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Carolina Gama

Formada em jornalismo pela Cásper Líbero, já trabalhou em redações de economia de jornais como DCI e em agências de tempo real como a CMA. Já passou por rádios populares e ganhou prêmio em Portugal.

RÚPIA SOB ATAQUE

O despertar dos mortos-vivos: crise cambial na Índia assombra mercados e pode enterrar o plano da economia de US$ 5 trilhões

A quarta maior economia do mundo está sob cerco; entenda como a guerra entre EUA e Irã reacendeu traumas financeiros na Índia e o impacto para os mercados

Carolina Gama
2 de abril de 2026
19:11 - atualizado às 17:48
Imagem criada por IA mostra a bandeira da Índia sob ataque de mísseis com cifrões e uma pilha de dólar do lado direito
Imagem criada por IA - Imagem: ChatGPT

O conflito entre EUA e Irã ressuscitou um fantasma que a Índia tenta enterrar há décadas. Com a rúpia sob ataque, a quarta maior economia do mundo, descobriu da pior forma que, em tempos de guerra, velhos pesadelos cambiais têm o hábito de voltar para assombrar.

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Para entender o que acontece na Índia agora, temos que voltar no tempo. Em 1997, a Ásia foi tomada por uma crise financeira que começou na Tailândia, com a desvalorização do baht, e rapidamente se espalhou pelo Leste e Sudeste Asiático, desencadeando colapsos cambiais, crises de crédito e profundas contrações econômicas. 

Na época, a Índia permaneceu relativamente isolada devido à abordagem cautelosa à liberalização de capital após as reformas de 1991. No entanto, quando a rúpia foi pressionada, o então governador do Banco Central da Índia (RBI), Bimal Jalan, adotou uma resposta calibrada. 

Anos depois, em 2013, Raghuram Rajan foi nomeado presidente do RBI pelo então primeiro-ministro Manmohan Singh. O momento era de mercados emergentes sob forte pressão.  

A Índia foi agrupada entre os "cinco frágeis" do Morgan Stanley, ao lado de Brasil, Indonésia, África do Sul e Turquia

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Rajan agiu rapidamente para estabilizar a moeda, conter a inflação e restaurar a confiança na rúpia, ao mesmo tempo em que enfrentava os excessos no sistema bancário. 

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Em 2026, os fantasmas do que ficou conhecido como ataque de raiva (2013) e crise financeira asiática (1997) voltam a assombrar a Índia.  

Operação socorro ao câmbio 

Os paralelos com crises passadas ressaltam como a Índia historicamente dependeu de uma mistura de aperto monetário, controles de capital e medidas de liquidez direcionadas para navegar por choques externos — ferramentas que estão sendo novamente usadas à medida que a rúpia sofre pressão. 

Mesmo com os fundamentos macroeconômicos permanecendo estáveis, a moeda indiana atingiu nesta semana mínimos históricos em relação ao dólar devido a fatores globais, como a alta dos preços do petróleo em meio ao conflito dos EUA com o Irã. 

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Para conter a desvalorização da rúpia, o RBI tem utilizado uma série de medidas direcionadas. O resultado das intervenções ficou evidente quando o mercado cambial abriu nesta quinta-feira (2): a rúpia registrou o maior ganho em mais de 12 anos.  

A moeda indiana saltou 1,3%, para cerca de 93,53 rúpias por dólar — o maior patamar desde setembro de 2013. 

A valorização acontece depois que a moeda indiana caiu abaixo da marca de 95 em relação ao dólar na segunda-feira (30).  

Guerra, petróleo e juros: onde investir no Brasil e no exterior

Como o BC da Índia agiu  

Para exorcizar os fantasmas, o Banco Central da Índia montou uma linha de defesa que mira, acima de tudo, a jugular da especulação.  

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A primeira manobra foi o aperto nas rédeas dos tesoureiros: o RBI impôs um limite de posição bancária de US$ 100 milhões para conter a exposição exagerada entre dólar e rúpia.  

Embora a medida tenha tido um efeito colateral — com os bancos empurrando parte do risco para o colo das empresas —, o recado de prudência foi dado. 

No campo das arbitragens, a autoridade monetária foi ainda mais incisiva ao proibir os bancos de oferecerem NDF (Non-Deliverable Forward ou Termo Não Entregável), um derivativo cambial de curto prazo para proteção contra oscilações de moedas. 

Esses contratos offshore eram a rota de fuga preferida dos traders, que lucravam com a discrepância de preços entre os mercados interno e externo. Ao cortar esse cordão umbilical, o RBI estancou uma sangria importante de capital. 

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O cerco se fechou também sobre as manobras contábeis das companhias. O BC indiano acabou com a remarcação de reencaminhamentos cancelados, uma prática na qual empresas cancelavam e refaziam contratos a termo apenas para capturar variações favoráveis de taxa. 

Agora, além de proibirem essa "especulação disfarçada", os reguladores vetaram operações de câmbio com partes relacionadas, fechando a brecha que permitia aos bancos trocarem figurinhas com afiliados para mitigar perdas. 

Por fim, a regra do jogo mudou para o setor produtivo: novas restrições comerciais agora exigem provas concretas de que cada contrato de câmbio atende a uma necessidade real de negócio.  

Para Siddharth Maurya, diretor executivo do conglomerado indiano Vibhavangal Anukulkara, o RBI tomou medidas para estabilizar a rúpia, o que exemplifica as incertezas globais com o uso de múltiplos métodos, fornecendo evidências de uma abordagem completa e multifacetada.  

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“A abordagem multifacetada da rúpia inclui vários elementos, como o uso flexível das reservas cambiais, o uso ativo das reservas cambiais, movimentos desordenados, o esgotamento das reservas cambiais, a confiança dos investidores, a desvalorização e o uso das reservas cambiais”, disse ele para a NDTV, uma emissora indiana.  

Índia: o impacto do câmbio fraco 

Apesar das medidas duras do BC, a visão do governo é de impacto misto da desvalorização da rupia sobre a economia da Índia, segundo uma autoridade do ministério das Finanças ouvido pela Bloomberg.  

A autoridade indiana afirmou ainda que há expectativa de aumento da conta de importações do país, ao mesmo tempo em que a competitividade das exportações pode melhorar. 

Vale lembrar que a barreira de 100 rúpias por dólar é um ponto de atenção na narrativa da "Índia ascendente" do governo. Embora as autoridades possam argumentar que a desvalorização ajuda as exportações, o nível atual da moeda gera preocupação sobre a estabilidade e a confiança dos investidores estrangeiros. 

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Uma rúpia mais fraca torna as importações — especialmente de petróleo e componentes eletrônicos — muito mais caras. Isso gera uma "inflação importada", que pressiona o banco central a manter taxas de juros elevadas, o que pode frear o consumo doméstico e o crescimento industrial. 

Além disso, o governo indiano tem a meta de transformar o país em uma economia de US$ 5 trilhões. No entanto, como o Produto Interno Bruto (PIB) é medido em dólares para fins de comparação global, uma desvalorização acentuada da rúpia torna esse alvo matematicamente mais difícil de alcançar, exigindo um crescimento real muito maior para compensar a perda cambial. 

O PIB nominal da Índia em 2025 está estimado em US$ 4,13 trilhões. Com uma taxa de crescimento expressiva, frequentemente acima de 7%, o país ultrapassou o Japão para se tornar a quarta maior economia do mundo, impulsionado pelo forte consumo interno e investimento. 

Apesar dos dados impressionantes, a guerra pode atrapalhar o desempenho indiano, e muito. Michael Wan, analista do Mitsubishi UFJ Financial Group (MUFG), diz que a rupia deve seguir pressionada caso o conflito no Oriente Médio se prolongue. 

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"Não está claro o que exatamente está impulsionando esses movimentos, mas observamos que há vários fatores atuando nos mercados neste momento, incluindo uma escalada no conflito com o Irã", afirmou. 

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