Cem anos com corpinho de 20: Pilates se reinventa e vive novo auge um século após sua criação
Especialistas explicam as diferentes vertentes do método, os benefícios terapêuticos e os cuidados essenciais antes de começar a praticar

Quase 100 anos após sua criação por Joseph Pilates, o método segue mais atual do que nunca. Ele está em estúdios especializados, nas academias, clínicas de fisioterapia e, você já deve ter reparado, nos feeds por aí. Não é à toa que faz tanto sucesso. O Pilates é queridinho por unir diferentes benefícios em uma única prática, do fortalecimento muscular à mobilidade, da flexibilidade à consciência corporal.
E se antes era associada principalmente à reabilitação física e à correção postural, hoje atrai um público muito maior. É que novos formatos de aula, equipamentos e abordagens mais dinâmicas fizeram do Pilates uma escolha tanto para quem busca condicionamento físico quanto para quem procura bem-estar, qualidade de vida ou apenas um hobby.
Dados da Wellhub mostram que os check-ins de Pilates cresceram 277,6% no Brasil entre 2019 e 2024. Isso coloca a modalidade entre as atividades físicas mais procuradas do país. Enquanto isso, o mercado de estúdios de Pilates e Yoga foi avaliado em US$ 120,9 bilhões em 2024. A expectativa é de que alcance US$ 520,6 bilhões até 2035, segundo um estudo da Allied Market Research.
Para descobrir o que acontece em uma aula de Pilates, conversamos com a fisioterapeuta Thainá Messias e a especialista em Fisiologia do Exercício Marcia Berlanga Equi Godoy.
Yoga, ginástica e artes marciais num só lugar
Parte do sucesso do Pilates está justamente na mistura de influências que deu origem ao método. Segundo Thainá Messias, fisioterapeuta da Pure Pilates, a prática reúne elementos do yoga, da ginástica e das artes marciais. Foi a partir dessa combinação que Joseph Pilates desenvolveu, na década de 1920, um sistema de exercícios voltado para o fortalecimento e o controle do corpo como um todo.
Apesar das transformações que o método passou ao longo do tempo, alguns princípios continuam sendo a sua base: concentração, controle, precisão dos movimentos e respiração. Cada exercício se executa com atenção aos detalhes, priorizando a qualidade do movimento em vez da quantidade de repetições.
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No centro de tudo está o chamado core, conjunto de músculos que envolve abdômen, costas e pelve. E não, a ideia não é conquistar um abdômen definido. O fortalecimento dessa região ajuda a melhorar o alinhamento corporal, dá mais estabilidade aos movimentos e reduz a sobrecarga nas articulações. “O objetivo principal não é a hipertrofia muscular, mas sim o ganho de estabilidade, mobilidade e condicionamento físico”, esclarece Messias.
Não por acaso, o Pilates costuma ser associado à melhora da postura e ao alívio de dores nas costas, duas queixas cada vez mais comuns na rotina de quem passa horas sentado diante do computador.
Do clássico ao suspenso
Ao longo de quase um século, o Pilates também ganhou novas versões. Segundo Messias, hoje existem diferentes modalidades que mantêm os princípios do método, mas adaptam a experiência para perfis e objetivos variados.
“O Pilates Clássico mantém os exercícios e aparelhos criados por Joseph Pilates, enquanto o Pilates Contemporâneo incorpora conhecimentos da biomecânica e utiliza acessórios, como bolas e faixas elásticas, para ampliar as possibilidades de trabalho”, conta a profissional.
A fisioterapeuta também cita o Mat Pilates, realizado no solo com o peso do próprio corpo, um dos queridinhos do momento. E também o Pilates Suspenso e o Neo Pilates, que combinam a técnica tradicional com exercícios funcionais e movimentos mais dinâmicos, como explica Messias.
Isso faz com que o Pilates circule por universos bastante diferentes. Há quem chegue ao método por indicação médica ou quem o procure como atividade física. Também existe quem encontre nele uma forma de desacelerar e cuidar do corpo. E a tecnologia, isso não é surpresa, também contribuiu para ampliar esse alcance.
É que além dos estúdios físicos, atualmente é possível encontrar aulas ao vivo e até aplicativos para acompanhar a evolução dos treinos. Segundo a Allied Market Research, essa combinação entre experiências presenciais e online tem ajudado no crescimento do setor e inclusive levado o Pilates a um público cada vez maior.

Do estúdio ao consultório
Embora muita gente procure o Pilates para melhorar o condicionamento físico, o método também ocupa um espaço importante na área da saúde. E é aí que atua Marcia Berlanga Equi Godoy, especialista em Fisiologia do Exercício pela UNIFESP e professora do curso de Fisioterapia da Faculdade Santa Marcelina.
De acordo com a especialista, os benefícios terapêuticos do Pilates estão na combinação de diferentes elementos que trabalham de forma integrada. “Ele consegue unir exercícios de alongamento e fortalecimento muscular ao controle da respiração e à ativação do core, que é o nosso centro de força. Essa combinação melhora a estabilidade da postura, o equilíbrio neuromuscular e a flexibilidade, o que ajuda a otimizar o funcionamento de todo o sistema musculoesquelético.”
Godoy explica que o controle respiratório, um dos pilares do método, também promove adaptações positivas em outros sistemas do organismo. “Esse controle respiratório junto com o movimento traz adaptações positivas para os sistemas cardiovascular e respiratório. Isso gera benefícios sistêmicos e melhora a funcionalidade global do paciente.”
No fim da aula, os resultados vão além de uma postura mais alinhada ou de um corpo mais forte. Entre os benefícios estão a redução de dores, o aumento da flexibilidade, a melhora do equilíbrio e uma maior sensação de bem-estar. De acordo com Godoy, isso acontece porque o Pilates trabalha corpo e a respiração de forma integrada. Isso cria condições para que o organismo funcione de maneira mais eficiente no dia a dia.

Quem pode praticar?
Basta passar alguns minutos em um estúdio de Pilates para perceber a variedade de perfis que a modalidade atrai. Na área da saúde, o método também serve como ferramenta complementar em diferentes tratamentos.
“O Pilates é recurso terapêutico para quem tem disfunções musculoesqueléticas, como hérnia de disco, osteoartrite, tendinopatias e bursites, e também para populações específicas, como idosos e gestantes”, explica Marcia Godoy.
E, embora seja reconhecido como uma atividade de baixo impacto, o Pilates não é exatamente uma modalidade sem restrições. “Condições clínicas agudas, instabilidade sistêmica ou lesões que ainda não consolidaram podem contraindicar a prática temporariamente”, explica a especialista.
Há ainda situações em que os exercícios precisam ser adaptados e acompanhados de perto. “Hérnias discais, osteoporose e doenças cardiovasculares entram como contraindicações relativas. Isso significa que elas exigem adaptação dos exercícios e acompanhamento profissional”, diz Godoy.
Thainá Messias acrescenta que casos como pós-operatórios recentes, inflamações ativas, crises agudas de hérnia de disco, gestação de risco e doenças cardíacas descompensadas também merecem avaliação médica antes do início das aulas.
Com mais gente descobrindo o Pilates, é bom saber: a importância da orientação profissional, especialmente para quem convive com dores, lesões ou alguma condição de saúde específica.
“Praticar sem um acompanhamento qualificado pode levar à execução errada dos movimentos, sobrecarregar as estruturas musculoesqueléticas e aumentar o risco de lesões”, lembra Marcia Godoy. Quando existem condições como hérnia de disco ou escoliose, esse cuidado se torna ainda mais importante, já que pode piorar o quadro clínico e gerar compensações musculares inadequadas.
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