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Com cerca de 100 mil turistas por ano, Vlkolínec, na Eslováquia, vê crescer o debate sobre os limites entre preservar um patrimônio histórico e garantir qualidade de vida para quem mora ali

Entrar para a lista de Patrimônios Mundiais da Unesco foi visto como uma espécie de selo de ouro para cidades e monumentos históricos. O reconhecimento costuma trazer prestígio internacional, investimentos em preservação e, principalmente, turistas. Mas e quando o sucesso se torna um problema?
É exatamente essa discussão que vem tomando conta de Vlkolínec, (se pronuncia vol-co-lí-niets) um pequeno vilarejo encravado nas montanhas da Eslováquia. O destino, reconhecido pela Unesco desde 1993 por preservar uma rara arquitetura rural da Europa Central, hoje enfrenta um dilema. Alguns moradores acreditam que perder o título seria, na verdade, um alívio.
Isso porque, enquanto apenas 17 pessoas vivem atualmente na vila, aproximadamente 100 mil turistas passam por suas ruas todos os anos. A conta não fecha para quem precisa dividir o quintal, a janela e até a porta de casa com visitantes curiosos.

Vlkolínec fica a cerca de 250 quilômetros de Bratislava, capital da Eslováquia. Apesar da viagem de carro levar mais de três horas, o local se tornou uma parada obrigatória para quem visita o país graças ao reconhecimento da Unesco.
O problema é que a vila nunca foi planejada para receber esse volume de visitantes. Diferentemente de muitos centros históricos transformados em atrações turísticas, Vlkolínec continua sendo uma comunidade residencial. As casas de madeira preservadas ao longo dos séculos não são cenários ou réplicas, elas continuam sendo lares.
Por isso, placas como "Propriedade privada", "Entrada proibida" e "Não fotografe" se espalharam pelas fachadas. Ainda assim, segundo relatos de moradores à agência France-Presse (AFP), muitos visitantes entram em jardins, espiam pelas janelas e registram fotos das residências sem autorização.
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Esse fenômeno acompanha uma tendência observada em diversos destinos turísticos europeus. Barcelona, na Espanha, por exemplo, está adotando medidas para frear o turismo em massa. A capital catalã quer limitar o fluxo anual a 16 milhões de visitantes, acabar com apartamentos turísticos, aumentar impostos e devolver bairros aos moradores.
O contraste entre moradores e turistas chama ainda mais atenção quando se observa a história da vila. Há cerca de 150 anos, Vlkolínec abrigava mais de 300 habitantes. Hoje, restam apenas 17 moradores permanentes.
A vila foi inscrita como Patrimônio Mundial em 1993 por conservar praticamente intacta a configuração de uma antiga comunidade rural da Europa Central.
Segundo a Unesco, Vlkolínec representa um exemplo excepcional de assentamento tradicional, preservando 43 casas de madeira originais, além de celeiros, construções auxiliares e técnicas construtivas que praticamente desapareceram em outras regiões do continente.
Ao contrário de museus históricos recriados para visitantes, a vila permaneceu habitada ao longo dos séculos, característica considerada um dos principais motivos para sua inclusão na lista.

Apesar das críticas de parte dos moradores, a prefeitura de Ružomberok, município responsável por administrar Vlkolínec, descarta qualquer possibilidade de solicitar a retirada do patrimônio da lista da Unesco.
Para Miroslav Parobek, chefe do departamento de Cultura e Turismo da cidade, o reconhecimento continua sendo importante para preservar o local. "Isto não é um museu a céu aberto. É uma aldeia viva", afirmou à AFP.
Como forma de compensação pelos impactos do turismo, os moradores recebem cerca de 400 euros por ano (aproximadamente R$ 2,6 mil, na cotação atual) pagos pelo município. Ainda assim, muitos consideram que o valor está longe de compensar a perda de privacidade.
O excesso de visitantes também afeta quem viaja até a vila. Sem infraestrutura adequada, Vlkolínec enfrenta dificuldades para receber grandes volumes de pessoas. O vilarejo dispõe de poucas vagas de estacionamento, acesso limitado e número insuficiente de banheiros públicos.
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