ESG não é caridade: é possível investir em sustentabilidade sem abrir mão da rentabilidade
Fundos IS e que integram questões ESG superaram o CDI no acumulado do ano e ganham cada vez mais espaço na indústria — e entre investidores que buscam retorno financeiro

Gestão de resíduos, tratamento de água e preservação de nascentes, reflorestamento e troca por energia renovável. Estes são alguns exemplos de projetos focados em aspectos sociais e de sustentabilidade financiados por empresas e fundos de investimento.
Durante muito tempo, a ideia de investir com foco em sustentabilidade trouxe consigo uma pecha: é preciso abrir mão do retorno financeiro em nome de um propósito maior. Mas essa lógica — quase filantrópica — vem perdendo força à medida que os resultados de empresas e fundos ESG (ambiente, sustentabilidade e governança, na sigla em inglês) mostram o contrário.
A maioria atinge um retorno acima do CDI, que acompanha a Selic, no maior nível em quase 20 anos — patamar difícil para diversos fundos.
- SAIBA MAIS: Investir com inteligência começa com boa informação: Veja as recomendações do BTG Pactual liberadas gratuitamente pelo Seu Dinheiro
Os fundos de investimento sustentáveis (IS) já movimentam um volume recorde de recursos para o mercado brasileiro. Dados da Anbima, compilados pela XP, mostram que o patrimônio líquido desses fundos atingiu R$ 36,8 bilhões em julho de 2025, um salto de 48,4% desde dezembro de 2024.
O número de contas de investidores também disparou: 149,8 mil em julho, ante 80,4 mil no fim do ano passado. No entanto, os fundos voltados à sustentabilidade ainda representam uma fração pequena da indústria: apenas 0,37% do total de fundos no país.
“Os critérios ESG estão se tornando centrais na tomada de decisões, tanto por investidores quanto por empresas”, diz Marcella Ungaretti, head de research ESG da XP. E parte desse crescimento é pelo avanço do mercado em desmistificar o baixo retorno financeiro. De um lado, os próprios fundos IS se provam ao apresentar retornos acima do benchmark.
Leia Também
Do outro, empresas provam que investimentos ESG valem a pena ao apresentar menor volatilidade na bolsa, com qualidade e valuation igual em relação aos pares que não observam esses critérios.
- CONFIRA: Investir em ações ESG vale a pena? Estudo da XP mostra que sim, com impacto positivo no risco
Fundos IS (muito) acima do CDI
Entre janeiro e outubro, dos 187 fundos IS e que integram questões ESG levantados pela Anbima, 77% apresentaram retornos acima do CDI, conforme levantamento da consultoria Elos Ayta. Isso significa que esses fundos atingiram rentabilidades acima de 11,8% no acumulado do ano.
O CDI (Certificado de Depósito Interbancário) é a principal referência de retorno financeiro para investimentos no Brasil. O indicador acompanha o juro básico do país (taxa Selic), que está em 15% ao ano — o maior nível em 19 anos, que muitos fundos tradicionais custam a atingir.
O fundo que registrou o melhor resultado foi um ativo da gestora JGP: o JGP Equity ESG Previdência FIF Multimercado Investimento no Exterior IS. Seu desempenho superou em seis vezes o retorno do CDI no ano, com rentabilidade de 71% até o fim de outubro.
O ativo, entretanto, é para investidores profissionais e é utilizado para compor o portfólio de outros fundos, ESG ou não.
Dentre os fundos abertos para investidores em geral, o que registrou o melhor resultado no ano foi um ativo da Régia Capital, gestora fundada em outubro de 2024 focada em investimentos sustentáveis. O Régia Equities ESG Inst Master FIF Ações IS teve um retorno de 36,6% até outubro, valor três vezes maior que o do CDI no período.
Considerando os 187 fundos, a média de rentabilidade no ano, até outubro, foi de 18% — 52% acima do CDI.
O que impulsiona os fundos sustentáveis
Segundo Carlos Takahashi, diretor da Anbima e coordenador da Rede Anbima de Sustentabilidade, o avanço dos fundos IS vem de uma combinação poderosa: títulos verdes — como debêntures, bonds, CRIS e CRAs com foco em sustentabilidade — e taxas atrativas.
Além disso, 2025 também tem sido generoso com ações listadas em bolsa. O índice de ações sustentáveis, ISE B3, acumulou 28,9% de valorização até outubro.
Com esse combo de títulos verdes e ações ESG, Takahashi acredita que é possível unir propósito e performance nos investimentos.
Top 15 fundos ESG com melhores retornos no ano
| Fundo | Tipo de investidor | Retorno acumulado 2025 (%) | Prêmio vs. CDI (%) |
|---|---|---|---|
| JGP Eq ESG Pv FIF Mult Ie IS - Resp Limitada | Profissional | 71,07 | 603,86 |
| Classe Única de Cotas do Constellation Compounders | Qualificado | 46,86 | 398,12 |
| Classe Única de Cotas do Constellation Compounders | Qualificado | 44,51 | 378,18 |
| Classe Única de Cotas do Constellation Compounders | Qualificado | 42,33 | 359,67 |
| JGP ESG Master FIF Ações IS - Resp Limitada | Qualificado | 37,09 | 315,12 |
| JGP ESG PREV Master FIA IS | Profissional | 37,08 | 315,01 |
| Régia Equities ESG Inst Master FIF Ações IS - Resp | Geral | 36,59 | 310,84 |
| Régia Brasilprev Fife ESG 100 Prev FIF Ações IS - | Profissional | 35,84 | 304,53 |
| Neo Navitas B FIF Cic em Ações Resp Limitada | Geral | 34,90 | 296,50 |
| Bram FIF - Classe de Investimento em Ações IS Sust | Geral | 34,62 | 294,11 |
| JGP Ações ESG 100 Prev Aloc Icatu Seg Fc FIF Ações | Profissional | 34,61 | 294,04 |
| JGP Ações ESG 100 Prev Icatu Seg Fc FIF Ações - Re | Profissional | 34,50 | 293,16 |
| JGP ESG Fc FIF Ações IS - Resp Limitada | Qualificado | 34,36 | 291,90 |
| Neo Navitas Master FIF Ações Resp Limitada | Geral | 34,08 | 289,54 |
| JGP ESG Inst Fc FI Ações - Feeder VII IS - Resp Li | Geral | 34,04 | 289,25 |
Levantamento considerou fundos que investem em ESG (IS) e fundos que integram critérios ESG.
ESG não é caridade — é gestão de risco
Mas, afinal, o que são os investimentos em ESG?
Para as empresas, isso significa fomentar aspectos sociais e de sustentabilidade, além de trabalhar a governança para preservar o negócio no longo prazo.
Andrea Minardi, professora e pesquisadora sênior no Insper, exemplifica a questão ao citar uma cervejaria. A água é um insumo essencial para o negócio. Dessa forma, investir em programas de preservação de nascentes ou uso eficiente de recursos hídricos não é um ato de boa vontade, mas uma forma de proteger o próprio lucro futuro.
Para ela, uma companhia que ignora riscos relevantes — como escassez de recursos naturais ou impactos climáticos — está aumentando o risco para o negócio e depreciando seu valor.
“Tudo isso afeta o fluxo de caixa, o valor da empresa e sua capacidade de pagamento de dívidas e aumento de lucro. Qualquer banco que você perguntar vai responder que riscos climáticos, sociais e de governança fazem parte da avaliação de crédito hoje em dia.”
O International Business Report (IBR), pesquisa global trimestral da Grant Thornton que mede as expectativas do empresariado, mostrou que o investimento em ESG (76%) só perde para o investimento em tecnologia (85%) na estratégia das companhias.
“As empresas brasileiras internalizaram o ESG como diferencial competitivo. É uma transformação impulsionada por exigências regulatórias, mas também pela pressão de clientes, fornecedores e instituições financeiras”, diz Daniel Maranhão, CEO da Grant Thornton Brasil.
O que significa investir em ESG?
A Suzano (SUZB3), por exemplo, tem programas de combate e preservação a incêndios em territórios próprios e de proteção do Estado. A companhia também tem projetos de reflorestamento e restauração de áreas nativas. Tudo isso é considerado estratégico para o seu negócio de comercialização de papel e celulose.
Outra empresa brasileira reconhecida por práticas ESG é a Lojas Renner (LREN3). A empresa tem aumentado a produção de roupas com fios reciclados ou algodão de origem comprovada. Além de implementar projetos de tratamento de água e resíduos químicos.
Para Minardi, com as redes sociais e a internet, hoje é mais fácil acompanhar quais objetivos as empresas comunicam aos seus consumidores e investidores.
Já no caso dos fundos, as estratégias são mais variadas. Há os que consideram riscos e retornos relacionados ao tema ESG para escolher empresas ou projetos e os que têm por fundamento investimentos em projetos sociais, de sustentabilidade e de governança (IS).
Itaú Asset e BB Asset, por exemplo, seguem os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU (ODS) para priorizar os projetos financiados via fundos IS.
Os ODS têm 17 principais metas globais para serem concluídos até 2030. Entre eles estão energia acessível e renovável, água limpa e saneamento básico, educação inclusiva e de qualidade, medidas contra a mudança do clima, entre outros.
“São aspectos que guiam nossas decisões, e dentro desses aspectos avaliamos riscos e oportunidades. Um financiamento para a expansão de parques de energia, pensando em data centers para IA. Vamos olhar para o projeto pensando em energias renováveis e demais aspectos de preservação ambiental no processo”, diz Renato Eid, superintendente de investimento responsável da Itaú Asset.
TFFF: o maior fundo IS de todos
Ainda que o mercado brasileiro esteja avançando na pauta ESG, algumas iniciativas patinam. O governo federal, por exemplo, está bem distante de atingir a meta de arrecadação para o Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF).
O fundo global permanente, lançado na COP30, pretende arrecadar até US$ 125 bilhões para remunerar, com pagamentos anuais por hectare, países em desenvolvimento que conservam florestas tropicais. O objetivo é conseguir US$ 25 bilhões de países e US$ 100 bilhões da iniciativa privada ao longo do tempo —, sendo US$ 10 bilhões até o fim de 2026.
Até o fechamento deste texto, na terça-feira (11) — segundo dia da COP30 —, os anúncios dos países somavam US$ 5,6 bilhões.
Um dos diferenciais do TFFF é justamente a sua premissa permanente e promessa de retorno financeiro. O fundo deve manter preservado o capital principal e remunerar anualmente os investidores e países beneficiados apenas com a sua rentabilidade.
“O TFFF não será doação, será investimento. Um fundo de pensão pode investir, um empresário pode investir, um governo pode investir”, afirmou o presidente Lula na Cúpula dos Líderes da COP30.
Não há informação sobre a expectativa de retorno para investidores, mas a projeção de repasse para os países beneficiados no futuro, quando os US$ 125 bilhões forem atingidos, é de US$ 3 bilhões a US$ 4 bilhões por ano.
Virada de chave
Na visão de Minardi, do Insper, é preciso que o investidor brasileiro comece a ver o ESG como um fator econômico, não apenas de propósito. Afinal, a equação risco-retorno é a premissa básica do mercado de capitais. O investidor vai (e deve) demandar uma remuneração ajustada ao risco.
“Temos um problema sério de aquecimento global. Se as empresas em que eu invisto não se preocuparem, isso vai se traduzir em prejuízo para o meu investimento”, diz a professora.
“Um fundo de pensão, por exemplo, não pode abrir mão da relação risco-retorno, se não ele não paga a aposentadoria. O gestor deve respeitar isso, mas atrair o investidor de forma inteligente para soluções voltadas à sustentabilidade, social e governança”, diz Minardi.
Ungaretti, da XP, afirma que, embora o interesse dos investidores brasileiros por fundos e empresas que incorporam práticas ESG esteja aumentando, ainda está concentrado em investidores institucionais e qualificados. Ela acredita que a tendência é o mercado se tornar mais democrático, com mais produtos: fundos, ETFs, bonds e dívidas locais.
Eid, do Itaú, acredita que o brasileiro assimilou o seu poder enquanto consumidor, ao exigir responsabilidade das empresas. O mesmo precisa acontecer enquanto investidor.
“As pessoas precisam entender o poder que elas têm com o dinheiro. Tem que questionar o assessor e o gestor: ‘o que essa empresa faz? Quais são os projetos? Como trabalha a mitigação de risco? Pergunta sobre os fundos ESG. Tire dúvidas, só assim essa agenda vai ganhar mais espaço para além da COP30”, disse o superintendente do Itaú.
E AGORA, PETROBRAS?
EUA podem fechar a torneira do diesel e deixar o Brasil mais vulnerável, segundo Citi; é hora de rever a carteira de BDRs?
28 de setembro de 2026 - 18:10CASAS DE APOSTAS
R$ 1,7 bilhão na mesa: bets terão de devolver dinheiro a 22,9 milhões de apostadores após MP de Lula
28 de setembro de 2026 - 17:16O PREÇO DAS ELEIÇÕES
Sem rali eleitoral? Gatilho para a bolsa brasileira fica para depois das eleições; saiba qual é, segundo o JP Morgan
28 de setembro de 2026 - 12:00INSEGURANÇA
Bets estudam medidas para tentar reverter proibição depois de MP de Lula, mas proximidade da eleição atrapalha
28 de setembro de 2026 - 10:04É BOM SABER
Milhões de brasileiros desconhecem benefício do novo RG e ficam sem acesso mais seguro ao gov.br
28 de setembro de 2026 - 9:27DANÇA DAS CADEIRAS
+Milionária acumulada promete R$ 99 milhões, mas Mega-Sena se aproxima; confira o ranking dos maiores prêmios das loterias da Caixa
28 de setembro de 2026 - 6:41NAS MÃOS ERRADAS
Fim da humanidade? Desenvolvimento da IA sem controle pode levar a um bilhão de mortes, diz Bill Gates
27 de setembro de 2026 - 17:01O QUE BOMBOU NO SD
O sumiço das LCIs e LCAs, os R$ 10 bilhões do Bradesco e os dividendos da Petrobras (PETR4): as mais lidas da semana
27 de setembro de 2026 - 15:01FIIS DE LAJES CORPORATIVAS
Locação do Esther Towers pelo Itaú Unibanco, maior da história, abre alerta; entenda o que acontece com setor de escritórios agora
27 de setembro de 2026 - 11:30ELEIÇÃO, JUROS E FISCAL
“Essa taxa se torna insustentável”: os juros que enchem o bolso do investidor podem estar virando problema para o Brasil
26 de setembro de 2026 - 17:19DESTAQUES DA BOLSA
Magazine Luiza (MGLU3) ganha fôlego e Natura (NATU3) fica na lanterna: veja os altos e baixos do Ibovespa na semana
26 de setembro de 2026 - 16:08TOUROS E URSOS
Seu próximo carro será chinês? BYD, GWM e a nova guerra do mercado automotivo
26 de setembro de 2026 - 15:00DE OLHO NAS DÍVIDAS
Desenrola 3.0: governo Lula quer renegociar até R$ 150 bilhões em dívidas — mas como vai bancar essa conta?
26 de setembro de 2026 - 11:24Conteúdo Empiricus
McKinsey: Só 6% das empresas faturam com IA de verdade — veja característica em comum entre elas
26 de setembro de 2026 - 9:00O CRONOGRAMA DO RESGATE
O que acontece com o dinheiro de quem apostou nas bets após a proibição do governo
25 de setembro de 2026 - 18:58MIX DE SENTIMENTO
Ibovespa ainda pode subir quase 20%, mas investidores estão com pé atrás; Safra explica o motivo
25 de setembro de 2026 - 18:40EFEITOS VIRÃO NO 3T26
As vendas continuam, mas o dinheiro não chega: como a greve na Caixa afeta as incorporadoras, segundo BTG Pactual
25 de setembro de 2026 - 16:36CORRENDO CONTRA O TEMPO?
A 10 dias das eleições, ministro da Fazenda defende que governo Lula adotou ‘política fiscal correta’ em artigo na The Economist
25 de setembro de 2026 - 10:39TENTE OUTRA VEZ
Ozempic no SUS? Governo tenta emplacar canetas emagrecedoras nos postos de saúde e cita queda de 70% nos preços
25 de setembro de 2026 - 7:37MÁQUINA DE MILIONÁRIOS EMPERRADA