No caldeirão de Trump, Fed resiste ao fogo alto e mantém juros em banho-maria
Na primeira reunião do ano , o banco central norte-americano seguiu a receita que o mercado esperava: manteve a taxa referencial na faixa entre 4,25% e 4,50% ao ano

Donald Trump aumentou o fogo da política monetária norte-americana ao dizer recentemente que sabe mais do que o Federal Reserve (Fed) sobre juros — e esses devem cair imediatamente. Na primeira reunião de 2025, o banco central dos EUA resistiu à pressão e manteve a taxa em banho-maria.
O cardápio que o Fed preparou para hoje não pegou ninguém de surpresa — talvez nem mesmo o próprio Trump.
Com uma economia resiliente, um mercado de trabalho aquecido e uma inflação que ensaia acelerar, investidores já esperavam que os juros continuassem na faixa entre 4,25% e 4,50% ao ano.
A reação do mercado foi menos branda do que previsto. Em Wall Street, os três principais índices aceleraram um pouco a queda assim que a decisão foi anunciada. O Dow Jones acabou encerrando o dia em queda de 0,31%, enquanto o S&P 500 e o Nasdaq baixaram 0,47% e 0,51%, respectivamente, no fechamento.
Por aqui, o Ibovespa seguiu em operando no vermelho. O principal índice da bolsa brasileira encerrou a sessão em queda de 0,50%, aos 123.432,12 pontos, enquanto o dólar no mercado à vista subiu 0,06%, cotado a R$ 5,8662.
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Fed cozinha os juros no caldeirão de Trump
O comitê de política monetária (Fomc, na sigla em inglês) iniciou o ciclo de corte de juros em setembro do ano passado, diminuindo a taxa três vezes de lá para cá, até a pausa de hoje.
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E tudo indica que o caldeirão de Trump forçará o Fed a manter as temperaturas (e as expectativas) baixas pelo menos até junho — quando a ferramenta de monitoramento FedWatch do CME Group precifica o primeiro corte de juros deste ano.
Isso porque, enquanto as tarifas, a política de imigração mais dura e os cortes de impostos podem alimentar a inflação, a desregulamentação e o protecionismo tendem a fortalecer a economia. O BC norte-americano não teria por que ter pressa.
O comunicado de hoje trouxe algumas pistas sobre o raciocínio por trás da decisão de manter os juros estáveis.
Enquanto o documento oferece uma visão um pouco mais otimista sobre o mercado de trabalho, retira uma referência importante da declaração de dezembro de que a inflação "progrediu em direção" à meta de inflação de 2% do Fed.
"A taxa de desemprego se estabilizou em um nível baixo nos últimos meses, e as condições do mercado de trabalho permanecem sólidas", diz o Fed. "A inflação continua um pouco elevada", acrescenta.
O comunicado indica novamente que a economia "continuou a se expandir em um ritmo sólido".
A inflação nos EUA desacelerou drasticamente do pico de 40 anos atingido em meados de 2022, mas a meta de 2% do Fed ainda não foi atingida.
O índice de preços para gastos pessoais (PCE, na sigla em inglês) — indicador preferido do banco central norte-americano — mostrou que a inflação acelerou para 2,4% em novembro, a maior desde julho, enquanto o núcleo, que exclui alimentos e energia, ficou em 2,8%.
Vale lembrar que declarações recentes de membros do Fomc sinalizam alguma apreensão em torno de uma possível estagnação do progresso de desaceleração da inflação.
As autoridades também já disseram que querem ver como os cortes de juros anteriores estão funcionando na economia, embora a maioria espere reduções da taxa em 2025.
Em dezembro, o Fomc cortou pela metade a previsão de corte de juros neste ano, que passou de quatro para duas. O Seu Dinheiro detalhou a decisão na ocasião e você confere tudo aqui.
Sobre o mercado de trabalho também houve mudança. O comitê retirou do comunicado o trecho que afirma que as condições do mercado de trabalho "arrefeceram e a taxa de desemprego se movimentou para cima, mas se mantém baixa".
Ao invés disso, o texto passou a apontar que "a taxa de desemprego se estabilizou em um nível baixo nos meses recentes, e as condições mercado de trabalho permanecem sólidas".
TRUMP no GOVERNO: As AÇÕES AMERICANAS vão brilhar em 2025?
O menu de Trump para os juros do Fed
Em pouco mais de uma semana na Casa Branca, Trump assinou centenas de ordens executivas que buscam implementar uma agenda agressiva.
O republicano apoiou tarifas como uma ferramenta econômica e de política externa, ordenou uma onda de deportações contra quem cruza a fronteira dos EUA ilegalmente e apresentou uma série de medidas de desregulamentação.
Além disso, Trump falou na semana passada sobre a confiança de que fará a inflação desacelerar e disse que “exigiria” que os juros fossem reduzidos “imediatamente”.
Embora o presidente norte-americano não tenha autoridade sobre o Fed além de nomear membros do conselho, a declaração de Trump sinaliza um relacionamento potencialmente contencioso com os membros do Fomc, como aconteceu no primeiro mandato.
Chef Powell pilota o fogão do Fed
Embora Trump insista em assumir a “cozinha” dos juros, é Powell quem pilota o fogão do Fed.
Em coletiva para explicar a decisão de hoje, o chefe do BC norte-americano foi claro: não há pressa para fazer novos ajustes na taxa referencial.
Powell repetidamente disse que a política monetária dos EUA está bem posicionada e que a economia vai bem, por isso, ele e os membros do Fomc não enxergam urgência para mudanças.
"Olhamos os dados [econômicos] para nos guiar sobre o que devemos fazer. Agora, entendemos que a politica está bem posicionada e a economia também", disse Powell.
"Esperamos ver mais progresso na inflação e se isso acontecer podemos estar em posição de fazer novos ajustes. Agora não vemos isso e não precisamos de pressa para fazer qualquer ajuste", acrescentou.
Powell adiantou que o PCE fechou o ano de 2024 em 2,6%, e o núcleo em 2,8%. O presidente do Fed também sinalizou que a economia dos EUA cresceu mais de 2% no período. Os dados ainda serão divulgados oficialmente.
O chefe do Fed, no entanto, afirmou que não é necessário que o Fomc veja a inflação na meta de 2% para voltar a cortar os juros.
"Nossa política está muito bem calibrada levando nosso mandato duplo [de pleno emprego e estabilidade de preços]. Não precisamos ver o mercado de trabalho enfraquecer ainda mais para atingir a meta de inflação. Também não reagimos com exagero às leituras que mostraram que a inflação acelerou. Tivemos três leituras ruins e três boas. Acho q estamos bem calibrados", acrescentou.
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