O ESG saiu da moda? Para a Régia Capital, ele ficou ainda mais fundamental na análise de crédito
Gestora especializada em investimentos sustentáveis diz que a agenda deixou o campo do discurso e passou a impactar custos, receitas e risco das empresas

Durante a pandemia, o mundo só falava em ESG. Ações voltadas ao meio ambiente, questões sociais e de governança eram descritas como o caminho para o planeta não viver uma tragédia como aquela novamente.
O dinheiro fluiu como nunca para fundos especializados, empresas anunciavam ações e mudanças em suas diretrizes. Passados poucos anos, o tema perdeu espaço.
O noticiário já não fala sobre o assunto, empresas reduziram a intensidade do discurso (quando não revogaram as políticas anteriores) e parte do mercado passou a questionar a agenda.
Um dos exemplos foi quando, em maio de 2026, a Comissão de Valores Imobiliários (CVM) decidiu tornar voluntária a adoção dos novos relatórios de sustentabilidade. Com a Resolução 244, a CVM mudou o cronograma anterior, que previa a adoção obrigatória dos padrões internacionais a partir de janeiro de 2027.
Mas para a Régia Capital, uma gestora que nasceu da parceria do BB Asset com a JGP, as métricas ESG nunca foram tão importantes quanto agora.
Na visão da gestora especializada em investimentos sustentáveis, o ESG deixou de ser um tema da “moda” para se tornar ações concretas e relevantes na avaliação de risco de uma empresa.
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Casos recentes do mercado brasileiro ilustram o que seriam esses possíveis riscos.
Na Braskem, o afundamento do solo em Maceió gerou perdas bilionárias e aumentou a pressão financeira sobre a companhia. Na Ambipar, questionamentos ligados à governança contribuíram para a deterioração da percepção de risco dos investidores. E tem as Casas Bahia, com um passivo trabalhista bilionário que piorou a situação do caixa e do endividamento.
Em nenhum caso as questões ambientais, sociais e de governança foram o foco da crise, mas em todos foram fatores agravantes que não vieram à luz antecipadamente.
ESG não é ideologia, é análise de risco
Em entrevista ao Seu Dinheiro, Fernando Tinoco, sócio e gestor de crédito da Régia Capital, afirma que ações voltadas aos fatores ESG já podem ser medidas em números hoje em dia.
O endereçamento dessas métricas se mostra nos resultados financeiros, nos menores custos regulatórios, no acesso a financiamentos mais baratos e até em novas fontes de receita.
"Não cobramos a agenda ESG por marketing, crença ou ideologia. Fazemos isso por uma questão de mitigação de risco", afirmou Tinoco.
A Régia Capital trata a agenda como uma camada adicional de análise de risco, ao lado dos indicadores financeiros tradicionais. Para um credor, Tinoco afirma que faz diferença.
Uma multa ambiental, a interrupção de uma operação por acidente de trabalho, a necessidade de investimentos não previstos diante de fatores climáticos ou mesmo danos reputacionais podem reduzir a geração de caixa e comprometer a capacidade de pagamento da empresa.
Tomar atitudes para que nada disso aconteça é preservar o negócio, na visão da Régia.
"Você quer estar próximo de empresas que vão se beneficiar dessa agenda ou que vão ser prejudicadas por ela?" questiona Tinoco.
Lucro faz parte do objetivo
A principal resistência de parte dos gestores e dos investidores em relação ao ESG nos últimos anos é a ideia de que investimentos sustentáveis exigem sacrificar o lucro e a rentabilidade da empresa.
Para a gestora, essa lógica não faz sentido.
"Agir em linha com fatores ESG não é abrir mão da rentabilidade financeira. Um projeto sustentável que não para em pé financeiramente não fez bem nenhum para a sociedade", disse o gestor.
Segundo ele, a evolução da agenda ambiental vem mostrando justamente o contrário.
Empresas mais preparadas para atender exigências regulatórias, acessar incentivos públicos e reduzir passivos ambientais tendem a enfrentar menos riscos e ter menos custos inesperados do que as companhias que não atuam nesse sentido.
Para Tinoco, a premissa é o oposto: “lucro e ESG andam lado a lado”.
E essa afirmação encontra base na realidade. Dados da Anbima mostram que metade dos fundos classificados como IS, para investimento sustentável, superaram o CDI no período de maio de 2025 a abril deste ano.
Os ativos com melhor desempenho registraram retornos entre 15,5% e 17,6% em 12 meses, superando o CDI de 14,8% por até 2,8 pontos percentuais.
Para efeito comparativo, no mesmo período, os fundos de renda fixa (11,9%) e os multimercados (13,7%) entregaram menos.
O ESG continua nas agendas
Para o gestor de crédito da Régia Capital, a prova de que o ESG continua na agenda são as medidas institucionais recentes que reforçam a continuidade do tema nos bastidores.
Em setembro, a Previc, autarquia federal que orienta os fundos de pensão, passou a exigir que fundações e entidades de previdência incorporem fatores ESG nos seus processos de investimento e monitoramento.
Em 2024, o governo federal alterou a lei que regulamenta as debêntures incentivadas, que têm isenção tributária para pessoas físicas, retirando a permissão do benefício para projetos do setor de óleo e gás.
E tem também o programa Eco Invest, do governo federal, que concede financiamento misto com a iniciativa privada para projetos de inovação verde, transição energética e novas tecnologias. Neste ano, o programa concedeu R$ 55 bilhões. Desde o lançamento, em 2024, já soma R$ 200 bilhões.
“As empresas que estiverem preparadas vão se beneficiar desses programas e avançar com seus negócios. Do outro lado, para quem não se preparar, a tendência é sentir mais pressão daqui para frente”, diz.
Mas o que tudo isso significa para quem investe?
Tinoco argumenta que empresas que não derem atenção as ações de mitigação de risco ESG cada vez mais vão enfrentar custos maiores de financiamento, perdas por gastos não mapeados e restrições regulatórias.
Para o investidor pessoa física, isso não significa necessariamente buscar rótulos ESG nas empresas ou nos fundos, mas entender como esse assunto é endereçado e se faz parte da análise de risco.
O objetivo deve ser entender como essas questões podem afetar a capacidade de uma empresa gerar caixa e honrar suas dívidas ao longo do tempo.
Conteúdo Empiricus
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