Antes “decorativa”, Arte Popular ganha força no colecionismo; veja como (e por onde) começar
Como uma mudança de olhar sobre o regionalismo abandonou o pejorativo e ganhou espaço ente colecionadores, dentro e fora do Brasil

Quando falamos de arte, quase sempre pensamos em Arte Contemporânea. Galerias, museus, feiras. Fala-se em artistas, grandes nomes como Adriana Varejão, Beatriz Milhazes ou Vik Muniz. Mesmo para entusiastas da história, referências incluem Di Cavalcanti, Brecheret ou Volpi. Mas fora deste lugar especifico, o que de fato a gente conhece?
Porque arte são muitas coisas diferentes – e uma coleção boa contempla todas elas. E, ainda que muitos acervos tenham sido construídos com um olhar voltado para um circuito contemporâneo, essa estratégia, sozinha, não constrói uma coleção de peso. Tão valiosa quanto a trajetória do artista, é a trajetória do colecionador. O nome de quem coleciona, afinal, também valoriza um artista.
Nomes de peso no colecionismo não foram só bons investidores. Eles também investiram em carreiras, apostaram em criar uma coleção com uma “cara”, em deixar uma marca. Sobretudo, eles buscaram, além da linha de frente do mercado, por aquilo que construía sentido nessas coleções.
Dentro de muitos fatores, essa foi a guinada na valorização relativamente recente da chamada Arte Popular.
Entre o artesanato e a decoração
Voltemos a uma questão linguística: arte, artesanato, arte popular, tudo com minúscula mesmo, são nomenclaturas mercadológicas. Isso porque elas não descrevem valor simbólico, tampouco relevância cultural: elas descrevem preço.
Foi esse entendimento que norteou alguns colecionadores na aquisição de Arte Popular como uma outra forma de valorizar arte brasileira. No radar, surge o objetivo de renovar uma coleção com obras que saiam de um circuito viciado. De 10 anos pra cá, esse entendimento e essa validação foi se consolidando e expandindo, não só pela qualidade da Arte Popular brasileira, como pelo tíquete mais baixo que o de muita Arte Contemporânea.
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E, se antes o artesanato era um apelido pejorativo, ele também fundamentou um acesso como decoração, como objeto afetivo. Essa é uma relação que a Arte Contemporânea não tem com a maioria das pessoas. Isso porque, historicamente, o termo se associa mais ao luxo do que ao cotidiano, enquanto a Arte Popular segue atrelada às manualidades, ao imaginário regionalista.
O que muita gente não esperava era que esse regionalismo ia entrar na moda. Artistas ribeirinhos, comunidades de artesãos, grandes mestres da arte popular passaram a serem representados por galerias e a entrarem no circuito da Arte Contemporânea. E não mais como objetos de design, mas como trabalhos fundamentalmente brasileiros, com forte apelo ao mercado internacional. Sem o “popular” pra qualificar, entendendo que a distinção se referia mais à temática deste tipo de produção do que à qualidade.
Ilha do Ferro: arte, turismo e memória
Outro ponto que valorizou a Arte Popular foi o turismo. Se antes muito do que se consumia era generelizado como recordação de viagens, hoje muitos roteiros se voltam às rotas de ateliês e cooperativas de artesania.
Um dos principais destinos desse turismo e da arte popular é a Ilha do Ferro, em Alagoas. Às margens do rio São Francisco, hoje ela é mundialmente conhecida como um polo de de arte, repleta de ateliês e famosa pelas obras em madeira e bordado.
Além de uma viagem maravilhosa, é também a oportunidade de começar uma coleção sem precisar gastar grandes fortunas. O desafio é não querer levar tudo. Ali, técnicas tradicionais, acabamentos bem feitos e um imaginário que celebra fauna, flora e cultura brasileira, grande parte das peças também são utilitárias.
Essa fronteira entre o design, a arte e o artesanato aqui entra como um grande elogio. O espaço introduz de um jeito elegante, inclusive a quem não pensa em colecionar, a possibilidade de ter arte em casa.
Investir em cultura e diversidade, em ultima instância, alimenta a visão da coleção com repertório. E repertório na arte é bom investimento.
Revisitando a própria cultura e o valor do popular
Assim como tudo o que é atravessado pela lógica do consumo, a Arte Popular vai ter modismos. Repensar a cultura brasileira tem sido um deles. Grandes nomes, artistas com projeção no mercado e bons investimentos tem fortes laços regionais.
Esse ideal modernista de Brasil dos brasileiros finalmente se concretiza de fato, numa produção que fala da gente pelo ponto de vista de muita gente. Antonio Obá é um desses nomes. Dalton Paula também. Ernesto Neto transformou crochê em Arte Contemporânea. Vivian Caccuri fez isso com o bordado e a tela de mosquiteiro.
Mais que reinterpretar a história do Brasil, eles movimentam grande parte do mercado primário e até secundário. Isso não só valorizou essas obras, mas também a visão do colecionador que viu, antes do próprio mercado, uma série de artistas talentosos e com apelo comercial. A recompensa foi a grata surpresa de ver essas obras ganharem não só reconhecimento cultural, mas também financeiro.
Como muito do que hoje é trend, a Arte Popular pode comprovar-se como investimento amanhã. Antes entendida como artesanato, a Arte Popular passou a servir como porta de entrada para esse novo colecionismo. Quem entendeu isso investiu bem.
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