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Simplesmente não confio em governos, mas acredito que, em ocasiões de emergência, a União pode interferir em alguns preços para evitar abusos
Me lembro bem que até 1973, quando estourou a Guerra do Yom Kippur, a gasolina era uma das menores despesas dos carros e dos aviões (eu tinha um monomotor Cessna 180). Nas estradas brasileiras, rodavam caminhões movidos a gasolina.
No mercado internacional, o preço dos combustíveis era controlado por empresas petrolíferas ocidentais conhecidas como Sete Irmãs. Pela ordem alfabética: Anglo-Iranian Oil Company; Royal Dutch Shell; Standard Oil Company of California; Gulf Oil; Texaco; Standard Oil Company of New Jersey e Standard Oil Company of New York.
Pois bem, veio a guerra. Egito e Síria atacaram Israel no dia sagrado do Yom Kippur. Atacaram e estiveram a um passo de vencer o conflito.
Mas, com a ajuda dos Estados Unidos, então governados por Richard Nixon, que enviaram armas e munições, inclusive tanques direto de aviões na península do Sinai para o campo de batalha, os israelenses acabaram vencendo.
Só não foram adiante, em direção ao Cairo e a Damasco, porque a União Soviética ameaçou intervir ao lado dos árabes.
Em vingança pela derrota, os países árabes, em conjunto, que já haviam constituído a OPEP treze anos antes, mas tinham pouca (ou quase nenhuma) influência na fixação dos preços, tomaram a si essa incumbência.
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Em apenas dois meses, a cotação do barril de petróleo, no mercado spot de Roterdã, pulou de US$ 3 para US$ 22, uma alta de 633,33%, provocando inflação e recessão no Ocidente. Iniciara-se o Primeiro Choque do Petróleo.
Como medida de defesa, a indústria automobilística de Detroit trocou as banheiras rabo de peixe por carros compactos, a velocidade máxima nas estradas americanas foi fixada em 55 milhas (88,5 km/h).
A Grã-Bretanha instituiu a semana de três dias úteis; no Brasil, o presidente Emílio Garrastazu Médici, que estava de saída, deixou o pepino para seu sucessor, general Ernesto Geisel — e ele demorou a agir antes de tomar duas decisões:
O Segundo Choque do Petróleo, em 1979, foi causado pela revolução islâmica iraniana e levou o preço do óleo cru para 40 dólares. Entre as duas grandes crises do petróleo, a maioria das empresas exploradoras do Oriente Médio foi estatizada, assim como aconteceu na Venezuela, que criou a PDVSA (Petróleos de Venezuela S. A.).
Terminara o reinado das Sete Irmãs e, aos poucos, o petróleo foi se tornando uma commodity como outra qualquer, com seus preços sendo determinados pelas leis de oferta e procura.
Mesmo durante a primeira Guerra do Golfo, detonada pela invasão do Kuwait pelas tropas do ditador iraquiano Saddam Hussein, a alta do preço do barril, embora tenha sido de 100%, de US$ 20 para US$ 40, durou pouco.
O certo é que boa parte dos países procurou se valer de fontes alternativas de energia, tais como eólica, solar, nuclear, das marés e construir mais barragens e usinas hidrelétricas; houve prospecção em massa em todas as partes do globo.
No Brasil, que na época do primeiro choque produzia apenas 20% de seu consumo de óleo cru, foram descobertas jazidas em águas profundas na bacia de Campos. Tornamo-nos autossuficientes em petróleo.
Depois de ter seus objetivos desvirtuados para fins políticos-eleitorais, e mais tarde para corrupção em alta escala, a Petrobras (PETR4) iniciou um período virtuoso com a posse, na presidência, de Pedro Parente, durante o governo Michel Temer.
A empresa passou a praticar, no mercado interno, os preços internacionais, tal como fazem os produtores de soja, trigo, milho, minério de ferro e demais matérias-primas.
Veio então a grande greve dos caminhoneiros de 2018. Temer quis congelar o preço do óleo diesel, procedimento com o qual Parente não concordou, pedindo demissão no ato.
Apesar de algumas interferências pontuais do Planalto, nos governos Temer e Bolsonaro, a Petrobras continua atuando como uma sociedade anônima que privilegia os acionistas, sendo o maior deles a própria União.
Agora talvez isso tenha de mudar, favorecendo a população em geral, em detrimento do objetivo lucro. Bolsonaro é a favor disso, assim como seu opositor, Lula; o mesmo acontece com as casas do Legislativo.
Se outros países, seguindo liderança dos Estados Unidos, embargarem o petróleo e o gás natural russo, ou se a própria Rússia, numa atitude economicamente suicida, estancar suas exportações, vejo grandes possibilidades do preço do barril, num processo de squeeze, se elevar a 200 dólares ou mais.
Como os consumidores brasileiros não têm condições de arcar com esse preço, essa história de cotação internacional vai melar por aqui. Se os estatutos da Petrobras não permitem, os estatutos irão mudar.
O erro da política petrolífera vem desde o governo Vargas, quando se criou o monopólio da Petrobras, em meio a arroubos de nacionalismo sintetizados pelo slogan O petróleo é nosso.
Se o mercado de extração, refino e distribuição de petróleo fosse livre no Brasil, como é o caso dos Estados Unidos, teríamos aqui diversas empresas, nacionais e estrangeiras, prospectando, produzindo, refinando e vendendo derivados num processo de livre e saudável concorrência.
Só o fato de a Petrobras fixar o preço do produto, mesmo que às vezes seja realista, me causa profunda irritação. Já imaginaram se a soja, o milho, as carnes e outras commodities brasileiras de grande produtividade fossem produzidas em fazendas estatais? Onde estaríamos nós como potência de matérias-primas, como é o caso atual?
Josef Stalin coletivizou a agricultura soviética e 12 milhões de pessoas morreram de fome.
Mao Tsé-Tung criou o programa O grande salto adiante, com o mesmo objetivo de estatizar o campo. Resultado: segundo Frank Dokötter, catedrático de Humanidades da Universidade de Hong Kong, e autor do livro Mao’s Great Famine, 45 milhões de chineses pereceram no processo.
Mais de oitenta por cento de meus recursos pessoais estão aplicados em renda variável, quase tudo em blue chips de alta liquidez. Deste portfolio não consta nenhuma ação de estatal, nem mesmo a Petrobras — simplesmente não confio em governos.
Por outro lado, acredito que, em ocasiões de emergência (e o mundo está atravessando uma delas), a União, consultando o Congresso Nacional, pode interferir em alguns preços para evitar abusos, sejam eles extorsivos ou causados por eventos internacionais que fogem ao nosso alcance.
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