Tesouro Direto: vale a pena trocar um título comprado a uma taxa menor por um de mesmo prazo com uma taxa maior?
Quando a taxa de um Tesouro Prefixado ou IPCA+ sobe, a sensação é que apareceu uma versão melhor do que a que você tem na carteira. Entenda por que não é bem assim

Você comprou um Tesouro Prefixado pagando cerca de 13% ao ano. Meses depois, abre a plataforma do Tesouro Direto e vê o mesmo título — com o mesmo vencimento — pagando 14% ao ano.
A primeira reação é pensar que fez um mau negócio.
Afinal, se agora o mesmo Tesouro Prefixado está oferecendo uma rentabilidade maior, você ficou com a pior versão do título público.
Será que não é melhor vender o papel que você tem para comprar de novo com a taxa melhor?
Pode não ser intuitivo, mas a resposta é não.
Um Tesouro Prefixado que paga mais não necessariamente ficou melhor. Na verdade, aconteceu justamente o contrário.
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Se a taxa passou de 13% ao ano para 14%, é porque o preço do título caiu. Ele apenas ficou mais barato, por isso está pagando mais.
Como uma taxa de 13% vira 14%?
Títulos prefixados e indexados à inflação têm um valor pré-definido no vencimento, o chamado “valor de face”.
Antes do vencimento, eles são negociados com desconto, e a diferença do preço de mercado para o valor de face corresponde à rentabilidade, isto é, ao juro contratado pelo investidor ao comprar o título.
No caso dos títulos prefixados que não pagam juros semestrais (chamados de Tesouro Prefixado no Tesouro Direto ou LTN), o valor de face é sempre R$ 1 mil, ou seja, eles sempre valem R$ 1 mil no vencimento.
Vamos utilizá-los como exemplo para mostrar por que não vale a pena vender um título comprado a juro menor para comprar um papel de mesmo vencimento que agora está pagando um juro maior.
Quando você compra um Tesouro Prefixado, você não paga R$ 1 mil, mas um valor menor. Hoje, esses papéis estão custando algo entre R$ 500 e R$ 600.
A diferença entre esses R$ 500 e poucos e os R$ 1 mil de valor de face corresponde à taxa prefixada.
Até o vencimento, esse título rentabiliza a taxa aos poucos para chegar em R$ 1 mil — esse é o chamado carrego.
Mas existe outro efeito acontecendo ao mesmo tempo. Todos os dias, o mercado recalcula quanto está disposto a pagar por aquele título público. É o que se chama de marcação a mercado.
As oscilações de preço e taxa acontecem conforme o mercado vê mais ou menos risco para o futuro da economia.
Quando você comprou o Tesouro Prefixado com 13% de taxa, o mercado estava vendo menos risco e juros menores no futuro. Meses depois, quando o mesmo papel começou a pagar 14%, é porque o mercado passou a ver mais risco e juros maiores.
A plataforma do Tesouro Direto mostra a mudança na taxa, mas o preço também variou — e, neste caso, para baixo.
Caso você tenha pagado R$ 650 pelo Tesouro Prefixado a 13% ao ano, quando a taxa subiu para 14%, você certamente viu seu título desvalorizar na carteira.
Da mesma forma, quem comprar o mesmo título pré a uma taxa de 14% hoje, vai pagar menos que R$ 650, pois para chegar aos mesmos R$ 1 mil no vencimento com uma taxa maior, o preço precisa ser menor.
Na prática, o mercado ajusta o preço do título para que ele continue entregando o mesmo valor prometido no vencimento.
Por que a troca costuma dar errado
A grande questão é que o título não parou de render só porque a taxa mudou.
Enquanto o mercado recalculava o preço para baixo, o papel que você tem na carteira com taxa de 13% ao ano continuou acumulando a rentabilidade contratada.
O que acontece é que, na tela, a marcação a mercado é mais evidente.
O problema de vender o seu título é que a queda no preço que levou a taxa a 14% pode ter sido maior do que o rendimento acumulado até aquele momento.
É aí que aparecem os retornos negativos na tela.
Mas esse prejuízo só irá se concretizar se você, de fato, vender o papel.
Se o mantiver na carteira, o carrego sempre vai levar o título para mais próximo de R$ 1 mil.
Em outras palavras, para quem leva o título ao vencimento, a rentabilidade contratada na compra do título é garantida, independentemente da variação do seu preço ao longo do prazo.
Assim, quem comprou um Tesouro Prefixado a 13% ao ano vai receber 13% ao ano no vencimento se não fizer a venda antecipada.
Por isso muitos especialistas recomendam ignorar as oscilações de curto prazo do Tesouro Direto e focar na data final do investimento.
É também por isso que vender o título que paga 13% ao ano para comprar o de 14% tende a resultar em prejuízo: o preço do papel caiu, e o carrego pode não ter rendido o suficiente para compensar.
"A taxa maior da nova aplicação não recupera magicamente a perda da venda. Ela é justamente a contrapartida de começar o investimento de novo a partir de um preço menor. É um retrocesso", diz Gabriel Santos, head de research da Bloxs.
Custos no Tesouro Direto
Além disso, a troca pode envolver outros custos.
Existe um spread (diferença) entre os preços de compra e venda dos títulos públicos no Tesouro Direto.
É mais ou menos o que ocorre nas operações de câmbio: se você já comprou moeda estrangeira alguma vez na vida, provavelmente já notou que a cotação para a pessoa física na hora da compra é geralmente mais alta que a oferecida pela casa de câmbio na hora da venda, isto é, de trocar a moeda estrangeira novamente por reais. Essa diferença é o spread de câmbio.
Assim, o spread entre os preços de compra e venda dos títulos públicos atua como mais um custo nessa reaplicação.
E ainda existe o imposto de renda sobre os rendimentos do título vendido, caso tenha havido lucro, e não prejuízo.
A tributação pode consumir de 22,5% do resultado da operação (se a venda acontecer a menos de seis meses da compra) até 15% (se a venda acontecer após dois anos da compra).
Ou seja, a tendência, nesse tipo de troca, é perder dinheiro.
Tesouro IPCA+ tem a mesma lógica
Ainda no Tesouro Direto, os títulos indexados à inflação, como Tesouro IPCA+, Tesouro RendA+ e Tesouro Educa+, seguem a mesma lógica dos prefixados, mas com um detalhe importante: a correção da inflação.
Os papéis IPCA+ têm o mesmo princípio de valor de referência no vencimento, mas esse valor é corrigido pela inflação ao longo do tempo, o que o torna variável.
Também de forma similar aos prefixados, os indexados à inflação sofrem marcação a mercado, que ajusta preço e taxa de acordo com a percepção de risco do mercado.
A diferença é que, enquanto os preços dos prefixados são afetados pelas projeções do mercado para juros e inflação, os preços dos IPCA+ são afetados apenas pelas projeções para os juros, uma vez que a correção pela inflação é garantida.
Isso significa que, se você comprou um Tesouro IPCA+ pagando IPCA + 6% e, no futuro, o mesmo papel (de mesmo vencimento) passou a pagar IPCA + 8%, a taxa maior apareceu porque o preço caiu.
Mas o carrego está trabalhando e o valor final do título será o mesmo — desde que o investidor o leve até o vencimento.
Quando a troca pode fazer sentido?
Vender um Tesouro Prefixado para comprar outro nem sempre é um erro.
A lógica muda quando a comparação deixa de ser entre dois títulos iguais.
Se a sua intenção é trocar um papel por outro de vencimento diferente, outras questões entram na análise.
"A troca pode fazer sentido se houver mudança de objetivo, com prazo mais longo ou mais curto, ou para mudar o risco da carteira. Mas não apenas porque a taxa do outro título é maior", afirma Santos.
- LEIA TAMBÉM: Tesouro IPCA+ paga juro real recorde de 8%, mas grandes investidores não estão comprando. Qual é o risco?
Uma taxa mais alta em um vencimento mais longo, de modo geral, representa mais risco.
Muitas vezes, esse valor é uma compensação por mais tempo de exposição às incertezas da economia e às oscilações de mercado.
Afinal, o que significa comprar um prefixado?
Geraldo Búrigo, consultor de investimentos e ex-analista sênior na Investo, resume o investimento em um título prefixado de uma forma muito boa:
"Comprar um título prefixado significa apostar que a inflação se manterá sob controle até o vencimento daquele título."
Isso porque a rentabilidade é conhecida desde o início. E o retorno real, ou seja, acima da inflação, depende da inflação média durante o período de aplicação.
Se a inflação permanecer relativamente controlada ao longo dos anos, aquela taxa contratada pode resultar em um ganho real bastante elevado.
Mas, se os preços subirem muito mais do que o esperado, parte desse retorno perde força.
Por exemplo, se você compra esperando uma inflação média entre 4% e 5% ao ano, mas o índice de preços dispara para 12%, em média, no período investido, um título com 14% de taxa vai pagar um ganho real de 2%.
Agora, se a inflação se mantém dentro das expectativas, o ganho real pode chegar a 10%.
"Você está confiando que a inflação vai ficar sob controle. Quanto menor o prazo escolhido, mais fácil dar esse voto de confiança", diz o especialista.
O prazo alinhado a um objetivo final também facilita o investimento. Segundo Búrigo, "se ficar observando a oscilação no dia a dia, você certamente vai querer vender em algum momento de estresse."
Por isso, antes de comprar um Tesouro Prefixado, a pergunta a se fazer é: você consegue deixar esse dinheiro investido até a data de vencimento?
Se a resposta for sim, mantenha em mente que a taxa que importa é a contratada na compra, não a que aparecer na tela meses depois. Afinal, você está mirando o vencimento.
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