Super Quarta com os dias contados? Nova proposta do presidente do Fed pode deixar investidor ainda mais no escuro
O presidente do Fed quer reduzir o número de reuniões do banco central norte-americano e eliminar as pistas do forward guidance; entenda como a mudança ameaça o futuro das Super Quartas

Em quase duas décadas, a vida do investidor lembrou um jogo de palavras cruzadas com o gabarito no final. Agora, Kevin Warsh quer fechar a revista. A ata do Federal Reserve (Fed) divulgada nesta quarta-feira (19) trouxe uma novidade que promete mudar ainda mais o ritmo dos mercados: o presidente do banco central norte-americano quer enxugar o calendário de reuniões.
O resumo dos encontros de 28 e 29 de julho apontou que os indicadores econômicos mudaram pouco desde junho. Diante disso, Warsh observou que reduzir a agenda atual das reuniões de oito por ano para seis, "realizadas aproximadamente a cada dois meses", poderia ser produtivo.
Tal medida "permitiria que mais informações se acumulassem entre as reuniões do que na prática atual e daria mais tempo aos formuladores e à equipe para considerar questões estratégicas de política monetária", afirma a ata.
A intenção de dar mais tempo para a equipe avaliar questões estratégicas tira (de novo) da Faria Lima e de Wall Street o hábito de receber orientações mastigadas a cada seis semanas.
Além de aprofundar o fim do forward guidance (a orientação futura), a medida, se adotada, promete desmontar uma das datas mais aguardadas do mercado: as consagradas Super Quartas, que combinam as decisões de juros nos EUA e no Brasil, dificilmente continuarão sendo as mesmas.
Em 2025, por exemplo, praticamente todas as decisões do Fed e do BC brasileiro caíram na mesma quarta-feira — com apenas uma delas ficando de fora dessa coincidência de calendário.
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Neste ano, não teremos Super Quarta em duas de oito reuniões: o Fed decidiu juros em 28 e 29 de julho e o BC brasileiro em 4 e 5 de agosto, e o Fed se encontra em 27 e 28 de novembro, enquanto por aqui, a decisão acontece antes, em 3 e 4 de novembro.
Os possíveis desencontros entre as reuniões sobre o futuro dos juros no Brasil e nos EUA, no entanto, não devem acontecer agora.
"O presidente pediu opiniões do comitê sobre essas questões, mas nenhuma decisão sobre possíveis mudanças na agenda da reunião foi tomada, e o presidente indicou que qualquer mudança na prática não afetaria a programação durante o restante de 2026", diz a ata.
Sem respostas na última página
A redução do número de reuniões, não é a única mudança que Warsh pretende implementar nas decisões de juros nos EUA.
A crise financeira de 2008 fez o banco central norte-americano praticamente dar as respostas das palavras cruzadas dos juros, com forward guidance, projeções econômicas a cada trimestre, o dot plot (o famoso gráfico de pontos sobre os juros) e as coletivas ao final de cada encontro de política monetária.
Desde então, a especialidade do mercado passou a ser descobrir se a troca de some (alguns) por several (vários) na ata significa a manutenção, o corte ou o aumento de 0,25 ponto percentual (pp) nos juros.
O mercado também virou especialista em dados específicos da economia norte-americana: um PCE (índice de preços para gastos pessoais) ou um payroll (o principal relatório de emprego dos EUA) mais brando significava um Fed mais favorável ao afrouxamento monetário.
O resultado de quase duas décadas de respostas no fim do livro deu origem a um mercado que não era bom em estimar dados econômicos, mas em como o Fed leria esses indicadores para definir os juros — não importava se 200 mil vagas de emprego eram muito ou pouco e sim se essas 200 mil vagas eram muito ou pouco para o banco central norte-americano.
Warsh propôs inverter essa lógica. Em vez de o Fed falar e o mercado reagir, ele quer que mercado reaja primeiro, o banco central observe e só depois tome uma decisão.
As mudanças de Kevin Warsh
Warsh comandou a primeira decisão sobre juros nos EUA nos dias 16 e 17 de julho deste ano, substituindo Jerome Powell, cujo mandando no comando do banco central norte-americano havia expirado em maio.
Já naquela ocasião, quem acompanhou o comunicado que trouxe a decisão de manter os juros nos EUA inalterados (na faixa entre 3,50% e 3,75%, onde estão desde o começo do ano) notou que o novo presidente do Fed promoveu uma revisão e eliminou o forward guidance.
E esse era só o começo das mudanças que podem dar origem a uma nova era no Fed — os jornalistas ali presentes, muitos deles habituados a cobrir política monetária há anos, tinham dificuldades de esconder a surpresa dos anúncios que se seguiram.
O principal deles foi a criação de uma força-tarefa que será responsável por passar um pente fino em todas as práticas do banco central norte-americano. Elas serão divididas em cinco áreas.
Na época, Warsh disse que seriam estudados os comunicados do Fed, fontes de dados, balanço patrimonial e produtividade e emprego — esta última avaliará também o alcance da inteligência artificial e novas tecnologias.
As forças-tarefas funcionam da seguinte maneira: cada grupo de trabalho conta com especialistas (um deles, brasileiro) e terá o apoio da equipe do Fed. Com base nos levantamentos que já estão sendo feitos e devem terminar no final deste ano, Warsh pretende propor alterações, inclusive na divulgação das projeções econômicas.
O Seu Dinheiro detalhou as propostas e você pode conferir todas elas aqui.
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Mercado sem respostas, mas com apostas
Sem respostas claras no fim da página, o mercado precisou se apegar ao que diz a ata. O documento, divulgado nesta quarta-feira (19), mostrou os juros precisam subir em breve, a menos que haja mais progresso na desaceleração da inflação nos EUA.
"Muitos participantes avaliaram que o aperto da política provavelmente seria necessário caso a inflação não diminuísse", afirmou o resumo da reunião.
"Alguns participantes comentaram que as condições financeiras podem não ser atualmente suficientemente restritivas para facilitar o retorno da inflação [para a meta] de 2%."
No final de julho, o Comitê Federal de Mercado Aberto (Fomc, na sigla em inglês) votou 9 a 3 para manter os juros na faixa entre 3,5% e 3,75%, onde esteve durante todo o ano.
Aqueles que votaram contra a decisão apoiaram um aumento de 0,25 pp. A ata de hoje indicou que os dissidentes "julgaram que isso provavelmente ajudaria a evitar a necessidade de uma sequência mais íngreme e potencialmente mais custosa de medidas de aperto em uma fase posterior."
Os dissidentes do encontro do mês passado foram Beth Hammack, do Fed de Cleveland; Lorie Logan, de Dallas; e Neel Kashkari, de Minneapolis.
Embora não tenha dado pistas claras do que pode acontecer com os juros nos EUA daqui para frente, o mercado segue tentando achar as respostas no final das palavras cruzadas do Fed.
Segundo a ferramenta FedWatch do CME Grupo, os investidores mantêm a aposta em manutenção dos juros nos EUA como o desfecho mais provável no encontro de setembro e está dividido sobre qual será a postura em outubro.
Logo depois que a ata foi divulgada, os investidores atribuíam 65,4% de probabilidade de manutenção dos juros norte-americanos no próximo mês, ante uma precificação de 63,9% na véspera.
Para o encontro de outubro, o mercado segue dividido e aumentou a probabilidade de manutenção dos juros apenas marginalmente. A chance de manutenção era de 52,4% e a de elevação de 0,25 pp estava em 40,7%, ante probabilidades de 51,2% e 41,6% vistas na véspera. A aposta em alta de 0,50 pp estava em 6,9%, ante 7,2% ontem.
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