Retorno recorde nos títulos IPCA+ de um lado, spreads baixos e RJs do outro: o que é de fato risco e oportunidade na renda fixa privada hoje?
Em carta a investidores, gestora de renda fixa Sparta elenca os pontos positivos e negativos do mercado de crédito privado hoje

O mercado de renda fixa privada não é, atualmente, o mais abundante em oportunidades. A forte demanda dos investidores, que buscam aproveitar a taxa Selic elevada e ainda se mostram avessos ao risco de bolsa, derrubou os spreads dos títulos de crédito privado, isto é, o retorno extra desses ativos em relação aos títulos públicos equivalentes.
O movimento é visto especialmente entre os títulos high grade (aqueles de menor risco de crédito, emitidos por empresas consideradas boas pagadoras) e nos incentivados, os papéis isentos de imposto de renda, como as debêntures incentivadas de infraestrutura.
Os retornos mais comprimidos fazem com que haja menos espaço para uma valorização desses ativos, mas dados os juros altos, a rentabilidade do crédito privado permanece historicamente elevada, preservando o apetite dos investidores que pensam em ficar com os papéis até o vencimento.
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Assim, a atratividade da renda fixa privada tem se sustentado mais pelo carrego — a remuneração gorda que o investidor recebe para carregar o título na carteira — do que por um potencial de redução adicional nas taxas, de modo a valorizar os títulos.
Os tais dos spreads comprimidos têm deixado gestoras como a Sparta mais cautelosas para ir às compras, preferindo manter uma posição elevada de caixa.
Em sua última carta mensal aos cotistas, referente a abril, a gestora especializada em renda fixa disse não ver novos gatilhos para aberturas nos spreads (o que acarretaria em uma desvalorização dos títulos de renda fixa privada), mas também não ver espaço para compressões adicionais relevantes.
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"Neste contexto de equilíbrio, o retorno dos fundos tem vindo essencialmente do carrego das estratégias, e nossa postura permanece cautelosa, com mais caixa e prazos médios menores, aguardando eventuais
oportunidades futuras", diz a gestora.
IMA-B 5 com retorno recorde
Mas se de fato os spreads comprimidos têm sido um fator de incômodo para se fazer novos aportes em títulos de crédito privado de baixo risco, por outro lado, os investimentos indexados à inflação especificamente, em especial os de prazos mais curtos (até cinco anos), vêm mostrando uma boa relação risco-retorno, na opinião da Sparta.
A gestora destaca que o índice IMA-B 5, que reproduz o desempenho de uma cesta de títulos públicos indexados à inflação (Tesouro IPCA+) de até cinco anos, atingiu seu recorde de IPCA+8,4% em março deste ano, patamar superior ao de 2016, durante o impeachment da ex-presidente, Dilma Rousseff.
"Nossa avaliação é que atualmente esse índice tem uma assimetria muito favorável. Além de oferecer proteção contra a inflação, um aspecto especialmente relevante no cenário atual, o IMA-B 5 pode antecipar ganhos com uma eventual melhora do mercado", diz a carta de abril.
Vale lembrar que, recentemente, a visão do mercado para a taxa básica de juros no fim deste ano mudou bastante, agora com uma previsão de fechar 2025 em patamar inferior a 15%. Com isso, os juros futuros viram um alívio ao longo do último mês, o que tende a baixar a remuneração de títulos prefixados e indexados à inflação, que acabam se valorizando.
"Apenas para ilustrar: uma redução de 3,0 p.p. (um patamar ainda acima da média histórica), com uma duration de dois anos, geraria um ganho adicional de +6,0%, além do carrego. Neste ano, até abril o IMA-B 5 acumulava alta de +4,9%, frente a +4,1% do CDI", diz a Sparta.
Em outras palavras, fundos indexados ao IMA-B 5 e os títulos atrelados ao IPCA de prazos inferiores a cinco anos chegaram recentemente ao ápice da sua atratividade.
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No caso dos ativos isentos de imposto de renda então, como as debêntures incentivadas indexadas ao IPCA, a atratividade é maior ainda, justamente devido à isenção de IR.
Diante deste cenário, a Sparta reabriu para captação seu fundo Sparta Debêntures Incentivadas Inflação, que estava fechado há cerca de um ano. "Apesar dos spreads mais comprimidos que a média histórica, consideramos o momento muito favorável, e a janela de captação está limitada a R$ 500 milhões", observou a gestora na carta.
Entre os fundos listados em bolsa da Sparta, o JURO11 é o que tem perfil semelhante. Além disso, na última semana a casa começou a negociar o DIVS11, outro FI-Infra (fundo de debêntures incentivadas com cotas negociadas em bolsa), porém atrelado ao índice IDkA IPCA 5A, o qual reflete os movimentos dos juros futuros de cinco anos e acaba tendo uma duration maior que o IMA-B 5.
Risco de crédito aumentado? As recuperações judiciais
Em relação ao risco de crédito dos emissores de títulos de renda fixa privada, a Sparta observa, na carta, que a quantidade elevada de pedidos de recuperação judicial que vem sendo observada tem levado seus clientes a fazer questionamentos.
No entanto, diz a gestora, a inadimplência se concentra no segmento de micro, pequenas e médias empresas, que não são as emissoras dos títulos de crédito privado nos quais os fundos de renda fixa costumam investir, principalmente quando consideramos que os maiores volumes se concentram nos títulos classificados como high grade.
A Sparta nota que a inadimplência das micro, pequenas e médias empresas não só é estruturalmente mais elevada que a das grandes empresas como está aumentando desde 2021, assim como esteve durante a crise de 2015-16.
"De fato, o Brasil registrou, em 2024, um total de 2.273 pedidos de RJ — o maior número desde o início da série histórica em 2014, segundo dados da Serasa Experian. No entanto, é importante destacar que esse movimento é majoritariamente puxado por empresas de menor porte: micro e pequenas empresas responderam por 1.676 pedidos, médias por 416, enquanto as grandes empresas somaram apenas 181 ocorrências", diz a carta da gestora.
Já o nível de inadimplência das grandes empresas, principais emissores de títulos de renda fixa privada, continua em patamar "bastante confortável", nas palavras da gestora.
"Assim, embora o cenário macroeconômico demande atenção, seguimos com a leitura de que o mercado de crédito privado high grade segue favorável. Ainda assim, temos sido bastante cautelosos com alguns emissores e alguns setores onde entendemos que tenha uma assimetria de riscos desfavorável", conclui a Sparta.
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