Em um ano, o Ibovespa foi da euforia com os 100 mil pontos ao pânico com o coronavírus
Em meio à percepção de que não há como evitar que a economia global seja severamente impactada pelo surto de coronavírus, o Ibovespa despencou mais de 10% e voltou ao nível dos 66 mil pontos

Em 18 de março de 2019, o Ibovespa cruzou pela primeira vez a linha dos 100 mil pontos. Ok, a alegria durou pouco: em questão de minutos, o índice perdeu força e voltou aos dois dígitos — ainda levaria três meses para conseguir terminar um pregão na tão sonhada marca.
De qualquer maneira, essa sessão ficou marcada na História: depois de anos de expectativa e de projeções frustradas, a bolsa brasileira finalmente indicava que conseguiria entrar num ciclo de alta, buscando níveis cada vez mais elevados.
Curiosamente, 18 de março de 2019 também foi o meu primeiro dia na redação do Seu Dinheiro — a Julia Wiltgen meu salvou da fogueira e assumiu a cobertura de mercados, já que eu estava completamente perdido com a nova rotina.
Pois hoje, 18 de março de 2020, eu completo um ano de casa. E se é verdade que, nos últimos 365 dias, o Ibovespa foi muito além dos 100 mil pontos — chegou aos 119.527,63 pontos na máxima histórica, anotada em 23 de janeiro desde ano —, também é verdade que o primeiro aniversário dos três dígitos não está sendo exatamente festivo.
Isso porque as previsões de Ibovespa a 150 mil ou 200 mil pontos, que há tão pouco tempo pareciam estar ao alcance dos dedos, agora parecem um sonho distante. Ao fim da sessão desta quarta-feira, o índice marcava 66.894,95 pontos, em queda firme de 10,35%.
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É a primeira vez desde 2018 que o Ibovespa termina um pregão abaixo dos 70 mil pontos. Mais que isso: é o menor nível de fechamento desde 3 de agosto de 2017, quando o índice estava nos 66.777,00 pontos.

Com o desempenho desta quarta-feira, o Ibovespa agora acumula perdas de 19,09% somente nesta semana — em março, a baixa já chega a 35,78% e, desde o começo do ano, as perdas somam 42,16%.
E engana-se quem pensa que os mercados brasileiros estão isolados nessa derrocada. Na Europa, as principais bolsas recuaram mais de 4%; nos Estados Unidos, o Dow Jones (-6,30%), o S&P 500 (-4,82%) e o Nasdaq (-4,70%) também tiveram perdas expressivas.
- Eu gravei um vídeo para comentar o novo dia de caos nos mercados globais. Veja abaixo:
Tudo isso por causa do agravamento da crise do coronavírus. Com a doença se espalhando num ritmo elevado pelo mundo e colocando países inteiros em quarentena, é cada vez maior a percepção de que será impossível impedir que a economia global sofra impactos massivos — o que provoca pânico entre os investidores.
No câmbio, a reação foi semelhante: o dólar à vista fechou em forte alta de 3,74%, a R$ 5,1960 — um novo recorde nominal de encerramento. A sessão foi marcada pela valorização da moeda americana em escala mundial, em meio à busca desenfreada por ativos mais seguros.
Enorme pessimismo
Por mais que os governos tenham assumidos medidas mais enérgicas para conter o avanço do coronavírus e limitar os impactos econômicos da pandemia, notícias preocupantes no front das empresas começam a ecoar. Na Europa e nos EUA, as montadoras de automóveis já começam a indicar uma paralisação ao menos parcial de suas atividades na Europa.
Outro setor fortemente abalado é o de transporte aéreo, com as principais companhias do mundo mostrando grande preocupação quanto à sustentabilidade de suas operações no médio prazo caso o cenário de forte contração da demanda e restrições aéreas persista.
Assim, em meio aos sinais desanimadores, muitos já apostam que os pacotes de estímulo acionados pelos governos não serão suficientes para proteger a economia mundial — o que eleva a aversão ao risco por parte dos investidores.
E, de fato, os principais bancos e casas de análise já estão trabalhando com um cenário de recessão econômica no Brasil e no mundo nos próximos trimestres.
O Credit Suisse, por exemplo, cortou sua projeção de crescimento do PIB do país para zero em 2020; o Morgan Stanley agora tem como cenário-base uma recessão global neste ano; e o UBS projeta recuo na economia brasileira no primeiro semestre.
No mundo todo, já são mais de 8,7 mil mortes e cerca de 214 mil pessoas contaminadas pelo vírus — no Brasil, há mais de 300 casos e três óbitos confirmados por causa da doença.
[captacao]
Preocupação doméstica
Por aqui, a falta de sintonia entre o presidente Jair Bolsonaro e os demais poderes no combate à doença também causa desconforto entre os investidores. A percepção é a de que Bolsonaro está se isolando politicamente e perdendo apoio popular — ontem, foram realizados 'panelaços' contra o presidente em São Paulo e no Rio de Janeiro.
O anúncio conjunto entre o presidente e diversos ministros, na tarde desta quarta-feira, não serviu para injetar ânimo nos investidores. De máscara, o ministro Paulo Guedes comunicou o lançamento de um auxílio de R$ 15 bilhões a trabalhadores informais, durante três meses, via Medida Provisória.
Igualando recordes
Considerando todo esse panorama, o Ibovespa acentuou o ritmo de perdas no início da tarde, batendo os 10% de baixa pouco depois das 13h — e, com isso, acionou pela sexta vez em março o circuit breaker.
Com a nova interrupção, a atual crise do coronavírus igualou uma marca pouco animadora: em 2008, em meio à quebra do Lehman Brothers e ao caos no sistema financeiro, o botão do pânico da bolsa também foi pressionado seis vezes.

E agora, Copom?
No Brasil, também exerceu influência sobre as operações a decisão de juros do Copom, a ser divulgada na noite de hoje. O cenário-base do mercado é de um corte na Selic, com magnitude ainda indefinida, por mais que existam dúvidas quanto à eficácia da medida.
Fato é que, se concretizada, a redução na Selic tende a gerar ainda mais pressão no mercado de câmbio — em linhas gerais, cortes nas taxas de juros desencadeiam um movimento de alta no dólar, por fatores técnicos ligados ao diferencial nas taxas em relação aos EUA.
Assim, já dando como certa a baixa na Selic, os mercados se antecipam e jogam o dólar para o alto, renovando os recordes intradiários. Durante a manhã, o BC promoveu novas atuações no mercado de moedas, mas a medida surtiu pouco efeito para acalmar o câmbio.
No mercado de juros futuros, o dia foi marcado por uma pressão positiva sobre os DIs. Mas, mesmo com essa correção, os vencimentos mais curtos mostram que os investidores seguem apostando num corte da Selic:
- Janeiro/2021: de 3,59% para 4,00%;
- Janeiro/2022: de 4,45% para 5,81%;
- Janeiro/2023: de 5,50% para 7,03%;
- Janeiro/2025: de 6,72% para 8,02%;
- Janeiro/2027: de 7,38% para 8,55%.
Quase 100% vermelho
Em meio ao forte pessimismo, apenas Carrefour Brasil ON (CRFB3) e BB Seguridade ON (BBSE3) conseguiram se sustentar no campo positivo entre todas as ações do Ibovespa, com ganhos de 1,97% e 0,67%, respectivamente.
Na ponta negativa, as ações de companhias aéreas continuam reportando baixas massivas — caso de Azul PN (AZUL4) e Gol PN (GOLL4). Varejistas de eleroeletrônicos e outros itens não-essenciais e operadoras de shoppings também despontam entre as maiores perdas:
| CÓDIGO | NOME | PREÇO (R$) | VARIAÇÃO |
| SMLS3 | Smiles ON | 10,30 | -37,80% |
| CVCB3 | CVC ON | 6,49 | -34,77% |
| AZUL4 | Azul PN | 10,35 | -32,04% |
| VVAR3 | Via Varejo ON | 4,82 | -31,53% |
| GOLL4 | Gol PN | 5,60 | -28,02% |
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