Ibovespa ainda vai chegar a 200 mil pontos, diz XP; juros altos e eleição serão os testes do segundo semestre
O banco vê catalisadores positivos que podem sustentar as ações brasileiras nos próximos meses, mesmo diante de desafios conjunturais e estruturais

Depois da montanha-russa que foi o primeiro semestre, a XP entrou na segunda metade de 2026 olhando menos para o passado e mais para duas perguntas que devem definir o rumo do Ibovespa daqui para frente: para onde vão os juros e qual será o impacto das eleições presidenciais sobre a percepção de risco do país.
As respostas levaram a corretora a reduzir sua projeção para o principal índice de ações da bolsa: de 205 mil para 200 mil pontos ao final do ano.
Ainda assim, o time comandado por Fernando Ferreira mantém uma visão positiva para as ações brasileiras, argumentando que os preços seguem atrativos e que o nível de pessimismo dos investidores atingiu um extremo que, historicamente, costuma anteceder recuperações de mercado.
Em outras palavras, a XP enxerga um segundo semestre mais difícil do que o primeiro, mas não necessariamente ruim para o Ibovespa.
O principal risco
O maior sinal de alerta vem dos indicadores macroeconômicos, mais especificamente, juros e inflação. A XP trabalha com quatro possíveis cenários para esses dois indicadores para avaliar o impacto nas ações brasileiras. São eles:
- Inflação em queda, juros em alta;
- Inflação em baixa, juros em baixa;
- Inflação em alta, juros em alta; e
- Inflação em alta, juros em baixa.
Esses cenários consideram as projeções e estimativas dos agentes financeiros para os indicadores no futuro. Neste momento, o modelo indica que o Brasil já entrou em um ambiente de projeções de inflação em alta, que provavelmente irá continuar nos próximos meses. Com isso, as projeções do mercado para a taxa de juros devem acompanhar e subir também, levando a um cenário de inflação alta combinada com juros em alta.
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- Aqui vale destacar que essas estimativas são feitas pelo mercado e não necessariamente se refletem na realidade. O fato de os agentes financeiros precificarem alta nos juros não significa que o Banco Central vai aumentar os juros de novo. São cálculos comuns no ambiente financeiro.
A expectativa dos analistas é que essa transição aconteça entre agosto e setembro, caso as taxas de juros estimadas pelo mercado permaneçam próximas dos níveis atuais.
E essa mudança importa porque, historicamente, esse é o pior ambiente para as ações brasileiras.
Nos cálculos da XP, o Ibovespa apresentou retorno real anualizado médio de 11,2% em períodos de inflação e juros em queda. Já nos momentos de inflação alta e juros em alta, o retorno médio foi negativo em 17,5% ao ano.
Basicamente, juros elevados tornam os investimentos de renda fixa mais atraentes e encarecem o crédito para empresas e consumidores. Como consequência, parte das companhias tende a crescer menos e seus lucros ficam sob maior pressão.
Por isso, se esse cenário realmente se confirmar, os investidores devem se tornar mais seletivos em relação às ações do Ibovespa.
Eleições e a volatilidade
O segundo grande tema do semestre é a eleição presidencial.
Embora a votação aconteça apenas em outubro, a XP afirma que o chamado "ciclo eleitoral" já está sendo precificado pelos agentes financeiros, com impacto na volatilidade das ações e do dólar.
A grande questão, segundo o relatório, não é quem vencerá a disputa. Os investidores estão aguardando os planos que o futuro presidente tem para a política fiscal a partir de 2027.
A preocupação não é nova: a dívida pública brasileira está crescendo e, segundo projeções da própria XP, a dívida bruta pode chegar a 88,1% do PIB em 2027, contra 83,3% projetados para 2026.
Este seria um dos motivos que explica por que o mercado continua exigindo juros reais tão altos para financiar o governo — porque o risco-país cresce na mesma velocidade da dívida.
Na avaliação do banco, fica difícil imaginar uma valorização consistente e duradoura do Ibovespa e demais ações sem uma melhora crível das perspectivas fiscais do país.
- A XP calcula que uma queda de 1 ponto percentual (p.p.) nos juros reais de longo prazo teria potencial para elevar o valor justo do Ibovespa em aproximadamente 9%.
Resiliência do Ibovespa
Mas nem tudo é cenário de risco. Um dos argumentos construtivos em relação às ações brasileiras é o valuation. O Ibovespa negocia hoje a cerca de 8,3 vezes os lucros projetados das empresas, diz o relatório, um patamar abaixo de sua média histórica de 11 vezes.
Além disso, o índice de sentimento desenvolvido pela XP atingiu o nível zero em uma escala que vai de 0 a 100, indicando o maior grau possível de pessimismo dos investidores com a bolsa.
Historicamente, segundo o banco, níveis tão baixos de confiança costumam funcionar como um sinal contrário: quando a maioria dos investidores está excessivamente pessimista, aumenta a chance de recuperação dos ativos.
Ventos favoráveis também podem vir de fora, segundo os analistas.
Nos últimos meses, investidores internacionais concentraram recursos em empresas ligadas à inteligência artificial, especialmente nos Estados Unidos e em mercados asiáticos.
Esse movimento ajudou a reduzir o interesse por países como o Brasil e fez os estrangeiros resgatarem parte dos recursos que tinham alocado no começo do ano.
Agora, porém, a XP vê sinais de que esse entusiasmo pode estar perdendo força.
Caso ocorra uma rotação de capital para setores mais tradicionais ou para mercados considerados baratos, o Brasil de voltar a ser um dos candidatos naturais a receber parte desses recursos.
Onde o Ibovespa pode terminar 2026
Apesar da redução na projeção principal para 200 mil pontos, a XP trabalha com três cenários para o fim do ano:
- Pessimista: 158,9 mil pontos;
- Cenário-base: 199,8 mil pontos;
- Otimista: 259,1 mil pontos.
Considerando que o Ibovespa encerrou junho aos 172.024 pontos, o cenário-base implica um potencial de valorização de 16,2% nos próximos meses.
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