,15%, na abertura da plataforma, subiu para 14,34%. Já o papel prefixado com juros semestrais 2037 avançou de 14,19% para 14,39%.
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Nos títulos indexados à inflação, o Tesouro IPCA+ 2032 subiu de 7,61% na abertura para 7,69%, enquanto o papel mais longo avançou de 7,19% para 7,26%.
Acontece que os títulos públicos do Tesouro Direto não sustentaram essa alta.
Após a terceira atualização do dia, às 15h23 (horário de Brasília), as taxas já tinham devolvido o movimento mais intenso e arrefeceram os ganhos. Teve até casos de recuo em relação ao fechamento do dia anterior.
O Tesouro IPCA+ 2032 caiu para 7,66% de juro real, um pequeno recuo em relação aos 7,68% do dia anterior.
Já o IPCA+ 2040 voltou para a estabilidade e sustentou a taxa de 7,31% do dia anterior, assim como o Tesouro IPCA+ 2050 e seus 7,24% ao ano.
Os títulos prefixados acabaram com ajustes marginais de um dia para o outro: o Prefixado 2029 passou de 13,89% para 13,90% ao ano, e o Prefixado 2032 avançou de 14,24% para 14,26% ao ano.
As taxas ainda podem subir?
Embora as taxas do Tesouro Direto tenham se mostrado resilientes nesta quinta-feira, os títulos públicos podem passar por ajustes à frente.
Como esses papéis são precificados a partir das expectativas para os juros futuros, movimentos persistentes na curva costumam acabar sendo incorporados às taxas oferecidas pelo Tesouro Direto, ainda que com alguma defasagem.
Hoje, os vencimentos mais curtos e sensíveis a juros, de até um ano, reagiram como o esperado após o corte na Selic. Eles registraram recuo nas expectativas para os próximos meses.
Entretanto, os vencimentos médios e longos registraram aumento de expectativas. Teve casos de alta de até 1 ponto percentual (p.p.) — um aumento bastante alto para um único dia.
O vencimento de novembro de 2029 é um exemplo. A taxa subiu 1,07 ponto percentual, para 14,14%. O mês seguinte, dezembro de 2029, registrou alta de 0,97 ponto, para 14,12%.
Vencimentos de 2031 também avançaram significativamente, entre 0,75 p.p. e 0,81 p.p., assim como as taxas para 2039 e 2040.
De modo geral, ao longo do dia, a curva de juros também devolveu parte da abertura mais significativa do período da manhã, assim como o Ibovespa também virou para alta.
Porém, os vencimentos destacados sustentaram seus ganhos e são datas correlacionadas com os títulos públicos. Isso sugere que o ajuste pode não ter terminado.
O que assustou o mercado
O governo anunciou nesta quinta-feira um reajuste de 15% no Bolsa Família. Com isso, o benefício mínimo sobe de R$ 600 para R$ 691, e o valor médio recebido pelas famílias passa de R$ 675 para R$ 777.
O impacto estimado é de R$ 5,8 bilhões ainda em 2026 e de R$ 22 bilhões em 2027.
O valor, por si só, não é considerado explosivo para as contas públicas.
Tanto que parte dos economistas destacou que o reajuste apenas recompõe a inflação acumulada desde o relançamento do programa, em 2023, e que a medida respeita os limites legais existentes.
O problema é que, para o mercado, o anúncio reforçou uma preocupação que já vinha dominando as discussões desde o início do ano: qual será o grau de compromisso fiscal do próximo governo?
No final das contas, o estresse fiscal dominou as primeiras horas de negociação do dia, mas, ao longo da tarde, os investidores passaram a recalibrar os preços, e boa parte desse movimento foi revertido.
A próprio Ibovespa reverteu as perdas para o fechar o dia em alta enquanto o dólar fechou em queda.
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