Sinal verde para a Selic: o segredo escondido na ata do Copom que abre as portas para cortes de 0,50 pp nos juros
A guerra no Oriente Médio é a principal pedra no caminho de uma política monetária mais flexível daqui para a frente

A trajetória de queda da taxa Selic ganhou um novo fôlego nesta terça-feira (24), diante da ata moderada da última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central. O recado foi de otimismo: a ‘calibração’ vai continuar.
Ou seja, os diretores do Banco Central veem espaço para continuar ajustando a taxa Selic, mesmo diante do cenário de guerra. Mais do que isso: economistas já esperam mais agressividade nos próximos cortes.
Nada de 0,25 ponto percentual (p.p.) cauteloso, como o ajuste da última semana. A expectativa é de pelo menos 0,50 p.p..
“Considerando tudo, entendemos que o documento é consistente com um corte maior na reunião de abril, o que levaria a taxa básica para 14,25% a.a.”, diz o relatório do Itaú BBA, assinado pelo ex-diretor do BC e economista-chefe da casa, Mário Mesquita.
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Caio Megale, economista-chefe da XP foi além e já cravou quatro cortes consecutivos de 0,50 p.p..
Na última quarta-feira (18), o Copom reduziu a taxa Selic para 14,75% ao ano, em um movimento considerado cauteloso pelos agentes financeiros, diante das incertezas inflacionárias que vem da guerra no Oriente Médio.
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No comunicado que trouxe a decisão, não ficou claro se novos cortes viriam no futuro ou se teria sido um ajuste pontual, obrigatório por causa da sinalização de afrouxamento monetário dada na reunião de janeiro.
Agora, Alberto Ramos, economista-chefe para a América Latina do Goldman Sachs, acredita que “o Copom deixou a porta aberta para acelerar o ritmo dos cortes para 0,50 p.p. na próxima reunião”.
O ‘segredo’ escondido na ata do Copom
O que mais chamou a atenção dos economistas no documento desta terça-feira (24) foi a revelação de que o Copom não considerou a possibilidade de uma manutenção da Selic em 15% ao ano na reunião de quarta-feira passada. Apenas as opções de “calibração” estavam na mesa.
Segundo a ata, o comitê "analisou as opções para o ritmo de início do ciclo de calibração da taxa básica de juros, concluindo que nesse momento a redução de 0,25% é a mais adequada".
A interpretação de Mesquita, do BBA, é de que, ao não cogitar manutenção, o Copom mostra disposição clara em aliviar o aperto monetário.
No entanto, isso não significa um ciclo de afrouxamento intenso nos juros. O termo utilizado — e repetido muitas vezes — pelo comitê é “calibração”, e isso tem motivo.
A intenção dos diretores é encerrar o ciclo de ajustes com os juros ainda alto, em nível que o mercado financeiro chama de “contracionista”. Na prática, trata-se de um patamar de taxa básica que mantenha o juro real (que subtrai a inflação) em pelo menos 6% ao ano.
Considerando a inflação atual, de quase 4% em 12 meses, estamos falando de uma Selic em pelo menos 10% ao ano.
Neste ano, pelo menos, a “calibração” do Copom deve parar bem antes disso. A XP espera que os cortes acabem com a Selic em 12,75% ao ano, enquanto o BBA estica um pouco mais: em 12,25% a.a..
- LEIA TAMBÉM: Quanto rendem R$ 10 mil no CDB, na LCA, no Tesouro Selic e na poupança com os juros em 14,75% ao ano?
O fiel da balança da Selic: preço do petróleo
A marcha do Copom está engatada, mas o freio continua puxado diante do empecilho no meio do caminho: a guerra no Oriente Médio.
O conflito entre Estados Unidos, Irã e Israel compromete o abastecimento mundial de petróleo e insere uma nova incógnita na equação mais importante para o Banco Central, que a projeção de inflação.
Incerteza sobre a produção e distribuição da commodity faz o preço do petróleo subir, o que impacta diretamente os preços dos combustíveis e, consequentemente, a inflação no Brasil.
Lá fora o cenário é ainda mais complexo, devido à dependência da Europa do gás natural, e da dependência da Ásia do petróleo do Golfo.
Na ata, o Copom reitera a intenção de ter "serenidade e cautela" diante da guerra — os diretores do BC devem continuar monitorando esses eventos externos e os dados da economia do Brasil, para entender os possíveis impactos.
Até o momento, a visão é de que o Brasil não deve ser tão afetado. O país é exportador de petróleo e, mesmo a necessidade de produtos refinados, como o diesel, é parcial.
Em que ponto estamos?
Outro ponto fundamental que sustenta a confiança do Copom em manter a trajetória de queda da Selic é a resiliência da economia brasileira.
Embora o final de 2025 tenha mostrado uma desaceleração esperada da atividade, os primeiros dados deste ano estão mais fortes.
A ata diz que "indicadores preliminares apontam na direção de uma retomada da atividade econômica" neste primeiro trimestre do ano.
Isso significa que, mesmo com os juros ainda em patamares restritivos, o país continua gerando renda e mantendo um mercado de trabalho dinâmico, o que dá "conforto" para que o Banco Central continue cortando a Selic de forma gradual e segura, segundo os economistas.
Ao que tudo indica, o plano de voo do Banco Central segue no caminho já traçado: reduzir aos poucos os juros básicos do país, sem pressionar a inflação.
Como definiu o comitê na ata, "a magnitude e a duração do ciclo de calibração serão determinadas ao longo do tempo, à medida que novas informações forem incorporadas".
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