Greve no museu? Funcionários denunciam rotina “estilo Amazon” em um dos endereços mais famosos do mundo e ameaçam paralisação
Trabalhadores do Victoria and Albert, em Londres, alegam condições de trabalho rígidas e pedem melhores salários

Os museus Victoria and Albert (V&A), um dos mais tradicionais do Reino Unido, enfrentam uma crise trabalhista. Funcionários de quatro unidades da instituição aprovaram, por ampla maioria, a possibilidade de entrar em greve após denunciarem condições de trabalho consideradas inadequadas, especialmente durante as recentes ondas de calor que atingiram Londres.
Entre as principais reclamações estão restrições para fazer pausas, dificuldade para se hidratar e salários considerados insuficientes. Os sindicatos também cobram reajustes salariais e melhores condições de trabalho.
Acusações de rotina "estilo Amazon"
As críticas se concentram principalmente no V&A East Storehouse, centro de armazenamento inaugurado em maio de 2025, no leste de Londres. O espaço permite que visitantes solicitem peças do acervo para observação e, em alguns casos, até para manuseio.
Segundo o sindicato Prospect, os funcionários responsáveis por atender esses pedidos trabalham sob uma rotina comparada à de grandes centros logísticos, como os da Amazon.
De acordo com a entidade, os chamados agentes de acesso às coleções não tinham direito a pausas pela manhã ou à tarde. Com isso, muitos deixavam de beber água ou de ir ao banheiro para cumprir as tarefas dentro do tempo previsto.
Após as reclamações, o museu concordou em conceder dois intervalos remunerados de 15 minutos por turno, segundo o sindicato. A insatisfação, no entanto, permanece.
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Votação teve apoio quase unânime
No V&A East Storehouse, 88% dos sindicalizados participaram da votação organizada pelo Prospect. Todos os participantes apoiaram uma eventual greve. Além disso, 92% também aprovaram outras formas de mobilização antes da paralisação.
Considerando as quatro unidades do V&A em Londres (South Kensington, V&A East Storehouse, V&A East Museum e Young V&A), 83% dos trabalhadores votaram a favor da greve, com participação de 82% dos sindicalizados.
Apesar do resultado expressivo, os sindicatos ainda não definiram quando uma eventual paralisação poderá acontecer.
Salários também estão no centro da disputa
Além das condições de trabalho, os funcionários reivindicam melhorias salariais. Entre os pedidos apresentados pelo Prospect estão reajuste mínimo de 4% para funcionários que recebem acima do salário digno, pagamento de hora e meia para quem trabalha em feriados e certificação do museu como empregador do chamado London Living Wage, o salário digno calculado para Londres.
Enquanto isso, outro sindicato, o Public and Commercial Services Union (PCS), também iniciou uma votação para decidir sobre uma possível greve. A consulta começou em 23 de julho e segue aberta até 20 de agosto.
O PCS afirma ainda que a direção do V&A se recusou a negociar uma proposta salarial mais vantajosa para parte dos funcionários. Em uma petição direcionada à secretária de Cultura britânica, Lisa Nandy, e ao diretor do museu, Tristram Hunt, o sindicato criticou o argumento apresentado pela administração.
"Quando mencionamos que curadores de outras instituições recebem salários maiores, nos dizem que um aumento só seria possível reduzindo o salário dos colegas da recepção. Todos merecem remuneração justa", afirma o documento.
Ondas de calor agravaram as reclamações
As altas temperaturas registradas no Reino Unido também aumentaram a tensão entre funcionários e administração. Segundo o PCS, trabalhadores do V&A East Storehouse não podem levar garrafas de água para determinadas áreas do prédio devido às regras de preservação das coleções.
Já na unidade de South Kensington, assistentes de galeria teriam sido escalados para trabalhar nos jardins mesmo durante dias de calor intenso. Um funcionário relatou ao sindicato que a dificuldade para acessar água o deixou desidratado em diversas ocasiões e que chegou a desmaiar ao voltar para casa depois do expediente.
Diante das ondas de calor, o PCS defende que os museus fechem as portas quando a temperatura atingir 30°C, além da adoção de protocolos específicos para proteger trabalhadores e visitantes.
Museu rebate acusações
O V&A contesta as alegações dos sindicatos. Em nota enviada ao portal The Art Newspaper, a instituição afirmou que mantém negociações com os representantes dos trabalhadores desde fevereiro.
Segundo o museu, a proposta salarial apresentada inclui aumento equivalente a 3,6% da folha de pagamento, reajuste acima da inflação para todos os funcionários e alta de 6,9% para os empregados com menores salários.
O V&A também afirmou que todos os trabalhadores têm acesso a banheiros, água potável e pausas regulares durante o expediente.
Em relação ao V&A East Storehouse, a administração explicou que existem bebedouros em todos os andares. No entanto, alimentos e bebidas continuam proibidos nas áreas onde ficam armazenadas as obras, como medida para preservar o acervo.
Além disso, o museu informou que adotou ações durante a recente onda de calor, como pausas extras, revezamento de funcionários, fechamento temporário de algumas galerias em South Kensington e o fechamento completo do Young V&A durante onze dias nos períodos de temperaturas mais elevadas.
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