Amigos, amigos, negócios à parte: o que Trump e Xi acertaram (e o que ficou na gaveta) no 2º dia dos encontros
A cúpula na Casa Branca garante alívio temporário ao mercado, mas deixa decisões estruturais sobre comércio e tecnologia para o fim do ano

Entre xícaras de chá na Sala Vermelha da Casa Branca, Donald Trump e Xi Jinping entregaram muita coreografia diplomática, sorrisos fartos e promessas de amizade. Nos bastidores, no entanto, o segundo dia da cúpula revelou uma estratégia política clássica: empurrar as decisões mais espinhosas para o futuro.
Os dois dias de encontros entre os presidentes de EUA e China em Washington entregaram aos mercados um alívio temporário, marcado pela extensão de uma trégua tarifária e acordos fragmentados, mas deixaram claro que os impasses estruturais entre as duas maiores economias do mundo continuam na mesa.
O Seu Dinheiro fez um resumo do que aconteceu no primeiro dia e você conferi aqui e também separou os pontos mais importantes do último dia do encontro, que você acompanha a partir de agora.
Trégua e acordos em pílulas
A notícia central para os investidores é a renovação da atual trégua comercial por mais dois meses, com o prazo limite empurrado para 10 de janeiro de 2027.
O Representante de Comércio dos EUA (USTR), Jamieson Greer, definiu esse prazo como um "período de conformidade", uma janela para avaliar se Pequim honrará compromissos anteriores, a incluem a soja norte-americana e as terras raras.
Apesar da cautela, a cúpula destravou um acordo específico para um subconjunto de bens não sensíveis. Sob o novo mecanismo do Conselho de Comércio, produtos agrícolas e dispositivos médicos norte-americanos, bem como bens de consumo chineses, terão condições tarifárias mais favoráveis e ficarão blindados de futuras disputas de segurança nacional. Os detalhes operacionais serão divulgados na segunda-feira (28).
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Ainda que a paz seja temporária, as tarifas dos últimos anos já redesenharam as cadeias globais. O déficit comercial de bens dos EUA com a China caiu quase 40%, mas o espaço foi rapidamente ocupado pelo México. Apenas em julho, as importações norte-americanas vindas do país vizinho bateram o recorde de US$ 60,6 bilhões.
Contenção de danos da IA
Longe de propostas rigorosas para regular os modelos de fronteira — algo que nem Trump nem Xi demonstram interesse em fazer —, o avanço na tecnologia limitou-se à contenção de danos.
EUA e China alinharam a criação de um mecanismo de notificação e canais diretos de comunicação para gerenciar crises envolvendo inteligência artificial (IA).
Trump, que defende deixar o setor "exatamente onde está", comemorou na rede Truth Social que Xi foi receptivo ao seu termo preferido para a área: superinteligência.
Pendências e calendário
A Capital Economics escreveu em uma análise que, em questões que realmente importam, a visita de Xi a Washington ofereceu "pouco além de uma breve trégua".
"A recepção elaborada e a cerimônia em torno da visita de Estado do presidente Xi aos EUA não conseguiram ocultar a falta de progresso substantivo", disse a consultoria britânica, descrevendo a dinâmica cheia de pompa como "desconfiança mútua".
Enquanto resultados concretos não saem, as diplomacias de China e EUA já agendaram os próximos rounds para resolver o que ficou pendente.
Xi e Trump voltam a se encontrar durante a cúpula da Apec, em novembro, em Shenzhen, na China. O foco paralelo será um painel sobre segurança em inteligência artificial.
Um outro encontro presencial durante a cúpula do G20, em Miami, em dezembro, momento em que o futuro da paz econômica voltará a ser testado, também está programado.
Vale lembrar que o governo norte-americano mantém na gaveta a possibilidade de aplicar novas tarifas de 7,5% sobre a China, focadas na questão do excesso de capacidade industrial.
A medida está pausada, provavelmente aguardando o desfecho das eleições de meio de mandato (midterms) nos EUA, que acontecem em novembro, devido à impopularidade das taxas entre os norte-americanos.
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