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Com o ambiente externo cada vez mais tenso e com o cenário político doméstico se deteriorando, o circuit breaker da bolsa foi acionado quatro vezes na semana e o Ibovesa desabou ao nível de 82 mil pontos; o dólar renovou as máximas e fechou a R$ 4,81
Mike Tyson, campeão dos pesos-pesados em 1996, tinha uma luta marcada contra um de seus maiores rivais, Evander Holyfield — e grande parte da imprensa e dos fãs de boxe davam um ligeiro favoritismo ao desafiante. Questionado a respeito das possíveis estratégias do oponente, Tyson foi breve:
"Todo mundo tem um plano ótimo até levar um soco na cara"
O Ibovespa, as bolsas globais, o dólar à vista e os mercados de commodities — todos tinham um plano excelente. E todos foram nocauteados sem piedade nesta semana.
No caso do mercado acionário brasileiro, não adiantou contar até 10: afinal, desde segunda-feira (9), a bolsa precisou acionar o 'circuit breaker' — o mecanismo que interrompe o pregão ao se atingir uma queda de 10% — em quatro ocasiões diferentes. O botão do pânico não era pressionado desde o 'Joesley Day', em 2017.
Quando analisamos a luta round por round, vemos que, em alguns momentos, o Ibovespa até tentou reagir. Mas os bons momentos, nem de longe, serviram para anular o período em que o índice ficou nas cordas:
Ao fim do duelo, o Ibovespa marcava 82.677,91 pontos, acumulando uma expressiva queda de 15,63% somente nesta semana — desde o início do ano, a perda já chega a 28,51%.
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E, lá fora, a situação não foi muito diferente: nos Estados Unidos, o Dow Jones fechou a semana com uma baixa acumulada de 10,35%, o S&P 500 caiu 8,79% e o Nasdaq desabou 8,17%; na Europa e na Ásia, as principais praças também amargaram quedas expressivas nos últimos dias.
No mercado de commodities, o petróleo desabou e, nas negociações de moedas, o dólar disparou em escala global — por aqui, a moeda à vista agora vale R$ 4,8163 —, num movimento de busca de proteção por parte dos investidores. A percepção de risco disparou e o pânico tomou conta dos investidores, marcando uma das semanas mais turbulentas para o universo financeiro nas últimas décadas.
O primeiro golpe forte nos mercados veio do surto de coronavírus: com a doença se espalhando num ritmo cada vez maior pelo Ocidente — e forçando quarentenas e cancelamentos de eventos no mundo todo — é quase impossível imaginar que a economia global não vá ser impactada de maneira severa.
Voltemos à luta entre Tyson e Holyfield. Se ela estivesse marcada para os próximos dias, provavelmente seria cancelada ou adiada — na melhor das hipóteses, ocorreria numa arena fechada ao público. Restaria a você, fã de boxe, acompanhar o duelo pela TV.
Mas, se você estivesse na Europa ou nos Estados Unidos, não poderia juntar os amigos e ir a um bar assistir à luta, já que o medo de transmissão de coronavírus tem afastado as pessoas de lugares potencialmente cheios. Assim, o jeito seria ficar em casa...
...desde que você tivesse um estoque de petiscos em casa, já que, tanto na Europa quanto nos EUA, há relatos de problemas de abastecimento nos supermercados — com medo do coronavírus, muitas pessoas têm corrido para estocar mantimentos em casa.
Conto toda essa história apenas para ilustrar os potenciais danos que o surto de coronavírus pode trazer à economia global. Ao forçar uma quarentena em grandes proporções, a doença paralisa a roda da economia — e, com o vírus continuando a avançar pelo mundo, não se sabe por quanto tempo essa letargia poderá durar.
Até o momento, já são mais de 5 mil mortos e cerca de 140 mil pessoas contaminadas no mundo todo, com um forte crescimento nas ocorrências na Europa — especialmente na Itália — e nos Estados Unidos. Estatísticas que, por si só, já seriam capazes de gerar pânico.
O que piorou ainda mais o sentimento dos investidores, no entanto, foi a percepção de que as autoridades globais não estariam agindo de maneira suficientemente enfática para conter o avanço do vírus. Ao longo da semana, o mercado apostou que os BCs e governos anunciariam diversas medidas e pacotes de estímulo econômico — uma expectativa que foi apenas parcialmente atendida.
Ok, o Federal Reserve deu início a um programa de injeção de liquidez de até US$ 1,5 trilhão. Ok, os BCs do Japão e de diversos países europeus anunciaram cortes de juros e medidas extraordinárias. Mas, mesmo assim, ficou uma certa sensação de vazio no ar.
O que os investidores não contavam era com a piora do ambiente a partir das declarações das autoridades políticas — e o presidente Donald Trump fez exatamente isso, ao suspender todas as viagens entre EUA e Europa, sob o pretexto de contenção do avanço da doença.
Uma medida drástica e que afeta diretamente o comércio mundial — e coloca as companhias aéreas na berlinda, uma vez que a rota é importantíssima para empresas como Delta, American Airlines, United e Air France, entre outras.
Além de toda a tensão ligada ao coronavírus, os mercados globais ainda receberam um segundo golpe forte: a crise no mercado de petróleo, com uma queda de braço entre Arábia Saudita e Rússia.
Em resumo: os sauditas queriam cortar a produção da commodity, de modo a se adequar a um cenário de menor demanda por causa do coronavírus; os russos não concordaram com o plano, defendendo a manutenção dos níveis atuais — o que gerou uma crise dentro da Opep.
Sem um acordo, os sauditas tomaram uma atitude radical: decidiram conceder enormes descontos nos preços do próprio petróleo vendido no exterior, de modo a derrubar o valor da commodity no mundo todo. Por mais que a medida vá contra os interesses do país, ela também coloca intensa pressão sobre os russos — a ponto de, em teoria, puxá-los de volta à mesa de negociações.
Como resultado, o barril do petróleo desabou para perto do nível de US$ 30 — em abril de 2019, as cotações estavam acima de US$ 70. Como resultado desse derretimento — e da tensão internacional — as bolsas desabaram.
No Brasil, o efeito foi ainda pior, uma vez que o petróleo mais barato afetou diretamente a Petrobras, ação que tem enorme peso na composição do Ibovespa.
Até o momento, não há qualquer sinal de que a Arábia Saudita e a Rússia conseguirão chegar a um meio termo nos próximos dias — o que mantém os mercados sob alerta.
E, como se não bastasse todo o ambiente terrível visto no exterior, o Brasil também teve fatores de estresse para os mercados. Em Brasília, governo e Congresso continuaram entrando em atrito — e o resultado foi um golpe feio no ajuste fiscal.
Com as relações cada vez mais deterioradas entre os poderes, o Congresso derrubou o veto do presidente Jair Bolsonaro à elevação do piso do BPC. Como resultado, será gerado um gasto adicional da ordem de R$ 20 bilhões anuais ao Orçamento.
Uma medida que, evidentemente, pressiona o teto de gastos públicos e traz enorme dano ao lado fiscal — além de gerar ainda mais preocupação quanto ao andamento das reformas e demais pautas econômicas.
As preocupações fiscais afetaram especialmente o mercado de câmbio, gerando intensa pressão ao dólar à vista — na quinta-feira, dia de maior tensão, a moeda americana chegou a bater o nível de R$ 5,02, um novo recorde em termos intradiários.
E, por mais que o dólar tenha se afastado desses níveis, ele ainda terminou a semana cotado a R$ 4,8163, uma nova máxima de encerramento — na semana, a divisa acumulou ganhos de 3,94% e, no ano, já sobe 20,05%.
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