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Carolina Gama

Formada em jornalismo pela Cásper Líbero, já trabalhou em redações de economia de jornais como DCI e em agências de tempo real como a CMA. Já passou por rádios populares e ganhou prêmio em Portugal.

POR DENTRO DO PAYROLL

Festa na bolsa? O que explica o recorde intradiário do S&P 500 e o dólar abaixo de R$ 4,90 após o forte dado de emprego dos EUA

O índice mais amplo da bolsa de Nova York atingiu o maior nível desde março de 2022 mesmo depois que o relatório mostrou uma abertura de vagas robusta e aumento dos salários, o que significa mais inflação à frente — entenda por que os mercados reagiram assim

Carolina Gama
5 de janeiro de 2024
14:13 - atualizado às 14:43
Touro símbolo do mercado financeiro em Nova York
Imagem: Shutterstock

O dado de emprego dos EUA de dezembro, mais uma vez, estava sendo muito aguardado — e a reação da bolsa também. Os números divulgados nesta sexta-feira (5) vieram fortes: a economia norte-americana criou 216 mil vagas, bem acima do projetado, e a taxa de desemprego se manteve em 3,7%. 

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Olhando só para esses dados do famoso payroll, tudo indicava que as bolsas de Nova York abririam em baixa, com a possibilidade de um aperto monetário ainda vivo sobre a mesma. Mas não foi o que aconteceu. 

Wall Street até abriu próximo da estabilidade, mas não demorou muito para que o Dow Jones, o S&P 500 e o Nasdaq se firmassem em campo positivo. Agora, o Dow é o que mais oscila entre perdas e ganhos.

Por aqui, a reação foi parecida: o Ibovespa caiu na hora da divulgação do dado e renovou a mínima aos 130.578 pontos, enquanto o dólar foi à máxima de R$ 4,9391. 

Mas essa reação não durou muito e o principal índice de ações da bolsa brasileira já voltou a subir, enquanto o dólar está abaixo de R$ 4,90. Acompanhe nossa cobertura ao vivo dos mercados

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Começando pelos salários

Um dado forte de emprego não é ruim, já que mostra a força da economia na geração de vagas — e mais: de renda. 

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Só que no contexto atual da economia norte-americana, um mercado de trabalho robusto pode problema e tanto — pelo menos para o banco central. 

Para entender melhor essa lógica, precisamos dar uma olhada nos dados sobre salários.  

O payroll mostrou que as pressões inflacionárias, apesar de terem diminuído em alguns setores, ainda prevalecem no mercado de trabalho norte-americano. 

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Em dezembro, o ganho médio por hora aumentou 0,4% no mês e 4,1% em relação ao ano anterior — ambos acima das respectivas estimativas de 0,3% e 3,9%. 

Um salário mais alto pode se traduzir em aceleração da inflação e a aceleração da inflação pode trazer de volta o aperto monetário nos EUA. 

Se você quer saber onde investir em 2024 em meio a esse cenário de juros nos EUA e bolsa em alta por aqui, o Seu Dinheiro preparou uma série especial que pode ser acessada aqui.

Então por que as bolsas renovaram recorde nos EUA?

Assim que os dados de emprego dos EUA saíram, os investidores passaram a ver chances menores de um corte de juros na reunião de março do Federal Reserve (Fed), para cerca de 56%, de acordo com a ferramenta FedWatch do CME Group.

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No encontro de dezembro do Fed, as projeções dos membros do comitê de política monetária indicavam três cortes da taxa e o mercado passou a apostar com mais firmeza de que o primeiro deles viria em março deste ano. 

O payroll esfriou parte dessa expectativa. Então por que as bolsas sobem? A resposta está nos relatórios de emprego anteriores a dezembro. 

Ainda que o payroll tenha vindo acima do esperado para criação de vagas e salários, o documento de hoje reviu em baixa as aberturas de vagas dos meses anteriores — dessa forma:

  • Outubro de 2023: de 150 mil vagas abertas para 105 mil 
  • Novembro de 2023: de 199 mil vagas abertas para 173 mil

Com essas revisões, a criação de postos de trabalho em outubro e novembro combinados é 71 mil abaixo do relatado anteriormente.

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Os especialistas explicam a bolsa e os juros

Andrew Hencic, economista sênior da TD Economics, diz que os números do mercado de trabalho dos EUA foram uma surpresa pelo fato de a criação de vagas em dezembro superar as projeções para o mês, mas ele explica a euforia das bolsas com o payroll neste momento. 

“A surpresa ascendente de dezembro deve pesar contra as 71 mil revisões descendentes dos dois meses anteriores, mas a  tendência ainda é amiga do Fed, uma vez que o ritmo de contratações continua a abrandar, especialmente no setor privado”, diz. 

Para Hencic, o quadro geral é de uma política monetária restritiva que continua a funcionar através da economia e de uma procura de trabalho reduzida.

Já para Francisco Nobre, estrategista global macro da XP Investimentos, diz que os dados são consistentes com o apelo de que o ciclo de flexibilização começará em maio e que o Fed reduzirá os juros um total de 150 pontos base ao longo de 2024. 

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“Embora as pressões sobre os preços pareçam estar diminuindo consideravelmente, a atividade econômica permanece robusta, o que significa que o Fed pode se permitir ser mais paciente”, diz Nobre. 

Já William Castro Alves, estrategista-chefe da Avenue, diz que os dados de emprego de dezembro reforçaram a visão de que a economia norte-americana segue resiliente e, com isso, abre-se espaço para correções do movimento observado nos últimos 60 dias, ou seja, da queda dos yields (rendimento) dos títulos de dívida norte-americanos. 

“Tal dado reforça a visão de que as apostas mais agressivas em cortes de juros logo no início do ano (reuniões de janeiro e março) podem não fazer sentido em um cenário no qual os salários crescem acima da inflação e a criação de postos de trabalho segue robusta”, afirma Alves.

O Goldman Sachs cita, além das revisões em baixa dos meses anteriores, a queda da participação da força de trabalho, a baixa no agregado familiar e o aumento da taxa de subemprego em dezembro.

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"Continuamos a esperar três cortes consecutivos de 25 pontos base de juros em março, maio e junho, devido à inflação menor, seguidos de cortes trimestrais para uma taxa terminal de 3,25-3,5%", diz o Goldman em nota.

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