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Com os papéis de longo prazo pagando as maiores taxas em décadas, investidores se dividem entre o prêmio atraente e os riscos fiscais; entenda o diagnóstico do Bank of America e a mais recente cartada de liquidez de Washington

Depois do vendaval que levou os rendimentos dos Treasurys para a casa dos 5% ao ano, nos maiores patamares em duas décadas, o cenário começa a desenhar uma janela de oportunidade. Para o Bank of America, os papéis da dívida norte-americana estão baratos demais para serem ignorados no médio prazo, enquanto o governo dos EUA agiu rápido para reforçar a liquidez do mercado.
Mas com a inflação ainda resistente e déficits trilionários em Washington, será que é o momento certo de colocar dólares na renda fixa norte-americana? A resposta direta é sim, mas com seletividade e olhar focado no médio prazo.
Segundo análise do BofA, os títulos públicos norte-americanos continuam historicamente baratos em relação aos fundamentos macroeconômicos dos EUA.
Pelos modelos do banco, os níveis atuais de preço oferecem pontos de entrada atraentes em um horizonte de 6 a 12 meses, abrindo espaço para a estratégia de compra na queda, a chamada buy the dip.
Para entender a tese do BofA, é preciso olhar pelo retrovisor e resgatar o movimento que agitou o mercado global.
Como mostramos aqui no Seu Dinheiro, os yields (rendimentos) dos Treasurys dispararam para patamares não vistos há mais de 20 anos. O título de 30 anos do Tesouro norte-americano — referência para o custo de hipotecas de longo prazo nos EUA — rompeu a barreira de 5,337%, enquanto o de 10 anos atingiu 4,748% no início desta semana.
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Vale lembrar que no mercado de títulos vigora a lógica da gangorra: os yields sobem quando os preços dos papéis caem por excesso de oferta ou falta de demanda.
Essa tempestade perfeita recente foi alimentada por quatro motores:
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É diante desse desconto nos preços que o Bank of America enxerga uma janela de oportunidade.
O banco ressalta que parte do desconto observado nos Treasurys reflete a perda temporária da propriedade de proteção: como a correlação entre ações e títulos segue positiva e próxima das máximas desde os anos 1990, eles têm caído juntos, fazendo o investidor exigir um prêmio maior para carregar a dívida norte-americana.
No entanto, o BofA avalia que o ambiente de forte crescimento com inflação resistente nos EUA está maduro e deve perder força nos próximos 6 a 12 meses.
A expectativa é de que o mercado migre de uma visão de "economia superaquecida" para uma desaceleração gradual, com leve aumento no risco de uma queda mais forte da atividade.
Quando essa mudança se confirmar, os Treasurys devem recuperar o papel histórico de porto seguro e diversificação. Com o retorno do prêmio de proteção, a distância entre as taxas atuais e os fundamentos econômicos tende a encolher — o que significa valorização dos papéis e queda nos yields.
Enquanto o mercado debatia o patamar sustentável das taxas, a própria autoridade financeira norte-americana decidiu intervir diretamente no funcionamento do mercado de renda fixa.
O Departamento do Tesouro dos EUA anunciou nesta quarta-feira (19) que está dobrando o tamanho das operações de recompra de suporte de liquidez para títulos de cupom nominal de prazo mais longo — especificamente papéis com vencimentos de 10 a 20 anos e de 20 a 30 anos.
Com isso, o valor máximo por operação, que antes era de US$ 2 bilhões, subirá para pelo menos US$ 4 bilhões.
A alteração entra em vigor no dia 9 de setembro e permanecerá valendo até o fim deste trimestre de refinanciamento, em 4 de novembro.
O Tesouro dos EUA justificou que a medida atende ao forte e consistente patrocínio recebido por parte dos participantes do mercado, que rotineiramente enviam ofertas de alta qualidade nessas operações.
A resposta dos mercados ao anúncio foi imediata: a sinalização de maior suporte governamental à liquidez acelerou o movimento de queda dos yields de longo prazo e promoveu o enfraquecimento do dólar frente às principais moedas globais e emergentes.
Para o investidor brasileiro, o patamar dos juros americanos é uma força gravitacional inescapável. Quando os Treasurys pagam taxas ao redor de 5% ao ano em moeda forte, abre-se o efeito superímã: dinheiro de fundos globais tende a migrar dos emergentes para os EUA.
Isso traz reflexos diretos no Brasil. A saída de dólares tende a encarecer a moeda norte-americana por aqui, pressionando a inflação de bens cotados em commodities e serviços internacionais.
Além disso, para continuar atraindo investidores locais e estrangeiros diante de um risco-EUA pagando 5%, os títulos brasileiros precisam oferecer prêmios atraentes — mantendo as taxas do Tesouro Direto (IPCA+ e Prefixados) e do mercado de juros futuros (DIs) em patamares elevados.
E também é um desafio para a B3, já que a concorrência com a renda fixa de alto rendimento no Brasil e nos EUA exige mais seletividade na escolha de ações da bolsa brasileira.
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