Renda fixa nos EUA: vale a pena comprar Treasury com a disparada dos juros?
Com os papéis de longo prazo pagando as maiores taxas em décadas, investidores se dividem entre o prêmio atraente e os riscos fiscais; entenda o diagnóstico do Bank of America e a mais recente cartada de liquidez de Washington

Depois do vendaval que levou os rendimentos dos Treasurys para a casa dos 5% ao ano, nos maiores patamares em duas décadas, o cenário começa a desenhar uma janela de oportunidade. Para o Bank of America, os papéis da dívida norte-americana estão baratos demais para serem ignorados no médio prazo, enquanto o governo dos EUA agiu rápido para reforçar a liquidez do mercado.
Mas com a inflação ainda resistente e déficits trilionários em Washington, será que é o momento certo de colocar dólares na renda fixa norte-americana? A resposta direta é sim, mas com seletividade e olhar focado no médio prazo.
Segundo análise do BofA, os títulos públicos norte-americanos continuam historicamente baratos em relação aos fundamentos macroeconômicos dos EUA.
Pelos modelos do banco, os níveis atuais de preço oferecem pontos de entrada atraentes em um horizonte de 6 a 12 meses, abrindo espaço para a estratégia de compra na queda, a chamada buy the dip.
O que levou os yields dos EUA às máximas em décadas?
Para entender a tese do BofA, é preciso olhar pelo retrovisor e resgatar o movimento que agitou o mercado global.
Como mostramos aqui no Seu Dinheiro, os yields (rendimentos) dos Treasurys dispararam para patamares não vistos há mais de 20 anos. O título de 30 anos do Tesouro norte-americano — referência para o custo de hipotecas de longo prazo nos EUA — rompeu a barreira de 5,337%, enquanto o de 10 anos atingiu 4,748% no início desta semana.
Leia Também
Quem leva o Nobel de Economia em 2026? Índice aponta possíveis nomes ligados à inteligência artificial e Big Data
Henry Kissinger, o Nobel da Paz que tentou devolver o prêmio, mas não conseguiu
Vale lembrar que no mercado de títulos vigora a lógica da gangorra: os yields sobem quando os preços dos papéis caem por excesso de oferta ou falta de demanda.
Essa tempestade perfeita recente foi alimentada por quatro motores:
- Déficits fiscais astronômicos: com o governo norte-americano gastando muito mais do que arrecada (déficits anuais próximos a US$ 2 trilhões) e a dívida pública rumando para US$ 40 trilhões, a necessidade de emitir novos títulos para fechar as contas é constante.
- O efeito big tech e a inteligência artificial: gigantes de tecnologia deflagraram uma corrida de emissões corporativas de dívida para financiar a expansão da IA — atingindo o recorde de US$ 145 bilhões apenas no mês de agosto — disputando a liquidez dos investidores diretamente com a dívida do governo.
- Venda por estrangeiros: grandes detentores tradicionais como Japão e China vêm reduzindo posições em papéis norte-americanos.
- Febre global de juros altos: títulos de governos da Alemanha, França, Reino Unido e Japão passaram a exigir rendimentos maiores, forçando o aumento dos prêmios dos Treasurys para manter a atratividade.
Leia também:
- Só lembra da Europa nas férias? Este economista alemão diz por que o seu patrimônio também deveria viajar para lá
- Febre no câmbio faz EUA e Japão se unirem para salvar o iene da pior marca em 40 anos — e isso mexe direto com você
- A mensagem por trás da decisão dos juros nos EUA que derrubou as bolsas lá fora e aqui
Por que os papéis estão baratos?
É diante desse desconto nos preços que o Bank of America enxerga uma janela de oportunidade.
O banco ressalta que parte do desconto observado nos Treasurys reflete a perda temporária da propriedade de proteção: como a correlação entre ações e títulos segue positiva e próxima das máximas desde os anos 1990, eles têm caído juntos, fazendo o investidor exigir um prêmio maior para carregar a dívida norte-americana.
No entanto, o BofA avalia que o ambiente de forte crescimento com inflação resistente nos EUA está maduro e deve perder força nos próximos 6 a 12 meses.
A expectativa é de que o mercado migre de uma visão de "economia superaquecida" para uma desaceleração gradual, com leve aumento no risco de uma queda mais forte da atividade.
Quando essa mudança se confirmar, os Treasurys devem recuperar o papel histórico de porto seguro e diversificação. Com o retorno do prêmio de proteção, a distância entre as taxas atuais e os fundamentos econômicos tende a encolher — o que significa valorização dos papéis e queda nos yields.
A cartada do Tesouro dos EUA
Enquanto o mercado debatia o patamar sustentável das taxas, a própria autoridade financeira norte-americana decidiu intervir diretamente no funcionamento do mercado de renda fixa.
O Departamento do Tesouro dos EUA anunciou nesta quarta-feira (19) que está dobrando o tamanho das operações de recompra de suporte de liquidez para títulos de cupom nominal de prazo mais longo — especificamente papéis com vencimentos de 10 a 20 anos e de 20 a 30 anos.
Com isso, o valor máximo por operação, que antes era de US$ 2 bilhões, subirá para pelo menos US$ 4 bilhões.
A alteração entra em vigor no dia 9 de setembro e permanecerá valendo até o fim deste trimestre de refinanciamento, em 4 de novembro.
O Tesouro dos EUA justificou que a medida atende ao forte e consistente patrocínio recebido por parte dos participantes do mercado, que rotineiramente enviam ofertas de alta qualidade nessas operações.
A resposta dos mercados ao anúncio foi imediata: a sinalização de maior suporte governamental à liquidez acelerou o movimento de queda dos yields de longo prazo e promoveu o enfraquecimento do dólar frente às principais moedas globais e emergentes.
Brasil perdeu a vez? Os 3 fatores que pesam para a saída do investidor estrangeiros da Bolsa
E o investidor no Brasil?
Para o investidor brasileiro, o patamar dos juros americanos é uma força gravitacional inescapável. Quando os Treasurys pagam taxas ao redor de 5% ao ano em moeda forte, abre-se o efeito superímã: dinheiro de fundos globais tende a migrar dos emergentes para os EUA.
Isso traz reflexos diretos no Brasil. A saída de dólares tende a encarecer a moeda norte-americana por aqui, pressionando a inflação de bens cotados em commodities e serviços internacionais.
Além disso, para continuar atraindo investidores locais e estrangeiros diante de um risco-EUA pagando 5%, os títulos brasileiros precisam oferecer prêmios atraentes — mantendo as taxas do Tesouro Direto (IPCA+ e Prefixados) e do mercado de juros futuros (DIs) em patamares elevados.
E também é um desafio para a B3, já que a concorrência com a renda fixa de alto rendimento no Brasil e nos EUA exige mais seletividade na escolha de ações da bolsa brasileira.
VISÃO DO GESTOR
Luis Stuhlberger está fazendo seguro em dólar e você também deveria; entenda
27 de setembro de 2026 - 11:00UM FENÔMENO, EFEITOS DIFERENTES
O Brasil no olho do furacão: o efeito do super El Niño em cada país da América Latina — e como afeta seus investimentos
25 de setembro de 2026 - 19:30ADIARAM A BRIGA?
Amigos, amigos, negócios à parte: o que Trump e Xi acertaram (e o que ficou na gaveta) no 2º dia dos encontros
25 de setembro de 2026 - 17:27DIVERSIFICAÇÃO INTERNACIONAL
S&P 500 pode subir mais 15% mesmo com alta dos juros nos EUA; XP recomenda investir na bolsa norte-americana
25 de setembro de 2026 - 15:42TRÉGUA COM SORRISO AMARELO
Grande amizade, tarifas e até pandas: um resumo do encontro entre Trump e Xi na Casa Branca após uma década
24 de setembro de 2026 - 19:58BALANÇOU O MERCADO
O tremor que fez os títulos de dívida de 30 anos dos EUA romper recordes em décadas em chegar a 5,44%
24 de setembro de 2026 - 15:03CAOS AÉREO
Falha em GPS cancela 80 voos da Azul, afeta mais de 8 mil passageiros e provoca novos transtornos. As demais companhias operam normalmente?
23 de setembro de 2026 - 19:30ROLOU QUÍMICA?
O que você precisa saber sobre o discurso de Lula na ONU — e o que Trump disse também
22 de setembro de 2026 - 13:37O MELHOR ESTÁ POR VIR?
A maré virou para Mark Zuckerberg — Meta sobe quase 15% e analista diz: “agora a empresa tem uma história para contar”
21 de setembro de 2026 - 19:05EFEITO CASCATA
A realidade dos juros em 5% nos EUA: saiba o que acontece com sua carteira se a taxa disparar por lá
20 de setembro de 2026 - 16:45TODO MUNDO QUER SABER
O encontro Trump-Xi vai sair? O que o mercado espera da cúpula — e para onde você deveria estar olhando também
20 de setembro de 2026 - 10:03LONGE NO MAPA, PERTO DO BOLSO
Juros no maior nível em 31 anos: por que o aperto no Japão importa para você
18 de setembro de 2026 - 18:00TEMPO REI
Warren Buffett deixa presidência do conselho da Berkshire: “o tempo sempre vence”; saiba quem assume
18 de setembro de 2026 - 11:50CONTRA A INFLAÇÃO
Fed eleva juros pela 1ª vez em 3 anos — e isso mexe diretamente com seus investimentos
16 de setembro de 2026 - 15:01TEM MÚSCULO
Bolsa americana aguenta juros mais altos; UBS GWM diz onde investir nesse cenário
15 de setembro de 2026 - 18:014X3
Enquanto Brasil debate a escala 6×1, esse país propõe jornada de 32 horas semanais impulsionada pela IA
15 de setembro de 2026 - 15:00PARA OS GATEIROS
País europeu oferece moradia e alimentação gratuitas para quem cuidar de gatos; mas tem um porém
14 de setembro de 2026 - 17:17DEU BOM DIA PARA A IA HOJE?
A IA vai dominar a humanidade: Sam Altman e Elon Musk se juntam ao rival da Anthropic em novo alerta; ações da Nvidia despencam
14 de setembro de 2026 - 14:10IA NO CONTROLE
“IA pode assumir controle da internet em até 12 meses”, alerta CEO da Anthropic
12 de setembro de 2026 - 15:18APONTA ESTUDO