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Karin Salomão

Karin Salomão

Jornalista formada pela Universidade de São Paulo (USP), com experiência em economia e negócios. Foi repórter na Exame e editora assistente no UOL Economia. Completou o Curso B3 de Mercado de Capitais para Jornalistas e Formadores de Opinião, em parceria com o Insper. Hoje, é editora assistente de empresas no Seu Dinheiro.

RENDA FIXA

Com juros altos, o fantasma do endividamento ainda pode assombrar as empresas em 2026? O que esperar do mercado de dívida corporativa

Apesar da pressão dos juros altos, a maioria das empresas fez ajustes importantes, e o setor segue com apetite por crédito — mas nem todas escaparam ilesas

Karin Salomão
Karin Salomão
15 de janeiro de 2026
6:24 - atualizado às 10:31
Celular
Imagem: Canva Pro

Depois de um ano marcado por reestruturações e venda de ativos, Braskem (BRKM5), Cosan (CSAN3) e sua controlada, Raízen (RAIZ4) foram alguns dos destaques negativos da bolsa do ano passado. Em comum, está o alto endividamento dessas companhias. Mas o mercado de dívida corporativa ainda reserva desafios — e oportunidades — para quem investe.

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Essas empresas viram sua alavancagem explodir e o custo de capital ficar mais caro. Como consequência, os investidores fugiram das suas ações e títulos, e elas precisaram readequar dívidas e vender ativos.

Como pano de fundo, está uma taxa básica de juros a níveis elevados há muito tempo — e que deve cair para apenas um dígito apenas em 2028. Essas companhias não estão sozinhas: o endividamento das empresas, de maneira geral, aumentou. E, entre as pequenas e médias empresas, a inadimplência subiu.

"Vivemos um paradoxo. Com a Selic no nível que está, o investidor está muito interessado nesse tipo de investimento [títulos de dívida corporativa]. Mas o custo da dívida subiu e isso, obviamente, começa a aparecer nos balanços de algumas empresas", afirma Marco Bismarchi, sócio e gestor de portfólio da TAG Investimentos.

E para 2026, como será o mercado de dívida corporativa, com uma taxa de juros ainda alta e muita aversão ao risco? Há risco de que o problema da alavancagem seja generalizado e afete mais empresas do mercado?

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Em poucas palavras, não. Especialistas consultados por Seu Dinheiro dizem que as adversidades mais profundas destas empresas citadas foram pontuais e que, de maneira geral, as companhias fizeram a lição de casa para alongar a dívida e melhorar seu perfil de endividamento.

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Mercado em crescimento

O mercado ainda está comprador. "Claro que os juros altos há algum tempo geram pressão na geração de caixa. Mas muitas empresas fizeram o dever de casa", diz Rafael Pereira, analista na Sparta Fundos de Investimento.

As emissões de títulos de dívida continuam firmes e fortes. No acumulado do ano passado até novembro, as emissões primárias de renda fixa totalizaram R$ 640 bilhões, crescimento de 3,9% em relação ao mesmo período do ano anterior.

No mês de novembro, o volume foi de R$ 74 bilhões, com alta de 66% na comparação anual, “contrariando expectativas de um mercado de capitais menos pujante após o forte ritmo de ofertas visto em setembro e outubro”, diz relatório do BB Investimentos divulgado na semana passada.

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Um destaque são as debêntures incentivadas, que atingiram R$ 150,7 bilhões no período de janeiro a novembro de 2025, um recorde da série histórica de acordo com dados da Anbima.

Destinados a financiar projetos de infraestrutura, esses papéis são isentos de imposto de renda para o investidor pessoa física.

Risco pontual de dívida

Embora não seja um problema generalizado, a inadimplência e a dificuldade de pagamento são pontos que merecem atenção, principalmente em empresas mais alavancadas, ou seja, com uma relação maior entre dívida líquida e Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização).

"Quem tem dívidas pós-fixadas ou de muito curto prazo, setores com baixa margem Ebitda e empresas com estrutura de capital muito esticada são aquelas com mais risco", diz Bismarchi.

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"Não vemos risco de quebradeira, mas empresas mais endividadas perdem um pouco de flexibilidade", afirma. Diversas companhias estão vendendo ativos, cortando investimentos e renegociando suas dívidas para manterem o perfil de dívida sob controle. Veja mais abaixo.

Sobre inadimplência, ele acredita que não há risco. "Ao olhar para as pequenas e médias empresas, de fato a inadimplência aumentou. Mas o cenário é diferente para as empresas de bolsa. Os problemas são pontuais e estamos distantes de ter um risco de crédito", afirma.

Isso fez com que o spread — ou a diferença entre os juros dessas dívidas e os dos títulos públicos — tenha se mantido relativamente estável no ano.

Os spreads das debêntures IPCA+ permaneceram próximos de zero, com ligeira alta, em território positivo após quase três meses. Já nos títulos CDI+, os prêmios chegaram ao maior nível observado desde agosto de 2023, com maior risco, de acordo com relatório do BB Investimentos.

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Do lado do investidor, é hora de ter cautela e de analisar bem onde aplicar o seu dinheiro. "Com os juros elevados, o mercado já antecipou quais empresas poderiam ter dificuldades, com uma estrutura de capital mais arrojada. Por isso, é momento de cautela, de ter controle melhor e de refinar qual investimento você vai fazer", afirma Pereira.

Segundo ele, o que vai determinar se uma empresa irá conseguir arcar com seus pagamentos no ano que vem não é a queda da Selic — que deve chegar a 12,25% ao ano ao final de 2026, segundo o último Boletim Focus. O importante é como está organizado o fluxo de pagamentos da empresa, se está muito concentrado no curto prazo ou se ela conseguiu alongar a dívida.

Neste ano, as diferenças entre a qualidade de crédito das empresas também tendem a ficar mais visíveis, com diferenças de spread mais claras, diz.

A qualidade do mercado

Do lado dos bancos, o crédito para empresas encolheu em novembro, depois de ter subido inesperadamente em outubro. Os empréstimos sem garantia caíram 1,4% para empresas, de acordo com dados do Banco Central divulgados pelo Bradesco, em relatório de novembro.

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As empresas na bolsa ainda estão com boa qualidade de crédito, diz o relatório. "Acreditamos que as principais empresas brasileiras da nossa amostra mantiveram boa qualidade de crédito, mesmo com o cenário macro desafiador", afirmam os analistas Gabriel Cirelli, Caio Lombardi e Andre Sonnervig no relatório.

No terceiro trimestre do ano, as companhias registradas na Comissão de Valores Mobiliários (CVM) seguem com alavancagem controlada, com uma relação entre dívida líquida e Ebitda de 1,9 vez, com boa liquidez de curto prazo e margens estáveis, com uma média de margem Ebitda de 23,4%, diz o relatório do banco.

No entanto, o setor do agronegócio continua preocupante. A inadimplência piorou no último trimestre. O não pagamento há mais de 90 dias do Banco do Brasil para empresas desse segmento piorou de 3,49% no segundo trimestre para 5,34% no terceiro. Já no segmento de pessoa jurídica, de maneira geral, a inadimplência está estável em 2,4%.

A lição de casa das empresas

Entre renegociações de dívida, vendas de ativos e aumentos de capital, as companhias brasileiras precisaram ser criativas para encontrar maneiras de reduzir a sua desalavancagem.

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A Azul (AZUL54) avançou em sua reestruturação, embora às custas da diluição de patrimônio dos acionistas. Outra aérea, a GOL (GOLL54) também tenta se recuperar: em julho, ela fez um aumento de capital social no valor de R$ 12 bilhões e anunciou a intenção de deixar a bolsa brasileira.

A Casas Bahia (BHIA3) aprovou um aumento de capital de mais de R$ 1 bilhão, além de medidas para melhorar o seu perfil de dívida. Em setembro, a Oncoclínicas (ONCO3) anunciou o interesse da gestora Starboard Asset em uma potencial transação para reestruturação financeira da companhia.

A Cogna (COGN3) registrou a menor alavancagem nos últimos sete anos — e acabou sendo a ação que mais se valorizou no ano passado. Até a Cosan (CSAN3) anunciou uma operação de R$ 4 bilhões para renegociar a estrutura financeira ligada à Compass Gás e Energia, em que Bradesco BBI e BTG Pactual adquiriram ações preferenciais.

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