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Apesar da pressão dos juros altos, a maioria das empresas fez ajustes importantes, e o setor segue com apetite por crédito — mas nem todas escaparam ilesas
Depois de um ano marcado por reestruturações e venda de ativos, Braskem (BRKM5), Cosan (CSAN3) e sua controlada, Raízen (RAIZ4) foram alguns dos destaques negativos da bolsa do ano passado. Em comum, está o alto endividamento dessas companhias. Mas o mercado de dívida corporativa ainda reserva desafios — e oportunidades — para quem investe.
Essas empresas viram sua alavancagem explodir e o custo de capital ficar mais caro. Como consequência, os investidores fugiram das suas ações e títulos, e elas precisaram readequar dívidas e vender ativos.
Como pano de fundo, está uma taxa básica de juros a níveis elevados há muito tempo — e que deve cair para apenas um dígito apenas em 2028. Essas companhias não estão sozinhas: o endividamento das empresas, de maneira geral, aumentou. E, entre as pequenas e médias empresas, a inadimplência subiu.
"Vivemos um paradoxo. Com a Selic no nível que está, o investidor está muito interessado nesse tipo de investimento [títulos de dívida corporativa]. Mas o custo da dívida subiu e isso, obviamente, começa a aparecer nos balanços de algumas empresas", afirma Marco Bismarchi, sócio e gestor de portfólio da TAG Investimentos.
E para 2026, como será o mercado de dívida corporativa, com uma taxa de juros ainda alta e muita aversão ao risco? Há risco de que o problema da alavancagem seja generalizado e afete mais empresas do mercado?
Em poucas palavras, não. Especialistas consultados por Seu Dinheiro dizem que as adversidades mais profundas destas empresas citadas foram pontuais e que, de maneira geral, as companhias fizeram a lição de casa para alongar a dívida e melhorar seu perfil de endividamento.
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O mercado ainda está comprador. "Claro que os juros altos há algum tempo geram pressão na geração de caixa. Mas muitas empresas fizeram o dever de casa", diz Rafael Pereira, analista na Sparta Fundos de Investimento.
As emissões de títulos de dívida continuam firmes e fortes. No acumulado do ano passado até novembro, as emissões primárias de renda fixa totalizaram R$ 640 bilhões, crescimento de 3,9% em relação ao mesmo período do ano anterior.
No mês de novembro, o volume foi de R$ 74 bilhões, com alta de 66% na comparação anual, “contrariando expectativas de um mercado de capitais menos pujante após o forte ritmo de ofertas visto em setembro e outubro”, diz relatório do BB Investimentos divulgado na semana passada.
Um destaque são as debêntures incentivadas, que atingiram R$ 150,7 bilhões no período de janeiro a novembro de 2025, um recorde da série histórica de acordo com dados da Anbima.
Destinados a financiar projetos de infraestrutura, esses papéis são isentos de imposto de renda para o investidor pessoa física.
Embora não seja um problema generalizado, a inadimplência e a dificuldade de pagamento são pontos que merecem atenção, principalmente em empresas mais alavancadas, ou seja, com uma relação maior entre dívida líquida e Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização).
"Quem tem dívidas pós-fixadas ou de muito curto prazo, setores com baixa margem Ebitda e empresas com estrutura de capital muito esticada são aquelas com mais risco", diz Bismarchi.
"Não vemos risco de quebradeira, mas empresas mais endividadas perdem um pouco de flexibilidade", afirma. Diversas companhias estão vendendo ativos, cortando investimentos e renegociando suas dívidas para manterem o perfil de dívida sob controle. Veja mais abaixo.
Sobre inadimplência, ele acredita que não há risco. "Ao olhar para as pequenas e médias empresas, de fato a inadimplência aumentou. Mas o cenário é diferente para as empresas de bolsa. Os problemas são pontuais e estamos distantes de ter um risco de crédito", afirma.
Isso fez com que o spread — ou a diferença entre os juros dessas dívidas e os dos títulos públicos — tenha se mantido relativamente estável no ano.
Os spreads das debêntures IPCA+ permaneceram próximos de zero, com ligeira alta, em território positivo após quase três meses. Já nos títulos CDI+, os prêmios chegaram ao maior nível observado desde agosto de 2023, com maior risco, de acordo com relatório do BB Investimentos.
Do lado do investidor, é hora de ter cautela e de analisar bem onde aplicar o seu dinheiro. "Com os juros elevados, o mercado já antecipou quais empresas poderiam ter dificuldades, com uma estrutura de capital mais arrojada. Por isso, é momento de cautela, de ter controle melhor e de refinar qual investimento você vai fazer", afirma Pereira.
Segundo ele, o que vai determinar se uma empresa irá conseguir arcar com seus pagamentos no ano que vem não é a queda da Selic — que deve chegar a 12,25% ao ano ao final de 2026, segundo o último Boletim Focus. O importante é como está organizado o fluxo de pagamentos da empresa, se está muito concentrado no curto prazo ou se ela conseguiu alongar a dívida.
Neste ano, as diferenças entre a qualidade de crédito das empresas também tendem a ficar mais visíveis, com diferenças de spread mais claras, diz.
Do lado dos bancos, o crédito para empresas encolheu em novembro, depois de ter subido inesperadamente em outubro. Os empréstimos sem garantia caíram 1,4% para empresas, de acordo com dados do Banco Central divulgados pelo Bradesco, em relatório de novembro.
As empresas na bolsa ainda estão com boa qualidade de crédito, diz o relatório. "Acreditamos que as principais empresas brasileiras da nossa amostra mantiveram boa qualidade de crédito, mesmo com o cenário macro desafiador", afirmam os analistas Gabriel Cirelli, Caio Lombardi e Andre Sonnervig no relatório.
No terceiro trimestre do ano, as companhias registradas na Comissão de Valores Mobiliários (CVM) seguem com alavancagem controlada, com uma relação entre dívida líquida e Ebitda de 1,9 vez, com boa liquidez de curto prazo e margens estáveis, com uma média de margem Ebitda de 23,4%, diz o relatório do banco.
No entanto, o setor do agronegócio continua preocupante. A inadimplência piorou no último trimestre. O não pagamento há mais de 90 dias do Banco do Brasil para empresas desse segmento piorou de 3,49% no segundo trimestre para 5,34% no terceiro. Já no segmento de pessoa jurídica, de maneira geral, a inadimplência está estável em 2,4%.
Entre renegociações de dívida, vendas de ativos e aumentos de capital, as companhias brasileiras precisaram ser criativas para encontrar maneiras de reduzir a sua desalavancagem.
A Azul (AZUL54) avançou em sua reestruturação, embora às custas da diluição de patrimônio dos acionistas. Outra aérea, a GOL (GOLL54) também tenta se recuperar: em julho, ela fez um aumento de capital social no valor de R$ 12 bilhões e anunciou a intenção de deixar a bolsa brasileira.
A Casas Bahia (BHIA3) aprovou um aumento de capital de mais de R$ 1 bilhão, além de medidas para melhorar o seu perfil de dívida. Em setembro, a Oncoclínicas (ONCO3) anunciou o interesse da gestora Starboard Asset em uma potencial transação para reestruturação financeira da companhia.
A Cogna (COGN3) registrou a menor alavancagem nos últimos sete anos — e acabou sendo a ação que mais se valorizou no ano passado. Até a Cosan (CSAN3) anunciou uma operação de R$ 4 bilhões para renegociar a estrutura financeira ligada à Compass Gás e Energia, em que Bradesco BBI e BTG Pactual adquiriram ações preferenciais.
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