De Embraer (EMBJ3) à WEG (WEGE3): quem ganha, quem perde na bolsa e as ações isentas das novas tarifas de Trump
Os EUA anunciaram uma taxação de 25% aos produtos brasileiros; entenda por que analistas afastam pânico na bolsa e descubra onde estão as ações mais blindadas

Às 6 horas da manhã, o rádio-relógio começa a tocar "I Got You Babe", de Sonny & Cher. É assim que começa o pior pesadelo de Phil Connors (Bill Murray) no filme "O Dia da Marmota": ele está condenado a reviver exatamente o mesmo dia, com os mesmos diálogos e os mesmos erros, em um looping eterno. Se você investe na bolsa brasileira, provavelmente está sentindo o mesmo calafrio de déjà vu.
Pouco tempo depois de o mercado comemorar a queda do tarifaço de 50% em fevereiro após decisão da Suprema Corte norte-americana, o governo de Donald Trump apertou o botão de reiniciar e anunciou uma nova barreira alfandegária de 25% sobre os produtos brasileiros sob a Seção 301.
Mas acalme-se: ao contrário do personagem do filme, a nova rodada de protecionismo de Trump não vai atingir todo mundo da mesma forma. No tabuleiro da bolsa, existem empresas para proteger seu patrimônio.
“Os maiores impactos devem se concentrar em empresas exportadoras com maior exposição ao mercado norte-americano, especialmente dos setores como siderurgia, metalurgia, máquinas e bens industriais. Já bancos, utilities, concessões e empresas voltadas ao mercado doméstico tendem a apresentar desempenho melhor por terem menos sensibilidade ao comércio exterior", diz Sidney Lima, analista da Ouro Preto Investimentos.
Segundo ele, a partir de agora, o principal fator para os ativos brasileiros será a evolução das negociações entre os dois governos e a possibilidade de revisão ou ampliação da tarifa anunciada.
O dia da marmota das tarifas de Trump
Assim Phil Connors no filme, o Brasil acordou nesta quinta-feira (16) preso no dia do tarifaço de Trump.
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Na noite de quarta-feira (15), o Escritório do Representante Comercial dos EUA (USTR, na sigla em inglês) confirmou que aplicará sobretaxas a produtos brasileiros, com base na Seção 301 da Lei de Comércio norte-americana.
A Seção 301 é um mecanismo que permite ao USTR investigar e retaliar países cujas políticas sejam consideradas prejudiciais ao comércio dos EUA.
A medida, que passa a valer a partir da quarta-feira (22), alcança milhares de produtos como calçados, vestuário, máquinas agrícolas e industriais, papel, aço e equipamentos elétricos.
Ainda assim, foi mantida uma lista com mais de 2 mil exceções, entre elas, café, carne bovina, produtos agropecuários, petróleo, celulose, aeronaves, componentes aeronáuticos, medicamentos e terras raras.
Essa história começou no início de junho, quando o USTR recomendou a adoção de sobretaxas a produtos brasileiros, acusando o Brasil de práticas ilegais em comércio digital, serviços de pagamento eletrônico — como o Pix —, tarifas preferenciais, proteção de propriedade intelectual, acesso ao mercado de etanol e questões ambientais, como o desmatamento ilegal.
Trump também se queixava de benefícios dados pelo Brasil a parceiros comerciais como Índia e México, sem conceder os mesmos termos a produtos norte-americanos, o que cria condições desvantajosas.
Vale lembrar que o novo episódio da taxação acontece depois que, em fevereiro deste ano, a Suprema Corte dos EUA derrubou as tarifas globais de 50% que Trump havia imposto ao Brasil e a dezenas de outros países.
O governo brasileiro classificou a medida como injustificada e afirmou que pode recorrer da decisão na Organização Mundial de Comércio (OMC) e com instrumentos da Lei de Reciprocidade Econômica, que autoriza o governo a retaliar países ou blocos que adotem barreiras ou tarifas unilaterais contra produtos brasileiros.
“Apesar da relevância política da decisão, o impacto macroeconômico tende a ser limitado em razão da ampla lista de exceções e da possibilidade de redirecionamento de parte das exportações para outros mercados, especialmente a China”, diz Matheus Spiess, analista da Empiricus Research.
Segundo ele, o principal risco está em uma segunda rodada de investigações, relacionada ao uso de trabalho forçado, que pode elevar a tarifa efetiva para 37,5%.
Phil Connors não ficou preso no Dia da Marmota (e o investidor também não vai)
Phil Connors só conseguiu se libertar do Dia da Marmota quando parou de tentar trapacear o tempo ou se desesperar com a repetição. Ele focou no que estava sob o seu controle: a própria evolução e a busca por valor real. Para o investidor brasileiro, a lição é a mesma.
Não é possível mudar a mente protecionista de Trump ou impedir que novas tarifas surjam no rádio-relógio do mercado, mas vale focar na qualidade da carteira, com empresas resilientes, priorizando o valor de longo prazo.
Neste sentindo, a leitura predominante dos analistas é de que, como a decisão já era aguardada e houve exceções, Embraer (EMBJ3), Petrobras (PETR4), Suzano (SUZB3), Klabin (KLBN4) e frigoríficos tendem a se dar melhor na bolsa.
Já os setores industriais com foco em exportação devem ser os mais prejudicados, com destaque para a WEG (WEGE3) e a Randon (RAPT4).
"Empresas brasileiras fortemente expostas às exportações para os EUA podem enfrentar maior volatilidade, já que a redução da demanda externa aumenta a percepção de risco dos investidores. Em momentos de incerteza, o mercado tende a reagir de forma mais sensível às perspectivas de receita dessas companhias”, diz Gabriel Eisner, sócio e consultor financeiro da Mhydas Planejamento Financeiro.
“Por outro lado, empresas voltadas principalmente ao mercado interno costumam ser vistas como alternativas mais defensivas. É o caso dos bancos e dos setores de utilidade pública, como energia elétrica e saneamento básico, cuja demanda é recorrente e menos dependente do comércio exterior”, acrescenta.
Por essa razão, empresas como Cemig (CMIG4), CPFL Energia (CPFE3), Energisa (ENGI11) e Sanepar (SAPR11) costumam ser consideradas ativos mais resilientes pelos investidores, segundo Eisner.
Com as tarifas já eram esperadas, os analistas enxergam pouca chance de movimentos bruscos na bolsa brasileira. Você pode acompanhar a reação em detalhes aqui.
“É importante se atentar ao fato de que a maior parte das empresas listadas em bolsa tende a não ter um grande impacto. Por isso, acredito que não devemos ver um movimento muito brusco”, afirma João Daronco, analista da Suno Research.
Ele chama atenção para a relação das empresas que têm mais peso na bolsa brasileira com a China e não com os EUA.
“A Vale está muito relacionada com a China assim como a Suzano. Os bancos brasileiros têm igualmente têm pouca relação com a América do Norte. E, ao olhar alguns ativos que poderiam ter mais impacto, como carnes e aeronaves, caso de Embraer e de alguns frigoríficos, fica evidente que a exclusão deles da lista acaba por diminuir ainda mais o impacto possível que essa nova tarifa teria dentro do Ibovespa”, afirma Daronco.
Já Edgar Araújo, CEO da Azumi Investimentos, afirma que pode haver uma reprecificação concentrada nos segmentos diretamente alcançados pelas tarifas, mas afasta o risco sistêmico neste momento.
“O que ainda precisa ser absorvido é o desenho final da medida, especialmente a diferença entre empresas efetivamente expostas e aquelas protegidas pelas exceções. A ampla lista de isenções reduz o risco sistêmico porque preserva cadeias importantes, incluindo energia, alimentos, mineração, aeronáutica, tecnologia e medicamentos”, afirma.
“A atenção, entretanto, continuará voltada à eventual sobretaxa adicional de 12,5% e à possibilidade de resposta brasileira, fatores que podem prolongar a incerteza. Quanto maior a incerteza comercial, maior a importância de identificar corretamente a origem dos recebíveis, a concentração por setor e a capacidade de pagamento dos emissores”, acrescenta.
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