Copom não recua e corta a Selic em 0,25 p.p., para 14,75% ao ano — próximos ajustes dependem da guerra e da inflação
Diretores do Banco Central optaram por seguir a sinalização anterior, mas o corte de hoje não significa o início do ciclo de afrouxamento monetário

A decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) nesta quarta-feira (18) não era óbvia. Embora o comitê tenha sinalizado em janeiro um primeiro corte na Selic agora em março, a guerra no Oriente Médio colocou em xeque essa possibilidade.
Mas o corte veio: 0,25 ponto percentual (p.p.) — conforme as projeções mais recentes dos agentes financeiros. Com isso, o juro básico do Brasil caiu para 14,75% ao ano.
Isso não significa, no entanto, que os diretores do Banco Central deram início ao ciclo de afrouxamento da política monetária.
No comunicado da decisão, o Copom voltou a endurecer o discurso. O texto é enfático ao dizer que o conflito no Oriente Médio exige redobrar a atenção em relação à inflação.
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“No cenário atual, caracterizado por forte aumento da incerteza, o Comitê reafirma serenidade e cautela na condução da política monetária, de forma que os passos futuros do processo de calibração da taxa básica de juros possam incorporar novas informações que aumentem a clareza sobre a profundidade e a extensão dos conflitos no Oriente Médio, assim como seus efeitos diretos e indiretos sobre o nível de preços ao longo do tempo”, diz o comunicado do Copom.
Com este primeiro ajuste na Selic, o Brasil continua com a segunda maior taxa de juros reais (que desconta a inflação) do mundo, de 9,51%. Perde apenas para a Turquia, com 10,38%. O terceiro lugar no pódio é da Rússia, com 9,41%, conforme dados do ranking MoneYou/Lev Intelligence.
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Para Alberto Ramos, economista-chefe de LatAm no Goldman Sachs, esse corte só aconteceu porque o Copom já o tinha sinalizado na reunião anterior. Caso contrário, a manutenção da Selic em 15% ao ano era a escolha evidente.
Mas, diante das possibilidades, “escolher um ajuste cauteloso de 0,25 p.p. reduz a chance de arrependimento futuro”, escreveu o economista em relatório.
Ele considera “mais defensável” acelerar o ritmo dos cortes para 0,50 p.p. ou mais quando o cenário externo se normalizar, do que começar com um corte maior e depois ter que desacelerar ou parar completamente.
No texto da decisão, o Copom afirma que a “calibração” da Selic foi possível diante do “período prolongado de manutenção da taxa básica de juros em patamar contracionista”, de modo que já havia evidências o suficiente da eficácia dos juros altos.
O Copom, a Selic e a guerra
Mas como uma guerra no Oriente Médio foi mexer nas perspectivas de juros no Brasil?
Por causa do potencial impacto na inflação, que é o único mandato do BC: manter a inflação dentro da meta de 3% ao ano.
O conflito entre Estados Unidos, Irã e Israel está mexendo com o abastecimento e os preços do petróleo. O problema é que o petróleo é uma matéria-prima necessária para toda a cadeia de bens e serviços mundo afora.
O seu preço disparar equivale a aumento de custo de produção e transporte, o que, por sua vez, aumenta os preços dos produtos na gôndola dos supermercados.
“O Comitê considera os impactos dos conflitos no Oriente Médio de forma prospectiva, em particular seus efeitos sobre a cadeia de suprimentos global e os preços de commodities que afetam direta e indiretamente a inflação no Brasil”, diz o comunicado.
Há toda uma cadeia de impacto financeiro e de expectativas. Por meio dos juros altos, o Banco Central tenta segurar parte do impacto.
A grande questão agora é se o Copom vai continuar cortando a Selic nas próximas reuniões.
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Apenas uma “calibração”?
No comunicado desta quarta-feira, o Copom retirou qualquer indicação de redução futura, afastando a ideia de um início do ciclo de afrouxamento monetário. O ajuste de hoje é tratado como uma “calibração” pontual, conforme falas anteriores dos diretores.
No entanto, a maior parte dos agentes financeiros consideram a guerra e o choque do petróleo como “potencialmente transitórios”, de modo que, nas próximas reuniões, o Copom poderá dar continuidade aos cortes na Selic.
Para o Bank of America (BofA), a leitura de que é possível iniciar um ciclo consistente de afrouxamento monetário “permanece válida, mesmo em meio à crescente incerteza global”.
Por isso, David Beker, estrategista-chefe LatAm no BofA, afirma em relatório que o comitê manteve uma abordagem cautelosa nesta quarta-feira, “mas será capaz de acelerar o ritmo dos cortes de juros para 0,50 p.p. a partir de abril”.
A grande questão é como estará a projeção de inflação no horizonte de monitoramento do Banco Central. O Copom olha para a inflação sempre 18 meses à frente.
Na reunião desta quarta, o horizonte em análise vai até o terceiro trimestre de 2027. No modelo do BC, a inflação projetada nesta data é de 3,3% — acima da meta de 3%. Em janeiro, a projeção era de 3,2%. O potencial choque inflacionário da guerra aumentou essa estimativa.
“O ambiente externo tornou-se mais incerto, em função do acirramento de conflitos geopolíticos no Oriente Médio, com reflexos nas condições financeiras globais. Tal cenário exige cautela por parte de países emergentes em ambiente marcado por elevação da volatilidade de preços de ativos e commodities”, afirma o comunicado do Copom.
Se em abril, no horizonte do quarto trimestre de 2027, a projeção de inflação ainda estiver muito acima da meta, talvez um novo corte não venha. A ver.
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