Seria Elon Musk um Eike Batista?
Será que, no mercado, quase toda euforia desmedida não acaba invariavelmente em frustração?
Claro que Elon Musk tem seus méritos. Mas há gente muito séria que acha que o culto à sua pessoa e, acima de tudo, o valor das ações da Tesla estão absolutamente exagerados.
Falo de Jim Chanos, talvez o maior short seller do mundo. “Short seller” significa que ele ganha dinheiro apostando contra as empresas, ou seja, que as cotações das suas ações vão despencar.
Nas últimas semanas, ele tem falado de Tesla o tempo todo: segundo ele, a empresa é cronicamente incapaz de dar lucros, endividada, sofre com a crescente concorrência de outras fábricas de carros elétricos e é chegada em uma “contabilidade agressiva” para enfeitar seus balanços.
A conta que ele faz é esta: Tesla vale mais de dez vezes a sua receita anual. Outras montadoras em geral são negociadas a múltiplos que oscilam entre 0,25 e 0,5 vezes a receita.
“Isso significa que existe uma percepção do mercado de que estamos tratando de um alguma tecnologia muito avançada, à frente de todo o resto. Mas a Tesla não é líder em nada empolgante, seja em bateria ou na autonomia dos carros. As baterias são da Panasonic, e as novas superbaterias de que se fala são de uma chinesa, a Calt. A Audi domina a tecnologia de autonomia nível 3, enquanto a Tesla ainda está no nível 2”, diz ele.
Explico: carros autônomos (ou seja, sem necessidade de motorista) são divididos em níveis.
Leia Também
- O nível 1 (“hands on”) é aquele que ainda necessita do motorista com as mãos no volante, com algum auxílio para estacionar ou com um dispositivo para manter determinada velocidade de cruzeiro na estrada sem precisar ficar acelerando. Seu carro talvez tenha essas coisas.
- O nível 2 (“hands off”) permite tirar as mãos do volante, mas o motorista precisa estar atento para intervir a qualquer momento. Aqui está a Tesla.
- O nível 3 (“eyes off”) permite que o motorista não precise olhar para a pista. Ou seja, pode ler ou ver um filme, mas pode ser chamado pelo veículo para assumir.
- O nível 4 (“mind off”) permite dormir ou reclinar o banco, mas o sujeito ainda precisa abastecer, eventualmente trocar o pneu. No nível 5, o carro é que não precisa de você.
“A Tesla é uma montadora, não é uma companhia de tecnologia, apesar de ainda ser vista assim”, diz o investidor. “As pessoas enxergam o que querem. O produto no qual a Tesla sempre foi extraordinária é narrativa.”
Goste Chanos ou não, porém, nos últimos meses a ação disparou. Veja o gráfico que o Financial Times fez comparando o valor de mercado da empresa com o de outras montadoras.

O jornal atribui o movimento, em boa medida, “a investidores mais jovens em plataformas como Robinhood [uma corretora digital americana moderninha], atraídos pelas credenciais verdes da empresa e pelo culto a Elon Musk”. Mais de meio milhão de clientes da Robinhood têm ações da Tesla. Esse valor dobrou nos últimos dois meses.
Em editorial, o jornal disse que o comportamento da ação mostra “muitos sinais de ser uma bolha, negociando a 1.200 vezes os lucros”.
O jornal vê um lado otimista na coisa: o mercado, na sua irracionalidade, estaria financiando o avanço de carros limpos, que não emitem gases do efeito-estufa.
Assim como uma bolha das ferrovias no século 19 fez maravilhas pelo avanço da infraestrutura no interior do Estados Unidos e a bolha da internet ajudou a financiar investimentos em fibra ótica que ficaram depois que ela estourou, o planeta ganha mesmo que os investidores de Elon Musk e startups elétricas ao seu redor venham a perder dinheiro.
Claro que a comparação com Eike Batista do título, como toda comparação, serve mais para ilustrar um argumento do que para estabelecer uma verdade: são pessoas diferentes, países diferentes, setores diferentes, destinos diferentes.
Eu acho até que o culto à personalidade no caso de Musk é maior de que o de Eike: este sempre foi um pouco brega, com aquilo de estacionar Mercedes na sala, e nunca ninguém disse que ele estava salvando o mundo (talvez o Rio de Janeiro; deu no que deu).
O ponto é que ninguém é tão gênio quanto se pinta no auge nem tão bandido quanto se diz na desgraça. No fim, a pergunta a ser feita sobre a Tesla, que remete a Eike, é esta: será que, no mercado, quase toda euforia desmedida não acaba invariavelmente em frustração?
*
Aproveito para indicar o MoneyRider, uma carteira completa de ativos no exterior. Tem Disney, tem Amazon, mas não tem Tesla.
*
Fale comigo por email: ricardo.mioto@empiricus.com.br
Twitter: @ricardomioto
O Mirassol das criptomoedas, a volta dos mercados após o Natal e outros destaques do dia
Em um ano em que os “grandes times”, como o bitcoin e o ethereum, decepcionaram, foram os “Mirassóis” que fizeram a alegria dos investidores
De Volta para o Futuro 2026: previsões, apostas e prováveis surpresas na economia, na bolsa e no dólar
Como fazer previsões é tão inevitável quanto o próprio futuro, vale a pena saber o que os principais nomes do mercado esperam para 2026
Tony Volpon: Uma economia global de opostos
De Trump ao dólar em queda, passando pela bolha da IA: veja como o ano de 2025 mexeu com os mercados e o que esperar de 2026
Esquenta dos mercados: Investidores ajustam posições antes do Natal; saiba o que esperar da semana na bolsa
A movimentação das bolsas na semana do Natal, uma reportagem especial sobre como pagar menos imposto com a previdência privada e mais
O dado que pode fazer a Vale (VALE3) brilhar nos próximos dez anos, eleições no Brasil e o que mais move seu bolso hoje
O mercado não está olhando para a exaustão das minas de minério de ferro — esse dado pode impulsionar o preço da commodity e os ganhos da mineradora
A Vale brilhou em 2025, mas se o alerta dessas mineradoras estiver certo, VALE3 pode ser um dos destaques da década
Se as projeções da Rio Tinto estiverem corretas, a virada da década pode começar a mostrar uma mudança estrutural no balanço entre oferta e demanda, e os preços do minério já parecem ter começado a precificar isso
As vantagens da holding familiar para organizar a herança, a inflação nos EUA e o que mais afeta os mercados hoje
Pagar menos impostos e dividir os bens ainda em vida são algumas vantagens de organizar o patrimônio em uma holding. E não é só para os ricaços: veja os custos, as diferenças e se faz sentido para você
Rodolfo Amstalden: De Flávio Day a Flávio Daily…
Mesmo com a rejeição elevada, muito maior que a dos pares eventuais, a candidatura de Flávio Bolsonaro tem chance concreta de seguir em frente; nem todas as candidaturas são feitas para ganhar as eleições
Veja quanto o seu banco paga de imposto, que indicadores vão mexer com a bolsa e o que mais você precisa saber hoje
Assim como as pessoas físicas, os grandes bancos também têm mecanismos para diminuir a mordida do Leão. Confira na matéria
As lições do Chile para o Brasil, ata do Copom, dados dos EUA e o que mais movimenta a bolsa hoje
Chile, assim como a Argentina, vive mudanças políticas que podem servir de sinal para o que está por vir no Brasil. Mercado aguarda ata do Banco Central e dados de emprego nos EUA
Chile vira a página — o Brasil vai ler ou rasgar o livro?
Não por acaso, ganha força a leitura de que o Chile de 2025 antecipa, em diversos aspectos, o Brasil de 2026
Felipe Miranda: Uma visão de Brasil, por Daniel Goldberg
O fundador da Lumina Capital participou de um dos episódios de ‘Hello, Brasil!’ e faz um diagnóstico da realidade brasileira
Dividendos em 2026, empresas encrencadas e agenda da semana: veja tudo que mexe com seu bolso hoje
O Seu Dinheiro traz um levantamento do enorme volume de dividendos pagos pelas empresas neste ano e diz o que esperar para os proventos em 2026
Como enterrar um projeto: você já fez a lista do que vai abandonar em 2025?
Talvez você ou sua empresa já tenham sua lista de metas para 2026. Mas você já fez a lista do que vai abandonar em 2025?
Flávio Day: veja dicas para proteger seu patrimônio com contratos de opções e escolhas de boas ações
Veja como proteger seu patrimônio com contratos de opções e com escolhas de boas empresas
Flávio Day nos lembra a importância de ter proteção e investir em boas empresas
O evento mostra que ainda não chegou a hora de colocar qualquer ação na carteira. Por enquanto, vamos apenas com aquelas empresas boas, segundo a definição de André Esteves: que vão bem em qualquer cenário
A busca pelo rendimento alto sem risco, os juros no Brasil, e o que mais move os mercados hoje
A janela para buscar retornos de 1% ao mês na renda fixa está acabando; mercado vai reagir à manutenção da Selic e à falta de indicações do Copom sobre cortes futuros de juros
Rodolfo Amstalden: E olha que ele nem estava lá, imagina se estivesse…
Entre choques externos e incertezas eleitorais, o pregão de 5 de dezembro revelou que os preços já carregavam mais política do que os investidores admitiam — e que a Bolsa pode reagir tanto a fatores invisíveis quanto a surpresas ainda por vir
A mensagem do Copom para a Selic, juros nos EUA, eleições no Brasil e o que mexe com seu bolso hoje
Investidores e analistas vão avaliar cada vírgula do comunicado do Banco Central para buscar pistas sobre o caminho da taxa básica de juros no ano que vem
Os testes da família Bolsonaro, o sonho de consumo do Magalu (MGLU3), e o que move a bolsa hoje
Veja por que a pré-candidatura de Flávio Bolsonaro à presidência derrubou os mercados; Magazine Luiza inaugura megaloja para turbinar suas receitas