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O remédio conjunto funcionou como uma aspirina, derrubando a cotação do dólar para a casa dos 156 ienes; entenda como seus investimentos podem sofrer caso as autoridades japonesas descartem o uso de antibióticos para a economia

O câmbio no Japão deu sinais claros de que estava adoecendo. O sintoma mais alarmante foi uma febre alta: o dólar ultrapassou os 163 ienes, o maior patamar em 40 anos. Para baixar a temperatura, junto com os EUA, o país aplicou uma medicação rara e bilionária, agindo para valorizar a moeda japonesa — mas isso não curou Tóquio de vez e, pior, pode contaminar os seus investimentos.
O remédio dos EUA e do Japão funcionou como uma aspirina, derrubando a cotação do dólar para a casa dos 156 ienes. Para curar a doença, no entanto, será necessário um antibiótico mais forte.
“A ação cambial tende a produzir apenas um alívio temporário caso não seja acompanhada por medidas mais estruturais. Por isso, as atenções agora se voltam para o Banco do Japão e para a possibilidade de uma elevação de juros em setembro, sobretudo se esse movimento ocorrer de forma coordenada com o Federal Reserve”, diz Matheus Spiess, analista da Empiricus Research.
Vale lembrar que na sexta-feira (31) o Banco do Japão (BoJ) manteve a taxa de juros em 1% ao ano, como era amplamente esperado, sob ponderações dos efeitos do aperto monetário realizado na reunião de junho e das mudanças recentes no cenário internacional, incluindo o conflito no Oriente Médio.
Na ocasião, o BoJ indicou que a economia japonesa apresentou uma recuperação moderada, apesar de certa fraqueza, e sinalizou que aumentará os juros, caso necessário, com base nas condições econômicas, de preços e financeiras.
Dias antes, na quarta-feira (29), o Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano) também manteve os juros inalterados na faixa entre 3,50% e 3,75% ao ano. Confira aqui todos os detalhes da decisão sobre os juros nos EUA.
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“A intervenção conjunta é relevante mais pelo sinal: a fraqueza do iene deixou de ser apenas um problema japonês e passou a ser tratada como risco à estabilidade financeira global”, afirma Bruno Perri, economista-chefe e sócio-fundador da Forum Investimentos.
Ele explica que como o iene é uma importante moeda de financiamento, sua valorização pode provocar desmontagem de carry trade e aumentar a volatilidade em bolsas, juros e moedas.
“Ainda assim, não se trata, por enquanto, de uma política ampla de enfraquecimento do dólar. E, sem mudanças nos juros e na política fiscal japonesa, a intervenção tende a conter excessos, mas não necessariamente mudar a tendência estrutural da moeda”, acrescenta Perri.
Para entender o remédio, precisamos olhar para a doença. A fraqueza histórica do iene não aconteceu da noite para o dia, mas sim por dois fatores principais: a discrepância dos juros e a inflação importada.
Imagine que você tem dinheiro guardado. Se o Banco do Japão deixa os juros perto de zero (ou até negativos) por décadas, e Federal Reserve sobe os juros para combater a inflação, para onde você leva seu dinheiro? Exato: para onde ele rende mais.
Investidores do mundo todo pegavam dinheiro emprestado no Japão a custos baixíssimos e investiam nos EUA. Esse movimento massivo de venda de ienes desvalorizou o iene.
Somou-se a isso o fato de o Japão importar quase toda a energia e os alimentos que consome. Com as tensões geopolíticas e o conflito no Irã encarecendo o petróleo e o gás, o país precisou gastar mais dólares para pagar suas contas, pressionando ainda mais o iene para baixo.
O resultado? Uma inflação importada incômoda para as famílias japonesas e um custo de vida disparando.
Historicamente, intervenções cambiais costumam ser feitas de forma unilateral — o próprio país afetado usa suas reservas para defender sua moeda.
Desta vez, o presidente dos EUA, Donald Trump, e seu secretário do Tesouro, Scott Bessent, confirmaram a atuação conjunta com a ministra das Finanças do Japão, Satsuki Katayama.
A ajuda norte-americana veio em tom de gesto de amizade, mas a verdade é que a conta também fecha em favor dos EUA.
"Eles têm um iene em enfraquecimento e queriam um pouco de ajuda. E nós estamos sempre lá pelo Japão", afirmou Trump.
Acontece que por trás da boa ação há interesses — no plural. O principal deles é a dívida norte-americana. O Japão é o maior detentor dos chamados Treasurys, com US$ 1,143 trilhão, segundo dados recentes do Tesouro dos EUA.
“O movimento contribuiu para a valorização do iene e foi apresentado por Trump como um gesto de amizade. Ainda assim, Washington também tinha interesses próprios na iniciativa, entre eles, reduzir os riscos de que o Japão precisasse vender títulos do Tesouro dos EUA para financiar uma intervenção cambial e amenizar as críticas ao ganho de competitividade dos exportadores japoneses proporcionado por uma moeda excessivamente depreciada”.
Se o Japão descarregasse seus papéis da dívida norte-americana no mercado, deflagraria um efeito dominó avassalador: a explosão na oferta faria o preço dos títulos despencar, forçando as taxas dos Treasurys a dispararem e encarecendo diretamente os financiamentos imobiliários, os cartões de crédito e o custo de capital para as empresas nos EUA.
O movimento também faria explodir a conta de juros da dívida pública dos EUA e chacoalharia Wall Street, transformando essa estratégia em um tiro no pé para o próprio governo japonês, que desvalorizaria o restante de suas trilionárias reservas e provocaria um atrito diplomático sem precedentes com seu maior aliado.
No caso dos países emergentes, como o Brasil, o efeito também seria catastrófico: com as taxas dos Treasurys em patamares recordes, o capital estrangeiro fugiria em massa dos países de maior risco rumo à segurança dos juros norte-americanos, provocando a desvalorização violenta das moedas locais, como o real, e o tombo das bolsas de valores.
Além disso, essa disparada do dólar importaria inflação imediata para a cesta de consumo, forçando os bancos centrais desses países a manterem suas taxas básicas de juros, como a Selic, elevadas por mais tempo para conter a fuga de recursos — o que encarece o crédito, encarece a rolagem da dívida pública, trava os investimentos e desacelera fortemente o crescimento econômico dessas regiões.
“O fato de os EUA terem entrado na operação cambial com o Japão, embora incomum, é positivo para os mercados emergentes porque se os EUA não tivessem entrado junto possivelmente o Japão teria que vender Treasurys para fazer a intervenção, trazendo mais pressão de taxas para cima nos EUA”, diz André Shiokawa, gestor de renda fixa e moedas da Asset1.
“Quando os EUA entram, eles estão ajudando a não ter esse impacto nas taxas de juros norte-americanas e acabam afastando a aversão ao risco, inclusive entre os mercados emergentes", acrescenta Shiokawa.
Perri, da Forum Investimentos, lembra ainda que uma valorização rápida do iene pode levar investidores a reduzir posições em moedas de juros elevados, como o real, pressionando o câmbio, a curva de juros e a bolsa brasileira.
“Se o movimento for gradual e ordenado, o efeito tende a ser limitado e pode até ser positivo, caso ajude a conter os juros norte-americanos e a força global do dólar. Para o Brasil, portanto, mais importante do que a direção do iene é a velocidade do movimento”, afirma.
Outro ponto de interesse dos EUA ao ajudar o Japão é que um dólar excessivamente valorizado torna os produtos norte-americanos extremamente caros para o resto do mundo. Para Trump, um dólar mais fraco é politicamente atraente.
Além disso, os EUA usaram reservas cambiais, vendendo euros para comprar ienes via Fed de Nova York — o custo direto para Washington é baixo em relação ao impacto político e diplomático obtido.
“Como contrapartida da ajuda, os EUA podem buscar maior alinhamento do Japão em temas como defesa, investimentos e política externa”, afirma Spiess, da Empiricus.
A pergunta de um milhão de dólares — ou de bilhões de ienes — feita por especialistas como Mohamed El-Erian, ex-CEO da Pimco e professor de Wharton, é: essa intervenção é sustentável?
Como já explicamos, a intervenção cambial foi a aspirina. Mas o que dizem os especialistas do mercado sobre quando o antibiótico vai ser usado?
Segundo eles, o movimento coordenado entre as duas potências altera o ritmo das coisas no curto prazo, mas passa longe de ser uma solução definitiva.
A Oxford Economics pontua que a atuação conjunta tende a ter um efeito mais duradouro do que as intervenções isoladas do passado, mas ressalta que não é suficiente para reverter por si só a tendência global de enfraquecimento da moeda.
A consultoria projeta que a taxa iene/dólar deve encerrar o ano ainda bastante pressionada, ao redor do patamar de 160.
Já para a Capital Economics, a verdadeira força da ajuda norte-americana está mais no impacto simbólico do que no poder de fogo financeiro.
A consultoria lembra que as reservas cambiais dos EUA em moedas estrangeiras são limitadas — bem menores do que o arsenal do próprio Japão — e teriam fôlego curto para sustentar uma campanha prolongada sem a participação direta do Federal Reserve.
Nessa mesma linha, gigantes bancários como o Barclays e o Bank of America apontam que esse tipo de intervenção serve essencialmente para ganhar tempo.
O objetivo imediato das autoridades é estancar a sangria, acalmar os especuladores e evitar um movimento desordenado, garantindo uma margem de manobra para que o Banco do Japão possa ajustar sua política de juros no seu próprio ritmo.
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