O que sobra da presença: há espaço para o luto, a vulnerabilidade e a compaixão nas empresas?
Presença, no fundo, talvez seja isso. A sensibilidade de entender os diferentes momentos das pessoas, com suas nuances, altos e baixos, glória e dor, realizações e luto

Nesta semana eu perdi minha querida sogra Julieta. Acho que é a primeira perda que tenho de alguém tão próximo, que fazia parte da minha vida cotidiana há anos. A primeira vez, portanto, que realmente passo por isso. É um buraco, uma sensação de que somos impotentes, de que falta chão e, principalmente, o não entendimento do porquê da partida. É um laboratório de várias emoções.
Talvez essa intensidade toda diga mais sobre o tamanho do vínculo do que sobre a perda em si. Um vínculo que se constrói convivendo de verdade, que no meu caso foi indo morar junto com a pessoa.
Talvez seja o maior teste de qualquer relação, e ao mesmo tempo a prova de que há amor nela. Eu fiz isso. Morei quase um ano com minha sogra enquanto passávamos por uma reforma em casa. Nesse período fui me dando conta do quanto, para além do papel de sogra e genro, éramos realmente amigos.
Conversas quase diárias sobre vida, existência. Jantares que, por sinal, eram sempre grandes experiências gastronômicas: a Ju tinha a habilidade e a criatividade de fazer, com o que tinha na geladeira, grandes receitas que ela mesma apelidava de "restodontê", um trocadilho pra dizer que tinha usado o que sobrou pra fazer um prato afrancesado.
E ela estava sempre presente. Mensagens no dia a dia, trocas constantes, preocupação genuína com coisas que a gente comentava que seriam importantes. Uma pessoa que, sem dúvida, vai habitar um lugar especial na memória de muita gente, porque ela não era assim só comigo. Era assim com todos.
Estou saindo dessa experiência, ainda tão inicial, bem mais empático sobre o quanto a presença faz diferença.
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As mensagens de colegas que venho recebendo mostram o quanto isso pesa. E não é trivial. Porque desde cedo nos ensinam a manter a compostura no trabalho, a fingir que aquele vínculo é menor do que realmente é.
Você consegue mesmo separar quem você é profissionalmente de quem você é em casa? Quando, na verdade, isso é uma grande ilusão. Se a gente passa a maior parte da vida ali, é exatamente nesse espaço que constrói vínculos que são, ou deveriam ser, reais e profundos.
Pessoas com quem trabalho demonstraram, cada uma à sua maneira, carinho e preocupação comigo e com o André, meu marido. Pessoas do meu time estiveram no velório, mandaram mensagens, mandaram flores. E o mesmo aconteceu do lado dele: uma onda de presença e amor, manifestados dessas diversas formas. Foi comparando essas duas ondas de carinho, que o André me sugeriu o tema desta coluna.
Compassion organizing
Pra escrever esse texto, acabei pesquisando um pouco sobre luto e como ele é elaborado dentro das organizações.
Foi assim que cheguei a uma tese de Jane Dutton, professora da Ross School. Ela batizou de compassion organizing o fenômeno pelo qual a compaixão individual se transforma em algo coletivamente organizado dentro de uma empresa, mesmo sem estrutura formal pra isso.
E o achado mais bonito da pesquisa é o efeito cascata: o gesto não fica só no momento em que acontece. Ele molda a atitude e o vínculo de quem recebeu aquele cuidado com a empresa, por muito mais tempo do que se imagina.
Esse episódio, o cuidado que recebemos dos nossos times nesses dias, é a prova disso.
Cada vez que vou amadurecendo no meu processo de reflexão, vejo o quanto a integralidade dos indivíduos é maior do que gostaríamos de admitir. Somos muito menos fragmentados do que fingimos ser.
Hoje, por exemplo, mesmo que eu quisesse abrir o computador pra trabalhar, sei que faltaria energia e disponibilidade pra fazer qualquer coisa com qualidade.
Carregamos nosso pacote pra todos os lados da vida, sem conseguir separar de fato o que é pessoal do que é profissional. Talvez precisemos aceitar que essa é uma condição inegociável do ser humano: ele é integral, não é fragmentado.
Presença, no fundo, talvez seja isso. A sensibilidade de entender os diferentes momentos das pessoas, com suas nuances, altos e baixos, glória e dor, realizações e luto. Quando internalizamos isso, nos tornamos uma oferta muito mais profunda dentro das organizações.
- Leia também: Entre o que você faz e onde você está: quanto peso dar à cultura organizacional nas suas escolhas de carreira?
Você já tentou ser você por completo, numa situação em que aprendeu que não deveria demonstrar dor?
Pela minha experiência, nunca vi ninguém pagar caro por se mostrar vulnerável. Exceções existem, claro. Mas até hoje, vi mais gente ganhar respeito por isso, do que o contrário.
Fico voltando à imagem dos restodontês da Julieta. Pratos afrancesados feitos do que sobrou na geladeira, sem plano nenhum, só com o que havia à mão.
Talvez seja essa a lição que ela me deixa, sem nunca ter tentado me ensinar nada: dá pra fazer algo bonito e verdadeiro até com o que sobra, inclusive com a gente mesmo, inclusive com o luto.
Vou sentir sua falta, Ju.
Até a próxima,
Thiago Veras
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