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Este pode ser visto como um texto sobre família e valores pessoais. E pode ser visto como um texto sobre os benefícios do investimento em longo prazo
Há exata uma semana, me tornei pai de menina.
Como diz o personagem de Ethan Hawke em “Boyhood”, “this needs a little explanation”. Explico. Ao usar a expressão “pai de menina”, não pretendo dizer que criarei a Maria de maneira diferente àquela do João Pedro. É apenas uma consideração objetiva.
Sou daquelas pessoas que entende que, se um sujeitX quiser casar com uma árvorX, ele pode e deve seguir em frente — contanto que haja consentimento por parte da árvorX, claro, o que talvez seja um pouco difícil de conseguirmos de forma explícita, mas ele que dê um jeito.
Lá em casa, a gente nunca falou muito sobre igualdade de gênero e de etnias, xenofobia ou multiculturalismo. Talvez porque, ao menos ali dentro, não precisasse. Essas coisas sempre emanaram da gente. Se um elemento existe de forma orgânica e natural no ambiente, não chama atenção. Está ali presente, discreto, sem alarde, porque apenas é.
Lembro de uma situação curiosa — na verdade, um pouco triste em retrospectiva, mas que, naquele momento, eu não podia ter sua real dimensão. Meu pai sempre me falou uma coisa interessante: “Se você quiser entender o Brasil, não pense pela perspectiva de sua janela no Alto de Pinheiros, pense em Senhora do Porto”.
Senhora do Porto é uma cidade no interior de Minas Gerais. É perto de Itabira, Governador Valadares, do lado de Guanhães. Foi lá que minha mãe nasceu e onde passei boa parte das minhas férias escolares na infância e na adolescência. Tem menos de 5.000 habitantes. Um igreja central que reúne as famílias aos domingos (embora venha perdendo espaço para os cultos evangélicos), uma pracinha linda (apesar de já ter sido mais bem cuidada), um rio onde a gente nadava (uma forma bastante eficiente de contrair “xistose”; dizem que era porque várias reses se banhavam perto da nascente do rio), um monte de bares (muitas vezes mais cheios do que a igreja) e um campo e uma quadra de futebol.
A gente jogava bola rigorosamente todos os dias entre o final da tarde e o começo da noite. Normalmente, chegávamos juntos eu, meu primo Regis e meu amigo inseparável Filipy (que saudade dos dois!) — eu adorava jogar no time deles, dava uma sensação de união, de time mesmo. Éramos uns dos poucos calçados, apesar de as divididas machucarem mais em mim do que nos pés dos jogadores adversários. Parecia que a cidade toda estava ali, de maneira amigável, igual. O esporte nivela classes, cores e raças — ou talvez até confira vantagem àqueles com maior fibra muscular, mas essa é outra história. Todos, com pouca ou muita melanina na pele, com ou sem chuteira, alguns até sem camiseta porque não as podiam comprar, éramos os mesmos ali dentro. Minha torcida era sempre para que o Tita e o Pretinho estivessem também chegando no mesmo momento que a gente. Era a chance de jogarmos todos no mesmo time. Eles eram irmãos. Nas manhãs, conviviam lá na casa da Tia Eunice, onde a gente ficava, porque eram pintores, marceneiros, eletricistas, encanadores e mais qualquer outra coisa que fosse necessária. Dois craques, também no futebol — corria o rumor de que o Pretinho teria sido chamado para jogar no Cruzeiro. Não foi por falta de dinheiro para a passagem.
A gente jogava das 16h às 20h. Em determinado momento, morríamos de sede. Havia uma torneira lá, água saborizada — sabor cobre, com cobertura de sódio. Todos bebiam daquela água. Eu também, porque jamais me permitiria diferenciar. Mas minha mãe me obrigava a levar uma garrafa de água mineral para lá. “Não vai beber daquela água suja, hein menino?” “Claro que não, mãe.”
Certo dia, uma situação me marcou. Perdemos um jogo, aquele tradicional 10 minutos ou dois gols. Uma das raras vezes em que nossa esquadra foi tirada da quadra. Sentei ao lado daquela garrafa Minalba e ofereci para um dos jogadores negros do meu time, que estava no degrau acima da arquibancada. Ele olhou dentro dos meus olhos e riu, sem ironias. Balançou timidamente a cabeça de um lado para outro como em negação, levantou e foi até o outro lado beber da água da rua. Voltou, me olhou de novo e viu a dúvida que me consumia. Sabia que eu queria uma explicação para ele não ter bebido da minha água. Então, ele disse: “Felipe, eu não posso beber da sua água. A gente não é deste seu mundo, não”.
Nunca esqueci daquilo, do quanto ele mesmo se via em inferioridade. Talvez até as coisas tenham melhorado desde então. Mas esse ainda é o Brasil. Vários anos depois, eu voltei lá. Encontrei a mesma pessoa no Bar do tio Dacinho, que fica bem na frente da igreja central. Eu fiz questão de beber uma jurubeba com ele. Foi um alívio pra mim.
Eu não sei como vou criar a Maria, mas prometo fazer de tudo para que ela beba no mesmo copo de todas — insisto no todas — amigas dela.
Não quero, com isso, passar qualquer lição sobre paternidade. Embora reconheça adorar uma frase que a Gabi postou recentemente no Instagram: “Prometo criar meus filhos para que eles tratem bem os seus”. Freud dizia que há três atividades impossíveis na vida: governar, analisar (no sentido psicanalítico) e educar. Tudo o que sabemos a priori é que vamos errar.
Pensando nos desafios da paternalidade (e não há nada mais caro para mim do que a paternidade), lembrei de um TEDx Talks do Clay Christensen, professor da HBS, que me fora enviado por um grande amigo, brilhante gestor de ações — preservo seu nome por conta da sua enorme discrição. A ideia central é responder à pergunta: “Como você vai medir sua vida?”.
Ele propõe uma reflexão brilhante.
Christensen, ao encontrar seus amigos de faculdade décadas depois de sua formatura, percebeu o seguinte: todos eles, ou quase todos, eram profissionais brilhantes, super bem-sucedidos em seus campos de atuação. CEOs, fundadores de empresas, gestores de fundos multibilionários, participantes de governos. Tinha de tudo lá do alto escalão.
E a família, como vai?
“Bom, veja bem, estou indo para meu quinto casamento, até hoje não consegui ter filhos.”
Ou: “Não é um assunto que me atrai muito. Sinto muita falta dos meus dois filhos. Um deles foi para a América do Sul cuidar de um projeto social depois de minha separação da mãe. O outro vive em Londres. Não nos falamos há três anos”.
Ou, ainda: “Nunca tive muita proximidade com meus filhos. Sempre me dediquei muito ao trabalho, negligenciando um pouco a questão familiar. O tempo foi passando e agora uma reaproximação parece impossível. É tarde demais. Eles estão com suas próprias famílias e não há conexão. Eu me arrependo por isso”.
Por que, para alguns, é tão fácil construir uma carreira profissional sólida e é tão difícil constituir e manter laços familiares e pessoais fortes e duradouros?
Christensen levanta uma hipótese interessante. Nosso cérebro não encara muito bem o fato de passarmos anos e anos sem uma pequena recompensa. Precisamos de pequenos estímulos, alguns ganhos no meio da caminhada para seguir em frente.
No trabalho, se for competente, a cada um ano, dois talvez, você consegue uma promoção, um aumento, um convite para virar sócio. Um elogio do chefe, pelo menos. Aquilo lhe gera satisfação. É um combustível para seguir em frente. Há uma sensação de realização, de se estar no caminho certo, de pequenas conquistas ao longo do tempo, de um sequenciamento de “achievements” e obstáculos superados.
Não existe muito isso na família. Não há muitas pequenas recompensas na caminhada que sejam tangíveis, fora do comum, concretas e proeminentes. É um dia a dia de conquistas imperceptíveis. Na criação dos filhos, a imposição da educação, da disciplina e de frustrações gera insatisfação da parte deles. Eles se voltam contra você no curto prazo. É como se fosse o contrário do trabalho. Você vê seu filho (ou sua filha) bravo(a) e chateado(a) com você. Ele(a) vai passar vários anos assim. Se você for bem-sucedido, lá pelos seus 30 anos, 25 na melhor das hipóteses, ele(a) olhará nos seus olhos e dirá: “Obrigado(a). Você fez um grande trabalho.”
Bingo! “Um grande trabalho.” Mas foram 25 anos sem aquilo, entende? Se você coloca seu ego à frente do processo, não vai dar certo. É um grande desafio.
Talvez seja a coisa mais difícil da vida mesmo. No entanto, arrisco dizer que vale a pena. Nada pode ser mais gratificante do que isso.
Este pode ser visto como um texto sobre família e valores pessoais. E pode ser visto como um texto sobre os benefícios do investimento em longo prazo e sobre a necessidade de uma mentalidade aberta e humilde na construção patrimonial.
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