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Publicado pela Amarcord, o volume reúne o roteiro do filme estrelado por Wagner Moura e revela o processo criativo por trás de uma narrativa marcada por múltiplas camadas e referências

O roteiro de O Agente Secreto, último filme de Kleber Mendonça Filho (Bacurau, 2019), acaba de ganhar edição em livro pelo selo Amarcord. O filme recebeu três indicações ao Globo de Ouro e venceu os prêmios de Melhor Filme em Língua Estrangeira e o de Melhor Ator. Esse último, concedido a Wagner Moura, que interpreta dois personagens: Marcelo/Armando, um professor universitário perseguido pela ditadura, e seu filho Fernando, um médico, no presente.
A resposta crítica rendeu ao filme quatro indicações ao Oscar (Melhor Filme, Melhor Filme Internacional, Melhor Ator e Melhor Direção de Elenco). O sucesso se estendeu à crítica especializada – o The New York Times criou inclusive a categoria “melhor atuação com cigarro” para homenagear a performance de Tânia Maria, costureira descoberta como atriz aos 72 anos, depois de fazer parte da figuração de Bacurau. Apesar disso, o filme tem dividido o público desde que saiu dos cinemas e entrou no catálogo da Netflix na primeira semana de março.
O longa é complexo. Faz citações que vão de O Poderoso Chefão (1972), de Francis Ford Coppola até À Prova de Morte (2007), de Quentin Tarantino. Retrata também a violência do período da ditadura de maneira estilizada. No entanto, para parte do público, é muito lento e não oferece resolução para as histórias que correm em paralelo.
Essa irresolução serve dois propósitos. Primeiro, ela emula o processo histórico da ditadura, em que tantas famílias ficaram sem respostas para o desaparecimento de seus parentes. Então, causa tensão e desconforto no espectador, um convite para passar mais tempo com a história.
Esse convite é estendido com a publicação do roteiro de O Agente Secreto (Amarcord, R$ 69,90). O livro possui prefácio de Kleber Mendonça Filho e um posfácio de Wagner Moura. Além disso, inclui croquis do diretor, fotogramas e fotos da produção do filme.
Diferente de outros roteiros, lançados meses depois do filme, a depender da resposta do público, O Agente Secreto coincide com o lançamento do longa nas plataformas de streaming e com o circuito de premiações.
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Livia Vianna, editora-executiva do selo Amarcord, do grupo Record, conta que o trabalho começou ainda durante o processo de produção do filme. “[Iniciou] quando ainda era uma ideia, precisamos começar a trabalhar antes mesmo de ver o filme, o que é desafiador, ‘vamos lá, vamos apostar e fazer transformar esse roteiro em livro’”.
“E algo que a gente precisou fazer com urgência e sabendo que tínhamos em mãos algo muito impressionante, encomendamos o prefácio ao Kleber e o posfácio ao Wagner.”
O prefácio de Mendonça Filho retrata o nascimento de O Agente Secreto. É um roteiro nascido da frustração com outros projetos e escrito durante a pandemia, entre Recife e Bordeaux. No posfácio, aliás, Wagner Moura relata sua aproximação com Kleber Mendonça Filho durante um período que os dois consideram crítico para a história brasileira.
Para Lívia, a edição procura traduzir visualmente o método de trabalho do diretor:
“Buscamos colocar a magnitude desse roteiro no papel, mostrando como é o olhar do Kleber, por isso incluímos os desenhos, o material que vai além das palavras do roteiro, imagens de bastidor e alguns frames que não foram vistos por aí…”.

Ela também relaciona os desenhos do diretor ao pensamento visual do cineasta, “mesmo com a lógica da rapidez, não pudemos abrir mão de trazer esses desenhos. Alguns se parecem até uma planta da cena, ele pensa como um arquiteto”.
O livro funciona como uma extensão do processo criativo, ampliando a experiência do filme: “sempre digo ao Kleber que o livro ‘para em pé’, ele se sustenta. Se você parar para ler, nota que está lendo algo de alguém que sabe fazer ficção.”
O roteiro publicado mostra parte do enorme esforço de construção por trás de um filme indicado ao Oscar e permite que o público conviva mais um pouco com a história, assimilando o que é dito e compreendendo aquilo que não tem resposta.
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