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SD ENTREVISTA

Mesmo com petróleo a US$ 100, Selic não deveria ser 15%, diz Luciano Sobral, da Neo Investimentos

Apesar da possível pressão inflacionária, o juro real elevado e a estratégia de “calibração” do BC sustentam a aposta em um primeiro corte hoje

Luciano Sobral, economista-chefe da Neo Investimentos - Imagem: Leo Martins/ Divulgação Neo Investimentos

Cortar ou manter, eis a questão. A paráfrase do dilema de Hamlet, personagem de William Shakespeare, retrata a encruzilhada à frente do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central nesta reunião de março.

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De um lado está o corte da taxa Selic, já antecipado em janeiro. Do outro, a manutenção dos juros em 15% ao ano, diante do risco inflacionário imposto pela guerra no Irã.

As negociações de opções do Copom na B3 — derivativos que precificam a probabilidade de cada decisão — indicam que o mercado virou sua aposta para um corte de 0,25 ponto percentual (p.p.) nesta quarta-feira (18).

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E a manutenção dos juros em 15% ao ano também apareceu nas probabilidades, ganhando mais força nos últimos dias.

Anteriormente, o corte de 0,50 p.p. na Selic era praticamente uma unanimidade.

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As três possibilidades estão sobre a mesa do Copom. “Qualquer caminho é válido, desde que devidamente justificado”, afirma Luciano Sobral, economista-chefe da Neo Investimentos, gestora com R$ 6,5 bilhões sob gestão.

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Para ele, há espaço suficiente para um corte de 0,50 p.p. na Selic, mesmo diante do choque no preço do petróleo e possíveis impactos na inflação.

“Esse choque tende a se dissipar e não alcança a economia como um todo. Porém, estamos em um cenário de acontecimentos imprevisíveis. Dado o histórico conservador do Banco Central até aqui, é plausível esperar uma manutenção. Não temos como saber. Vai ser decidido ali, no momento”, disse Sobral em entrevista ao Seu Dinheiro.

Inflação à vista…

A guerra entre EUA, Israel e Irã gera preocupação por vários motivos, mas o impacto sobre a inflação brasileira se tornou o ponto central.

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O vilão é o preço do petróleo. De 28 de fevereiro, quando a guerra começou, a 17 de março, véspera do anúncio do Copom, a cotação do Brent — referência para a Petrobras — saltou 44%.

O barril estava em US$ 72 antes da guerra, com tendência de queda. Com o conflito sem perspectiva de encerramento, atingiu US$ 119,50 no pico e estabilizou próximo de US$ 100.

O preço do petróleo importa porque não se resume à gasolina. Estamos falando de um aumento no custo do frete como um todo, desde o diesel que abastece o caminhão até o querosene de aviões e navios que transportam bens e matérias-primas internacionais.

“O preço do petróleo é o cerne da discussão. Importa menos o pico que ele alcança e mais onde ele estaciona”, afirma Sobral.

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“As empresas podem esperar dias ou semanas até que a cotação saia do pico e volte para valores melhores. O problema é parar em uma alta e não voltar, porque as empresas não conseguem segurar para sempre”, disse o economista.

O presidente Lula declarou, na quinta-feira (12), que “a alta do petróleo não vai chegar ao bolso do brasileiro”.

O governo decidiu zerar a cobrança de impostos federais (PIS/Cofins) sobre a importação e venda do diesel. A medida deve reduzir em R$ 0,64 o preço por litro do combustível.

No entanto, trata-se de uma solução temporária.

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Sobral acredita que a Petrobras deve tentar segurar os preços da gasolina por algum tempo também. A dúvida é: quanto tempo?

…ou é miragem?

Donald Trump já afirmou que a guerra tem prazo para acabar, mas também já disse que “não chegou a hora de acordo com o Irã”. Para Sobral, a opinião do presidente norte-americano é indiferente.

“Não é o Trump quem decide se a guerra vai acabar ou não. Tem o Irã e Israel nessa equação”, afirma Sobral.

O economista destaca que a volatilidade no preço do petróleo não tem relação com o presidente dos Estados Unidos, mas com o risco para o abastecimento mundial. Mais especificamente, o bloqueio no Estreito de Ormuz e a produção de países vizinhos ao Irã.

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“Trump pode fazer o que quiser, declarar o fim da guerra e que os EUA ganharam. Não é isso que vai diminuir a volatilidade no preço do petróleo. Essa incerteza só vai melhorar quando o escoamento dos navios normalizar. É disso que se trata”, diz Sobral.

E mesmo um cessar-fogo pode não resolver a situação. Na semana passada, o novo líder supremo do Irã, o aiatolá Mojtaba Khamenei, declarou que o Estreito de Ormuz permanecerá fechado como represália contra os inimigos.

Por ali passa 20% do abastecimento mundial de petróleo. O bloqueio levou países exportadores a liberarem reservas emergenciais como solução paliativa.

“Até agora, o mercado está confiante em uma solução rápida, que não teremos mais um caso de Rússia e Ucrânia. Mas tudo pode mudar muito rápido. Está longe de uma solução e não depende só do Trump”, disse Sobral, referindo-se ao conflito entre russos e ucranianos, que já dura quatro anos.

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É nessa incerteza sobre o fim da guerra que reside o dilema do Copom: cortar ou manter a Selic?

Dúvidas em relação à Selic

Motivos para o Copom cortar

Sobral reconhece que há razões para o Copom manter a Selic em 15% na reunião de hoje (18). Ainda assim, vê espaço “de sobra” para um corte de 0,50 p.p..

A começar pelo nível de juros reais da economia.

Quando o Copom elevou a Selic a 15% ao ano, a inflação de 12 meses era de 5,3%, o que implica em um juro real (que é a Selic descontada a inflação) de 9,7%. Hoje, com a inflação a 3,8%, o juro real é de 11,2%.

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Isso importa porque o juro real é o custo do dinheiro que leva investidores e empresários a optarem por investir na economia ou aplicar no mercado financeiro. Quanto maior o juro real, menor o estímulo ao consumo, ajudando a controlar a inflação.

Essa diferença que aumentou nos últimos meses é a margem que permite o corte da Selic agora, segundo Sobral. Para ele, mesmo com o petróleo a US$ 100, a Selic não deveria ser 15%. “Tem espaço para cortar.”

A visão do economista está em linha com declarações recentes do diretor de Política Monetária do BC, Nilton David. Em evento do Goldman Sachs, David classificou o primeiro corte como uma “calibração”, não como o início de um ciclo de afrouxamento.

“A busca aqui não é a taxa neutra. Esse processo de calibração vai terminar em ponto restritivo”, afirmou o diretor.

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Sobral também defende o alinhamento do BC com as expectativas do mercado financeiro. A sinalização de janeiro parte dessa premissa, de não adicionar volatilidade às negociações.

Nesse sentido, o corte dessa quarta-feira pode ser menor, de 0,25 p.p., já que o consenso de mercado virou diante do risco da guerra.

O economista acredita ser plausível um primeiro corte hoje, sem antecipar nada sobre as próximas reuniões, dando liberdade para uma manutenção se o cenário de guerra continuar.

Motivos para manter

Por outro lado, Sobral lembra que o BC sob comando de Gabriel Galípolo tem se mostrado conservador. Para além da possível pressão inflacionária do petróleo, a economia brasileira ainda tem pontos de atenção.

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A inflação de serviços, que é o aumento do preço de serviços, como educação privada, consultas médicas, aluguéis, restaurantes e outros, continua muito acima da meta e da inflação geral. A taxa de desemprego também segue nas mínimas, com elevação da renda da população.

Esses fatores sustentam o poder de consumo da população. Entram nessa conta o reajuste do salário mínimo — referência para benefícios e rendas indexadas — e a isenção de imposto para rendas até R$ 5 mil.

“São pequenas coisas que aumentam a renda da população e mantêm a economia aquecida. Servem como sinal amarelo para o Banco Central e indicam que o Copom não precisa ter pressa para cortar os juros”, diz Sobral.

No fim, voltamos ao início: cortar ou manter, eis a questão.

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