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Analistas de think tank conservador dizem que cálculo de Trump está errado e que as tarifas não têm nada de recíprocas nem fazem sentido do ponto de vista econômico
O tarifaço de Donald Trump contra o mundo baseia-se em um erro de cálculo grosseiro. Essa é a conclusão do insuspeito American Enterprise Institute, um think tank conservador dos Estados Unidos.
A fórmula apresentada pela Casa Branca para calcular as tarifas já havia chamado a atenção por parecer simplista demais.
Primeiro, a Casa Branca aplica um porcentual mínimo de 10% sobre as importações de todos os países e territórios com os quais os EUA fazem negócios — até mesmo aqueles habitados somente por pinguins e outros espécimes da fauna marinha suspeitos de deixar a nação de Trump mais pobre.
Em seguida, é aplicada uma tarifa adicional que equivale à metade da relação entre o déficit comercial dos EUA com o país dividido pelas importações daquele país.
Como os EUA tem superávit comercial com o Brasil, a tarifa aplicada aos produtos nacionais ficou limitada ao piso de 10%.
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Já no caso da China, a divisão entre o déficit comercial de US$ 295 bilhões e o total de importações de US$ 438 milhões equivale a um percentual de cerca de 67%.
Assim, a tarifa adotada (a metade arredondada para cima dessa relação) ficou em 34% — já retaliada por Pequim.
Houve quem comparasse a matemática da Casa Branca a uma conta de padaria. Outros consideraram a acusação um desrespeito aos padeiros.
Em uma hora como essa, nada melhor do que o cálculo de quem entende do assunto.
E os especialistas do American Enterprise Institute foram taxativos em uma análise publicada durante o fim de semana.
Além disso, elas não fazem sentido do ponto de vista econômico.
Para começar, os autores da análise apontam que o saldo comercial não é determinado apenas por tarifas e barreiras comerciais não-tarifárias.
É preciso colocar na conta os fluxos internacionais de capital, as cadeias de suprimentos, eventuais vantagens comparativas e a geografia, além de uma série de outros aspectos, escrevem Kevin Corinth e Stan Veuger.
Além disso, a fórmula usada por Trump contém um erro que infla as tarifas aplicadas pelos outros países aos produtos norte-americanos.
O erro de cálculo acaba multiplicando por quatro o resultado da conta, o que faz com que as tarifas anunciadas por Trump sejam qualquer coisa, menos recíprocas.
“O erro é basear a elasticidade [da demanda por importação] na resposta dos preços de varejo às tarifas, em vez de nos preços de importação, como deveria ter sido feito”, escreveram os acadêmicos.
Se a conta fosse corrigida e as tarifas fossem realmente recíprocas, nenhum dos países com os quais os EUA mantêm relações comerciais seria taxado em mais do que 14%.
No caso da China, as tarifas cairiam a 10%, considerando a manutenção do piso das sobretaxas.
“Nossa opinião é que a fórmula na qual o governo se baseou não tem fundamento nem na teoria econômica nem na lei comercial”, escrevem Corinth e Veuger.
Questionada sobre o assunto, a secretária de Agricultura de Trump, Brooke Rollins, defendeu a tortura dos números pelo governo e colocou o conservador American Enterprise Institute na fila de espera para integrar a lista de pessoas e instituições consideradas como “extrema-esquerda” por Trump e seus aliados.
Ainda no fim de semana, protestos contra as políticas de Donald Trump reuniram milhares de pessoas em diversas cidades dos EUA.
As maiores aglomerações foram observadas em Washington, Nova York, Los Angeles, Boston e Chicago.
Hoje é a vez dos mercados financeiros protestarem a seu modo.
Funcionários do governo tentavam acalmar os mercados alegando que mais de 50 países teriam manifestado interesse em negociar as tarifas. Sem sucesso.
Aparentemente alheio às incertezas provocadas por suas ações, Trump recorreu a suas redes sociais para dizer que os norte-americanos “um dia vão se dar conta” que as tarifas são “a coisa mais linda”.
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