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Semanas após levantar US$ 1 bilhão em uma rodada de investimentos, a fundadora da Kalshi revelou planos para desembarcar no Brasil
E se, em vez de investir em ações ou outros títulos, o investidor pudesse literalmente ganhar dinheiro com previsões sobre o futuro? Essa é a proposta da Kalshi, empresa americana que construiu um mercado em torno de eventos que ainda não aconteceram — e agora mira um país que adora apostas: o Brasil.
O interesse da startup — que se apresenta como um mercado de previsões — pelo mercado brasileiro surge em um momento especialmente favorável para a empresa, cuja natureza que remete a uma casa de apostas, ainda que não se apresente como tal, desperta polêmicas.
Há poucas semanas, a Kalshi levantou US$ 1 bilhão em uma rodada de investimentos que elevou sua avaliação para US$ 11 bilhões, algo em torno de R$ 61 bilhões pelo câmbio atual.
O novo fôlego financeiro acelerou a estratégia de expansão internacional e colocou os holofotes sobre a fundadora brasileira da empresa, Luana Lopes Lara.
Segundo a Forbes, Luana conquistou o posto de bilionária “self-made” mais jovem do mundo, ou seja, alguém que construiu a própria fortuna sem herança. O patrimônio da empresária está avaliado em US$ 1,3 bilhão (R$ 7,2 bilhões).
Em entrevista ao Valor Econômico, Luana confirmou que o Brasil está no radar. Segundo ela, a companhia pretende acelerar o crescimento fora dos Estados Unidos e vê o país como um dos destinos prioritários, ainda que os planos estejam em estágio inicial.
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“Ainda não temos nada para anunciar, mas esperamos que, no início do ano que vem, consigamos divulgar alguma novidade e começar a operar no Brasil”, afirmou.
"Não existe nada parecido com a Kalshi no Brasil. Ou existem casas de apostas, ou existem mercados de derivativos, que é exatamente o que havia nos EUA antes da Kalshi existir. Não sabemos exatamente e estamos começando agora a analisar como o sistema funciona. Vamos tentar encontrar uma forma de levar o produto para o Brasil, mantendo o nosso modelo de funcionamento, que é o mercado em si”, disse na entrevista ao Valor.
Com o caixa reforçado, a empresa afirma que os recursos do novo aporte serão direcionados principalmente à expansão da integração com corretoras e à formação de novas parcerias com veículos de comunicação.
Mas, afinal, o que exatamente faz a Kalshi — e por que ela desperta tanto interesse?
Fundada em 2018 por Luana e seu sócio, Tarek Mansour, a Kalshi se define como uma empresa de mercado de previsões focada na negociação de contratos atrelados ao resultado de eventos futuros.
A ideia para o negócio nasceu de uma simples constatação. “Tarek e Luana observaram que muitas decisões financeiras eram motivadas por previsões sobre eventos futuros. No entanto, perceberam uma lacuna no mercado: não havia uma maneira direta para as pessoas negociarem com base nos resultados desses eventos”, diz a própria empresa, no site.
A proposta foi criar uma plataforma mais direta e acessível, na qual os usuários pudessem negociar posições relacionadas a acontecimentos específicos.
Na prática, o funcionamento é binário: os investidores compram contratos de “sim” ou “não” para determinado evento. Se o evento ocorrer, o contrato paga US$ 1; se não, paga zero.
A plataforma permite que os usuários apostem em diferentes temas e situações. Vão desde indicadores da economia dos Estados Unidos, como inflação e taxa de juros, até esportes, cultura e eventos climáticos.
Por exemplo, uma das principais apostas na plataforma é quem será o próximo vencedor das eleições presidenciais dos EUA. Mas temas como “qual a temperatura mais alta registrada em Nova York hoje” também ganham força.

Hoje, porém, o coração do negócio ainda bate no esporte: mais de 90% do volume negociado na plataforma vem de apostas esportivas, segundo a Forbes.
"A visão da Kalshi é permitir que as pessoas capitalizem em suas opiniões, negociem no âmbito do cotidiano e protejam-se dos riscos relacionados a elas”, disse a empresa.
Mas essa proposta só foi possível porque a Kalshi obteve autorização dos reguladores para operar neste segmento em 2020.
A startup se tornou a primeira bolsa totalmente regulamentada nos EUA exclusivamente a contratos de eventos, ao ser oficialmente designada como Mercado de Contratos Designado (DCM, na sigla em inglês) pela Commodity Futures Trading Commission (CFTC), o regulador do mercado de derivativos no país.
Ainda assim, uma dúvida que acompanha a empresa desde o início persiste: afinal, a Kalshi é uma bet, uma bolsa de valores ou um modelo de negócios híbrido dos dois?
A associação com casas de apostas é quase inevitável. No fim das contas, o usuário coloca dinheiro em previsões sobre o futuro.
Mas a fundadora faz questão de rebater essa leitura. “Não somos uma casa de apostas”, costuma afirmar. Para ela, a lógica do negócio se aproxima muito mais da de uma corretora ou de uma bolsa de valores.
Segundo a brasileira, a diferença está no incentivo econômico do negócio. Na Kalshi, a empresa não aposta contra o usuário. Ela só cria o mercado em que compradores e vendedores negociam entre si.
“A Kalshi funciona como uma bolsa de valores, onde as pessoas compram e vendem com base em sua previsão do futuro. E é mais do que esportes. Pode ser sobre economia, política, saúde, qualquer evento futuro mensurável”, disse a empresária, em entrevista à Exame.
“O que é importante entender é que a Kalshi não está apostando contra você, ela apenas cria o mercado onde você pode negociar com outros usuários”, acrescentou.
Em uma casa de apostas tradicional, o usuário aposta contra a própria plataforma, que estrutura probabilidades de forma a manter vantagem.
Essa linha tênue entre aposta e mercado financeiro, porém, trouxe desafios para a Kalshi desde o começo.
Apesar da autorização inicial da CFTC, em 2020, a Kalshi esbarrou em barreiras regulatórias alguns anos depois. No fim de 2023, o regulador rejeitou os contratos eleitorais da empresa, por considerá-los semelhantes a jogos de azar.
Porém, a companhia recorreu da decisão e, em setembro de 2024, obteve uma vitória importante: a Justiça autorizou a Kalshi a oferecer contratos eleitorais legais nos EUA.
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