Repeat travel: por que viajar para o mesmo destino várias vezes?
Um dos maiores trunfos de repetir uma viagem é poder entrar em uma zona de conforto e realmente conseguir descansar durante as férias

Em um contexto em que as pessoas querem ostentar o maior número possível de bandeiras de países na bio do Instagram, um movimento de contracorrente se revela. Trata-se do repeat travel, o ato de visitar o mesmo destino várias vezes.
A prática já é bem comum entre quem possui casas de praias ou casas no campo. Afinal, ter uma segunda residência passa por uma série de decisões que começam, sobretudo, com a pergunta: “eu quero voltar aqui repetidas vezes, durante anos?”
Mas o fato de deter uma propriedade não é o único critério que faz uma pessoa voltar ao mesmo local mais de vez. Assim como a repetição de destinos não é exclusiva aos proprietários de imóveis de veraneio, ela é mais comum a uma classe de viajantes experientes.
Segundo a pesquisadora de turismo da Universidade de São Paulo, Mariana Aldrigui, são muitos os fatores que podem transformar um turista em um repeat traveller. Um evento anual, a efervescência da cena cultural. Além disso, ela cita as constantes renovações em um destino ou, em muitos dos casos, o vínculo afetivo formado com um local.
- Uma das tendências de turismo mapeadas pela plataforma de viagens Priceline é precisamente o “déjàview”: 82% dos viajantes millenials e da geração Z querem voltar aos lugares que os marcaram durante a infância. O movimento conversa diretamente com o desejo cada vez mais latente entre os viajantes de se conectar e resgatar raízes durante suas viagens.
Mas para além da possibilidade de revisitar os antigos favoritos, o repeat travel também carrega outras vantagens.
Por que você deveria viajar várias vezes para o mesmo lugar
O planejamento logístico e o elevado número de passos por dia são intrínsecos a uma viagem. Às vezes, soma-se a isso o esforço mental de falar um idioma estrangeiro .
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Mas justamente por conta de todo esse trabalho que envolve viajar, você provavelmente já se deparou com a sensação de querer férias para descansar das férias.
Aí está um dos maiores trunfos do repeat travel: poder entrar em uma zona de conforto. Você já conhece os melhores restaurantes. Já sabe onde dobrar em cada esquina. Dominou o sistema de transporte ou as estradas, e, principalmente, enfrentou as filas dos pontos turísticos mais clássicos.
É repetindo um destino que você pode conhecer o “lado B” do local, descobrir os segredos e fazer a sua própria lista de favoritos, que não é formada pelas recomendações de terceiros. Em suma, praticar o slow travel, uma tendência-irmã amplamente discutida entre pesquisadores de turismo.
Em um contexto em que viajantes querem roteiros mais autênticos e personalizados, o ato de repetir destino te permite ter mais experiências como um local ao invés de só ficar batendo ponto nas atrações mais visitadas.
É ir ao Louvre e apreciar as obras de arte além da Monalisa. É ir a Roma e não madrugar para pegar a Fontana di Trevi vazia.
Um estudo da Euronews do ano passado confirmou que este já é um comportamento da geração Z: 68% preferem descobrir lugares fora da rota do que dar check nos marcos conhecidos.
Entre o repeat travel e o overtourism
Para além do âmbito individual, o repeat travel toca em um ponto nevrálgico para o turismo como indústria. O da sustentabilidade.
“Pesquisadores começaram a indicar que era muito mais interessante fidelizar um turista, fazer com que ele ou ficasse o máximo possível na primeira viagem ou voltasse mais vezes, para ocupar outros espaços. Esta é a grande questão de Veneza, por exemplo: as pessoas descem dos navios, fazem as mesmas rotas, e retornam à embarcação”, explica Aldrigui.
Mas existem nuances a serem delineadas nesse argumento.

O ato de repetir destinos carrega consigo também a problemática do overtourism, representada de forma explícita pelo dado gritante da McKinsey: 80% do turismo no mundo está em 10% dos destinos.
Mesmo que visitando lugares diferentes e se hospedando fora do centro, o repeat travel em cidades que já lidam com o turismo em massa acaba sobrecarregando as infraestruturas do destino. Ir a Barcelona e não visitar outras vezes as causas de Gaudí ainda assim é ir a Barcelona e contribuir para a superlotação da cidade.

Rentabilizando o turista
Do ponto de vista de negócios para os destinos, o repeat traveller é uma mina de ouro.
Um artigo acadêmico publicado no Journal of Tourism Futures mostra que esse tipo de viajante tende a prolongar suas estadias, engajar mais ativamente em atividades que envolvem consumo, expressar níveis mais altos de satisfação e contribuir positivamente pro “boca a boca”. Atrair de novo um público já conquistado significa também ter menos gastos de marketing.
Atualmente, empresas como Hilton, Accor, Marriott e The Leading Hotels of the World usam programas de fidelidade como uma das estratégias para atrair repetidamente o mesmo viajante para a sua rede de hotéis, espalhados pelo mundo.
Proprietários de hotéis independentes apostam em oferecer a experiência mais única para o viajante para que ele queira retornar.
Mas, no fim, o repeat travel é muito mais sobre o destino do que sobre a hospedagem, diz Mariana Aldrigui.
O renascimento do Rio de Janeiro
Fica a cargo então dos próprios escritórios de turismo saberem aproveitar essa janela de oportunidade para fazer os visitantes voltarem repetidas vezes.
Um dos cases recentes citados pela pesquisadora da USP é o do Rio de Janeiro, eleito como um dos 20 destinos mais desejados para visitar em 2026 pelo jornal britânico The Telegraph e como um dos melhores para conhecer pela revista National Geographic.
“A partir de 2023, o Rio de Janeiro começou a se reapresentar para o mundo, especialmente para o turista internacional mais jovem. Quando você olha para as redes sociais, basicamente o que você vê são jovens de diferentes nacionalidades aproveitando a cidade ao máximo”, diz.
Entre janeiro e novembro de 2025, quase dois milhões de estrangeiros foram à Cidade Maravilhosa, segundo a RioTur.
O interesse cada vez maior dos gringos pelo destino, romantizado sob as lentes do “Brazil core”, fizeram com que muitos brasileiros voltassem a se interessar pelo RJ, outrora escanteado pelos estigmas de violência e insegurança.
Em outras palavras, fez com que turistas nacionais dessem mais uma chance para, quem sabe, tornar o Rio um destino para o repeat travel.
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