Grande amizade, tarifas e até pandas: um resumo do encontro entre Trump e Xi na Casa Branca após uma década
Para quem acompanha os mercados, o sinal de trégua, ainda que temporária, é a notícia mais relevante do dia — mas nem tudo foi resolvido

Depois de mais de uma década sem pisar na Casa Branca, Xi Jinping voltou a Washington nesta quinta-feira (24) — e Donald Trump não economizou nos gestos.
Recepção na base aérea de Andrews na noite anterior, hinos nacionais tocando lado a lado, um passeio dentro do helicóptero Marine One e um jantar de gala à noite com menu que incluía veloutê de abobrinha amarela, robalo crocante de gergelim e sorvete de mel da própria Casa Branca.
Nos bastidores, porém, o clima era bem menos amistoso do que a coreografia sugeria. O Seu Dinheiro destacou os principais pontos (que foram revelados) da reunião entre os chefes das duas maiores economias do mundo.
Amizade verdadeira?
Trump abriu a conversa chamando a relação com Xi de "uma amizade verdadeiramente grande", construída, segundo ele, sobre "respeito mútuo e os interesses vitais dos nossos povos".
Xi, por sua vez, preferiu um tom mais formal e estratégico: disse que os dois países "carregam uma responsabilidade histórica" e que está pronto para "conduzir o navio gigante da relação China-EUA rumo a um curso estável no futuro".
Em maio, quando os dois se encontraram em Pequim, Xi havia usado a expressão armadilha de Tucídides — conceito do historiador grego que descreve o risco de conflito quando uma potência em ascensão desafia uma potência já estabelecida.
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Nesta quinta, ele repetiu a referência, dizendo que, com diálogo e confiança mútua, "a armadilha de Tucídides pode ser superada".
Na prática, é a forma de Pequim sinalizar que não quer guerra — mas também não vai recuar em pontos considerados inegociáveis.
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Os pontos de atrito
Por trás da simpatia pública, quatro temas dominaram as conversas:
- Inteligência artificial (IA)
Xi defendeu que a IA deve estar "sempre sob controle humano" e a serviço do bem-estar das pessoas — um recado indireto a Trump, que vem tratando o tema com um tom mais competitivo, chamando a corrida tecnológica de superinteligência (SI), termo que ele mesmo cunhou em discurso nas Nações Unidas (ONU) nesta semana.
Os dois países já discutem um mecanismo de notificação para incidentes de IA entre as nações.
- Taiwan
Xi voltou a pedir prudência a Trump sobre Taiwan e pressionou pelo fim permanente da venda de armas norte-americanas à ilha, que Pequim considera o tema mais sensível da relação bilateral.
Trump, em maio, já havia tratado o armamento a Taiwan como uma boa moeda de troca nas negociações — sinal de que o tema segue sendo usado como carta de barganha.
- Guerra do Irã
Xi pediu que Trump encerre o conflito "por meio de negociação o quanto antes". A China é a principal compradora do petróleo iraniano e tem resistido às pressões norte-americanas para usar essa influência a favor de Washington.
- Comércio e tarifas
Aqui está o ponto que interessa mais diretamente ao bolso do investidor brasileiro. Os dois países confirmaram a prorrogação, por dois meses, da trégua tarifária que venceria em 10 de novembro — segundo o secretário do Tesouro norte-americano, Scott Bessent, o novo prazo vai até fevereiro.
Xi resumiu a expectativa chinesa em uma frase: "deveria ser uma corrida de alcançar um ao outro, não uma queda de braço em que um ganha e o outro perde".
Do lado prático, a China quer afrouxamento das restrições norte-americanas à exportação de chips avançados. Os EUA, por sua vez, buscam mais espaço para produtos agrícolas no mercado chinês.
O efeito do encontro para você
Para quem acompanha os mercados, a manutenção da trégua tarifária é a notícia mais relevante do dia: ela reduz — mesmo que temporariamente — o risco de uma nova escalada comercial entre as duas maiores economias do mundo, algo que tende a ser bem recebido por ativos de risco e por empresas expostas ao comércio exterior.
Mas o adiamento por dois meses, e não um acordo definitivo, mostra que Trump segue insatisfeito com as concessões chinesas e quer manter a pressão até um possível novo encontro no G20, em dezembro, em Miami.
Já a disputa em torno da exportação de chips segue sendo um ponto de atenção para quem investe em tecnologia: os EUA mantêm controles rígidos sobre a exportação de chips, softwares e equipamentos de fabricação de semicondutores para a China, em uma tentativa de frear o avanço chinês na corrida por IA — um tema que deve continuar pautando o humor dos mercados nos próximos meses.
No fim das contas, apesar da recepção grandiosa e dos elogios mútuos, analistas seguem céticos quanto à possibilidade de acordos duradouros sobre os principais pontos de atrito.
E um número chama atenção: mesmo com toda a guerra comercial em curso, as importações chinesas para os EUA continuam crescendo — o país caminha para registrar, pelo segundo ano seguido, um superávit comercial de US$ 1 trilhão com os americanos.
E os pandas?
Como gesto simbólico de boa vontade, Xi anunciou o envio de dois pandas ao zoológico de Atlanta e o convite a 100 mil jovens norte-americanos para estudar na China nos próximos cinco anos — os chamados embaixadores da amizade, nas palavras do próprio líder chinês.
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