Ansiedade e depressão fazem empresas perderem US$ 1 trilhão por ano; como melhorar o bem-estar e a saúde mental dos funcionários?
Relatório da Sodexo e da Global Brain Health Initiative mostra que o ambiente de trabalho pode ser decisivo para reduzir o impacto dos transtornos mentais na produtividade

A saúde mental deixou de ser apenas uma questão de bem-estar individual para se tornar um tema estratégico para empresas e economias.
Segundo o estudo Creating Workplace Environments that Support Brain Health ("Criando ambientes de trabalho que apoiam a saúde cerebral"), desenvolvido pela Sodexo em parceria com a Social Impact Partners e a Global Brain Health Initiative, a depressão e a ansiedade são responsáveis por US$ 1 trilhão em perdas de produtividade todos os anos e por 12 bilhões de dias de trabalho perdidos globalmente.
O levantamento destaca que os problemas relacionados à saúde cerebral representam um dos maiores desafios da atualidade. Além das perdas associadas à ansiedade e à depressão, os transtornos mentais custam cerca de US$ 5 trilhões por ano à economia mundial, valor que pode chegar a US$ 16 trilhões até 2030.
Para os pesquisadores, o problema vai além dos diagnósticos clínicos. A saúde cerebral envolve a capacidade de pensar com clareza, aprender, memorizar informações, regular emoções e lidar com adversidades. Quando essas funções são prejudicadas, os impactos aparecem diretamente no desempenho profissional.
"O ambiente de trabalho representa a maior oportunidade de influenciar positivamente a saúde cerebral em larga escala", afirma o relatório.
Empresas podem influenciar a saúde cerebral dos funcionários
O estudo parte da constatação de que as pessoas passam, em média, 90 mil horas da vida trabalhando. Por isso, fatores como iluminação, qualidade do ar, alimentação, relações sociais e níveis de estresse dentro das organizações podem influenciar diretamente a saúde mental e cognitiva dos trabalhadores.
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Segundo o documento, investimentos em iniciativas voltadas à saúde cerebral poderiam gerar um impacto adicional de US$ 6,2 trilhões no Produto Interno Bruto (PIB) global até 2050, por meio da redução de mortes prematuras, diminuição de afastamentos por doenças, aumento do engajamento e maior participação no mercado de trabalho.
No nível das empresas, a estimativa é que investimentos em saúde integral dos colaboradores possam gerar entre US$ 1.100 e US$ 3.500 em valor por funcionário, o equivalente a 17% a 55% do salário médio anual global.
Os nove pilares da saúde cerebral
Para orientar organizações, o estudo identifica nove fatores considerados essenciais para a saúde cerebral ao longo da vida:
- Alimentação e nutrição;
- Ambiente físico;
- Conexão social;
- Propósito e significado;
- Atividade física;
- Sono;
- Gestão do estresse;
- Condicionamento mental;
- Cuidados médicos e preventivos.
Segundo os autores, esses pilares estão interligados. Melhorias em uma área podem gerar benefícios em outras, criando efeitos positivos em cadeia.
Um exemplo citado no relatório é a relação entre sono e estresse. Dormir mal aumenta os níveis de cortisol, hormônio ligado ao estresse, enquanto o estresse crônico prejudica a qualidade do sono. Da mesma forma, a atividade física favorece a saúde cerebral, enquanto o isolamento social aumenta o risco de declínio cognitivo.
Ambiente de trabalho também afeta desempenho cognitivo
O relatório destaca que características do ambiente físico influenciam diretamente o funcionamento do cérebro.
Um dos estudos analisados mostrou que trabalhadores em edifícios com melhor ventilação e baixos níveis de dióxido de carbono apresentaram desempenho 61% superior em testes de função cognitiva quando comparados a profissionais em ambientes convencionais.
A presença de luz natural, controle de ruídos, temperatura adequada e elementos naturais, como plantas e áreas verdes, também foi associada à redução do estresse e à melhora do desempenho cognitivo.
Solidão aumenta risco de demência
Entre os fatores analisados, a conexão social aparece como um dos mais relevantes.
Uma meta-análise citada pelo estudo, que reuniu dados de mais de 600 mil pessoas, concluiu que a solidão aumenta em 31% o risco de demência por todas as causas. O risco sobe para 39% no caso da doença de Alzheimer e para 74% na demência vascular.
Por isso, os autores defendem que as empresas criem ambientes que estimulem interações significativas entre colegas, promovam colaboração entre diferentes áreas e fortaleçam o senso de pertencimento.
Pequenas mudanças podem gerar resultados
O relatório propõe uma série de ações que podem ser implementadas sem grandes investimentos iniciais.
Entre as recomendações estão:
- Oferecer opções de alimentação consideradas benéficas para a saúde cerebral;
- Incentivar caminhadas e reuniões em movimento;
- Estabelecer limites para comunicações fora do horário de trabalho;
- Criar espaços para interação social;
- Estimular o aprendizado contínuo;
- Ampliar o acesso a recursos de saúde mental e cuidados preventivos.
Segundo os autores, tratar a saúde mental como parte da infraestrutura das organizações pode trazer benefícios tanto para os funcionários quanto para os resultados dos negócios.
"Saúde cerebral não é um luxo nem uma reflexão tardia. É a base sobre a qual produtividade, criatividade e desenvolvimento humano dependem", conclui o estudo.
Brasil já colocou a saúde mental em pauta
A discussão ganha ainda mais relevância no Brasil em um momento em que as empresas estão sendo pressionadas a olhar com mais atenção para os riscos psicossociais no ambiente de trabalho. Desde a atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), fatores como estresse excessivo, assédio, sobrecarga de trabalho e outros elementos que possam afetar a saúde mental dos trabalhadores passaram a integrar de forma mais explícita o gerenciamento de riscos ocupacionais.
“A forma como o trabalho é organizado, como as lideranças se relacionam, como as pessoas descansam, se alimentam, convivem e acessam soluções de apoio influenciam diretamente na saúde mental e cerebral”, afirma Ana Menegotto, vice-presidente de Pessoas, Comunicação e ESG da Sodexo Brasil, em nota.
"A NR-1 é um caminho importante para acelerar a construção de soluções e melhor entendimento acerca dos desafios da segurança psicológica nas organizações, mas o cuidado precisa estar incorporado ao dia a dia da operação e da liderança."
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