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Levantamento com dados da CVM e da Anbima mostra forte presença da UHY em fundos ligados ao ecossistema do Banco Master, além de conexões com a Fictor, vínculos indiretos entre estruturas e indícios de investimentos cruzados entre os veículos
Um levantamento com dados da CVM e da Anbima identificou que a UHY Bendoraytes, auditoria que deixou no início de março a Fictor Alimentos (FICT3), tem presença relevante em fundos administrados por estruturas recorrentes no entorno do Banco Master.
Em um universo de 939 fundos ligados a quatro administradoras, a UHY aparece com maior concentração na Master Corretora e audita 113 fundos associados a esse ecossistema.
No Brasil, todo fundo de investimento precisa obrigatoriamente de um administrador fiduciário e de uma auditoria independente, conforme as regras da CVM. O administrador é responsável pela estrutura operacional do fundo — cálculo de cotas, cumprimento das regras regulatórias e supervisão dos prestadores de serviço. Já a auditoria revisa as demonstrações financeiras e verifica se os ativos declarados correspondem à realidade.
O levantamento mapeou os fundos registrados em quatro administradoras que aparecem de forma recorrente em estruturas associadas ao Banco Master: Master Corretora, Banvox, Trustee e Reag.
Ao cruzar fundos e auditores responsáveis por cada veículo, a UHY aparece como auditora de 33 dos 52 fundos da Master Corretora— quase dois terços da estrutura. Na Banvox, a auditoria aparece em 44 dos 195 fundos. Já na Trustee, foram identificados 39 dos 267 fundos auditados pela firma. Na Reag, a presença é menor: 15 de 425 fundos.
O Banvox foi criado por Maurício Quadrado, ex-sócio do Master, e Daniel Vorcaro, CEO do Master, que já teve uma fatia de 20% da instituição financeira. Já a Reag, de João Carlos Mansur, era usada pelo banco como veículo de investimento, segundo investigações da Polícia Federal, assim como a Trustee, de Maurício Quadrado e constantemente associada ao investidor Nelson Tanure.
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No total, a UHY atua ou atuou como auditora de 564 fundos de investimento no Brasil. Desses, 113 — cerca de um em cada cinco — estão ligados ao ecossistema do Banco Master, considerando apenas os fundos administrados pela Master Corretora, Banvox e Trustee, as três administradoras onde a presença da firma é mais expressiva.
O Grupo Fictor aparece conectado a esse ambiente financeiro por diferentes caminhos.
Além da Fictor Alimentos, a UHY também auditava dois fundos ligados à Fictor Asset: o FIP Multiestratégia e o Jakarta. Fontes do setor também afirmam que a UHY fazia a auditoria externa da Fictor Holding.
Já documentos do processo de recuperação judicial mostram que a Fictor possui uma dívida de R$ 430 milhões com a Sefer Investimentos, atribuída à compra de cotas do fundo Krispy, administrado pela Trustee e também auditado pela UHY.
Na época do pedido de recuperação judicial do Grupo Fictor, a Sefer negou ser credora da companhia. A Fictor afirmou que o valor estaria relacionado ao Banco Master.
A Sefer também é apontada por investigações como representante legal no Brasil da Master Holding, estrutura offshore de Daniel Vorcaro sediada nas Ilhas Cayman, o que conecta a dívida ao ambiente societário internacional do controlador do banco.
Outro ponto de ligação aparece na North Sea Capital. A gestora, por meio do fundo Delta — auditado pela UHY e administrado pela Master Corretora — foi utilizada pelo banco de Vorcaro na compra de ações do Banco de Brasília (BRB).
Na prática, o fundo gerido pela North Sea — escolhida pelo Master como prestadora de serviço, auditado pela UHY e administrado pela corretora do próprio Master — serviu como veículo para uma operação estratégica do banco.
A North Sea também aparece entre os maiores credores do Grupo Fictor, segundo documentos do processo de recuperação judicial.
Os R$ 3 bilhões investidos por mais de 13 mil credores na Fictor através da s Sociedades em Conta de Participação (SCP) seguem fora de alcance.
Além das conexões institucionais, a reportagem identificou também vínculos familiares envolvendo o entorno da auditoria e os auditados.
A operação da UHY no Brasil possui histórico de ligação com a família Bendoraytes. Um dos nomes associados ao grupo é Rodrigo Bendoraytes, que atuou como diretor de risco na UHY e, posteriormente, nas diretorias de auditoria interna do Will Bank e do Banco Voiter — instituições que tiveram ligação com o ecossistema do Master e acabaram liquidadas. Hoje, ele toca uma nova empresa chamada BHP Consulting.
Rodrigo Bendoraytes é casado com Luciana Angelo, que trabalha na própria UHY. Já Talitha Angelo, irmã de Luciana e cunhada de Rodrigo, atuou na Sefer Investimentos, empresa que abriga estruturas societárias utilizadas pelo grupo de Daniel Vorcaro no exterior, como diretora de compliance e de controles internos. Há um mês, ela passou a trabalhar na empresa de Rodrigo. Vale ponderar que vínculos familiares e migração de profissionais não são, por si, indício de irregularidade.
“Acontece no mercado. Auditores muitas vezes acabam migrando para os próprios clientes ou criando vínculos próximos com as estruturas que auditam”, disse uma fonte com conhecimento no assunto. Segundo ela, esse movimento é relativamente comum em ambientes corporativos, mas, em determinados contextos, exige mais atenção.
“Quando o auditor começa a chegar muito perto de temas sensíveis, algumas empresas preferem internalizar esses profissionais. Isso não é ilegal. Mas quando acontece em ambientes com estruturas financeiras complexas, precisa ser analisado com cuidado.”
Uma fonte também afirma que a UHY fazia a auditoria de lastro de FIDCs da Sefer, verificando a existência, integridade, titularidade e legalidade dos direitos creditórios (recebíveis) que compõem a carteira dos fundos.
Outro ponto identificado é a presença de investimentos cruzados entre fundos do próprio ecossistema. Esse tipo de operação ocorre quando fundos aplicam recursos em outros veículos do mesmo ambiente institucional.
“Quando fundos começam a investir uns nos outros dentro do mesmo ecossistema você pode acabar criando um circuito interno de capital. Isso não é necessariamente irregular, mas pode inflar percepções de liquidez ou diversificação”, disse outra fonte do setor.
Para mapear essa dinâmica, o levantamento utilizou dados públicos de composição de carteira (CDA) disponibilizados pela CVM, que revelam quando um fundo investe em cotas de outro fundo. A análise focou nos fundos auditados pela UHY, verificando se investiam entre si dentro do ecossistema.
Em janeiro de 2024, foram identificados R$ 440 milhões em investimentos cruzados. Em janeiro de 2025, o número caiu para R$ 379 milhões e, em janeiro de 2026, recuou para R$ 263 milhões.
O patrimônio total dos fundos ligados ao Master e que foram auditados pela UHY, de acordo com os dados disponíveis, cresceu de R$ 2,3 bilhões em 2023 para cerca de R$ 12,8 bilhões, em 2026.
Esse salto se deve em grande parte a dois veículos: o Cutter FIF Multimercado Crédito Privado, administrado pela Reag, que saltou de R$ 584 milhões para R$ 5,8 bilhões, entre janeiro de 2024 e janeiro de 2025; e o Revolution FI Renda Fixa, administrado pela Master Corretora, que apareceu nos registros de janeiro de 2026 com R$ 10,3 bilhões em patrimônio.
A UHY não é a única auditoria com forte presença no universo do Banco Master.
Entre os 939 fundos analisados, a auditoria que aparece com veículos é a Next, com 359 fundos (38%).
A concentração, porém, varia conforme a administradora. Na Master Corretora, a UHY domina, com 63% dos fundos. Na Reag, porém, quem lidera é a Next, com cerca de 60%. Na Trustee, a liderança é da RSM, com 131 dos 267 fundos. No Banvox, por fim, a distribuição é mais fragmentada, com Next (27%) e UHY (23%) também em posições de destaque.
A Next, sediada em Blumenau e com menos de 50 funcionários, segundo informações disponíveis no LinkedIn, acaba sendo a auditoria predominante, com destaque para sua presença em fundos na Reag.
Entre os casos mais conhecidos auditados pela Next está o fundo Arleen, que adquiriu participação no resort Tayayá, ligado à família do ministro do Supremo Tribunal Federal Dias Toffoli. O fundo era administrado pela CBSF.
Já a RSM Brasil aparece em outro ponto sensível da história: foi escolhida para substituir a UHY na auditoria da Fictor Alimentos após a saída da firma.
Procurada, a UHY não comentou até a publicação desta reportagem. A Next também não respondeu aos contatos. O espaço permanece aberto para manifestação.
Já a RSM afirmou que não mantém relação direta de auditoria com o Banco Master. Sobre a Fictor, a firma informou que não possuía contratos vigentes com o grupo em 2025 e que foi contratada apenas em dois de março de 2026 para auditar a Fictor Alimentos, com os trabalhos ainda em fase de planejamento.
A empresa afirmou, ainda, que auditorias envolvendo administradores fiduciários (incluindo a Trustee, onde tem maior presença) representam menos de 1% de sua receita total, o que, segundo a companhia, indicaria ausência de concentração relevante.
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