Barcelona não quer mais turistas: como nova medida busca frear overtourism histórico na cidade
Capital catalã quer limitar o fluxo anual a 16 milhões de visitantes, acabar com apartamentos turísticos, aumentar impostos e devolver bairros aos moradores

Barcelona passou décadas investindo para atrair visitantes e se consolidou como um dos principais destinos turísticos da Europa. A estratégia deu certo, o turismo se tornou um dos motores da economia local. Mas o sucesso acabou gerando um novo problema. Com milhões de visitantes todos os anos, a cidade agora tenta uma nova medida para frear os impactos do turismo de massa.
Depois de quase dez anos adotando medidas para controlar os efeitos dessa superlotação, a capital da Catalunha decidiu estabelecer um limite informal para o número de visitantes: cerca de 16 milhões de turistas por ano. A administração municipal, porém, não definiu um prazo para alcançar esse objetivo.
A cidade e região metropolitana receberam 26 milhões de visitantes em 2025 e não pretende ultrapassar esse patamar. "Nem um turista a mais" passou a ser o novo lema da administração municipal, segundo José Antonio Donaire, primeiro comissário de Turismo Sustentável de Barcelona em entrevista ao The New York Times publicada na segunda-feira, 14.
Desde 2017, inclusiva, a cidade registra manifestações frequentes contra o turismo de massa. Ativistas realizam passeatas, atos simbólicos e pichações. Nas paredes, frases como "Turistas, vão para casa", "Sua viagem de luxo é minha miséria diária" e "Hipsters e turismo: nova forma de terrorismo" estampam muros de bairros turísticos.

O problema de virar vítima do próprio sucesso
O turismo responde por uma parcela importante da economia de Barcelona. Segundo o Observatori del Turisme a Barcelona (OTB), os gastos dos visitantes geraram um impacto econômico direto de 10 bilhões de euros na cidade em 2025. Mas o crescimento acelerado da atividade passou a pressionar a infraestrutura urbana e, principalmente, o mercado imobiliário.
Nos últimos anos, bairros turísticos como Barri Gòtic (Bairro Gótico), El Born, La Barceloneta e partes do Eixample perderam moradores para apartamentos de aluguel de curta temporada, enquanto o aumento da demanda elevou os preços dos imóveis e dos aluguéis. Ao mesmo tempo, locais históricos passaram a ser ocupados por lojas de souvenirs, bares e estabelecimentos voltados quase exclusivamente aos visitantes.
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O fenômeno ganhou um nome: overtourism, ou turismo excessivo. O termo descreve situações em que um destino recebe mais visitantes do que consegue absorver sem comprometer a qualidade de vida da população e a própria experiência turística.
A estratégia: não crescer, mas mudar o perfil do visitante
Barcelona, no entanto, não pretende fechar as portas para turistas. O objetivo é reduzir a dependência do turismo de massa e priorizar visitantes que permaneçam mais tempo na cidade e gerem maior retorno econômico.
A prefeitura pretende equilibrar o perfil dos visitantes para que, no futuro, o fluxo seja dividido entre três grupos: turistas de lazer, visitantes motivados por cultura e viajantes de negócios.
A avaliação da administração municipal é que esse modelo distribui melhor os gastos, reduz a concentração em atrações específicas e diminui a pressão sobre os bairros mais turísticos.

Como Barcelona pretende reduzir o excesso de turistas
O teto de visitantes é apenas uma das medidas adotadas pela cidade. Nos últimos anos, Barcelona vem montando um pacote de ações para tornar o turismo mais sustentável.
Fim dos apartamentos turísticos
Uma das decisões mais polêmicas foi extinguir, até 2028, as licenças para apartamentos destinados exclusivamente ao aluguel por temporada.
A prefeitura argumenta que milhares de imóveis deixaram de atender moradores para serem anunciados em plataformas de hospedagem, pressionando ainda mais os preços da habitação. A expectativa é que essas unidades retornem ao mercado residencial.
Taxa turística mais alta
Outra aposta é aumentar a cobrança sobre visitantes. Neste ano, Barcelona elevou a taxa turística para um dos níveis mais altos da Europa. Dependendo da categoria da hospedagem, turistas podem pagar até 15 euros por noite. Parte da arrecadação será destinada a projetos de habitação e ao financiamento de serviços públicos utilizados pelos visitantes, como transporte, limpeza urbana e segurança.
Segundo Donaire, a ideia é que os próprios turistas arquem com os custos gerados pelo turismo, reduzindo o peso para os moradores.
Menos cruzeiros de um dia
Outro alvo da prefeitura são os cruzeiros que fazem apenas escalas rápidas em Barcelona. Na avaliação da administração municipal, esses passageiros concentram grande fluxo em poucas horas, utilizam infraestrutura pública e deixam relativamente pouco dinheiro na economia local.
Por isso, a cidade pretende elevar os impostos cobrados desse tipo de visitante e desencorajar esse modelo de turismo.
Recuperar espaços para quem mora na cidade
Além de controlar o fluxo de visitantes, Barcelona quer devolver parte da cidade aos moradores. O Mercado de La Boqueria, por exemplo, deverá incentivar novamente bancas de produtos frescos e itens do cotidiano, reduzindo a predominância de alimentos prontos voltados aos turistas.
A mesma lógica vale para La Rambla. O objetivo é estimular um comércio mais diversificado, permitindo que os bairros mantenham serviços utilizados pela população local, e não apenas lojas voltadas ao turismo.
Um movimento que vai além de Barcelona
A discussão sobre turismo excessivo deixou de ser exclusiva da cidade catalã.
Nos últimos anos, destinos como Veneza, Amsterdã, Maiorca, Ibiza e diversas ilhas gregas passaram a adotar medidas para limitar o crescimento do turismo, seja por meio de taxas mais altas, restrições a navios de cruzeiro, controle de hospedagens de curta duração ou limitação de novos hotéis.
O motivo é semelhante em todos eles: preservar a qualidade de vida dos moradores sem abrir mão dos benefícios econômicos trazidos pelo turismo. Barcelona, no entanto, tornou-se um dos casos mais emblemáticos por assumir publicamente que seu objetivo não é mais aumentar o número de visitantes.
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