Rodolfo Amstalden: Guerra do Irã — amargo mel, fogo gelado e caos organizado
Entre previsões frustradas, petróleo volátil e incerteza global, investidores são forçados a conviver com dois cenários opostos ao mesmo tempo

A esta altura dos acontecimentos, acho que já podemos afirmar que o prazo para o término da Guerra do Irã sempre foi incognoscível.
Com certeza, não eram apenas as quatro semanas que haviam sido indicadas originalmente por Trump.
Por outro lado, memorando de uma página, não tem cara de ser uma guerra infinita.
A guerra entre o curto e o longo prazo
Arrisco dizer que essa guerra está justamente entre terminar daqui a alguns dias ou daqui a alguns anos. E por isso me permito a licença poética de chamá-la de imprevisível.
Porque, em termos práticos, dentro dos gatilhos temporais que regem os mercados, a diferença entre esperar dois dias e esperar dois anos gera consequências completamente díspares.
Assim, somos obrigados a fazer algo indigesto, quase insalubre, que é o duro exercício de fazer coabitar em nossas mentes dois cenários — o rápido e o devagar — que se combinam em um oxímoro.
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Nada é mais útil para o trabalho de um financista do que conviver com a contradição. E, também, nada pode ser mais enlouquecedor para um ser humano.
Imagine você se apaixonar por alguém que lhe desperta o amor mais puro seguido do ódio mais sanguíneo, a propensão a estar junto logo então substituída pela mais completa aversão; e assim sucessivamente, por décadas e décadas, entre tapas e beijos.
A evolução não nos forneceu meios para lidar bem com os opostos simultâneos, não somos bons nisso; preferimos a definição de um ou outro.
O paradoxo da lógica — e dos mercados
Como exemplo didático, considere o seguinte desafio simples de lógica:
Nelson está olhando para Ana, e Ana está olhando para Renzo. Nelson é casado, mas Renzo é solteiro. Podemos dizer que é o caso de que uma pessoa casada está olhando para uma pessoa solteira?
(A) Sim.
(B) Não.
(C) Isso não pode ser determinado apenas com o enunciado.
(Se quiser um tempinho para pensar, segure a leitura até aqui, pois o spoiler vem logo abaixo).
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A alternativa correta é “A” (Sim), mas a vasta maioria dos respondentes escolhe a letra “C”, supondo automaticamente que a falta de informação sobre o estado civil de Ana impossibilita cravar uma resposta honesta.
Todavia, se pensássemos direto em termos de probabilidades, convivendo com a contradição, enxergaríamos dois cenários possíveis:
(i) Nelson (casado) -> Ana (casada) -> Renzo (solteiro).
Ou
(ii) Nelson (casado) -> Ana (solteira) -> Renzo (solteiro).
Note que, em ambos os cenários, existe uma pessoa casada olhando para uma pessoa solteira.
Se você não acertou desta vez, fique tranquilo. Até mesmo pessoas de altíssima pontuação em testes de QI têm dificuldade de ponderar cenários pré-convergência.
Felizmente, o investidor inteligente não precisa ficar comprometido com o mercado, e também não precisa ficar à espreita. Basta fazer como a Ana que, casada ou solteira, continua participando do jogo.
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