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2019-05-19T16:02:01-03:00
Eduardo Campos
Eduardo Campos
Jornalista formado pela Universidade Metodista de São Paulo e Master In Business Economics (Ceabe) pela FGV. Cobre mercado financeiro desde 2003, com passagens pelo InvestNews/Gazeta Mercantil e Valor Econômico cobrindo mercados de juros, câmbio e bolsa de valores. Há 6 anos em Brasília, cobre Banco Central e Ministério da Fazenda.
Seu Dinheiro no Domingo

A semana do tsunami

Semana foi pródiga em eventos com elevado poder de destruição e terminou com uma enigmática mensagem distribuída por Bolsonaro

19 de maio de 2019
14:10 - atualizado às 16:02
Jair Bolsonaro durante visita aos Estados Unidos
Jair Bolsonaro - Imagem: Marcos Corrêa/Presidência da República

Na sexta-feira, dia 10 de maio, o presidente Jair Bolsonaro fez uma profecia: que teríamos um tsunami na semana que passou. Até agora não se sabe ao certo a que ele se referia, pois as ondas com elevado potencial de destruição foram muitas, como comentamos já na terça-feira. O que é certo é que ele acertou.

Fazendo uma breve lista, tivemos novas acusações contra familiares do presidente envolvendo movimentações financeiras atípicas. Uma rebelião do Congresso, com convocação do ministro da Educação, Abraham Weintraub, e nenhuma votação relevante.

Além disso, o governo ouviu pela primeira vez o rugido das ruas, na quarta-feira. E se não bastasse, a guerra comercial entre Estados Unidos e China que colocou os mercados em alerta.

Para fechar a semana, o presidente compartilha um texto anônimo em grupos de “Whatsapp”, falando em um país disfuncional, um governo que será desidratado até morrer de inanição com vitória das corporações. Também há menção à ruptura institucional e o referido texto termina com um recado aos mercados “Infelizmente o diagnóstico racional é claro: ‘Sell’” (venda). O autor apareceu depois, mas pouco importa.

Ao longo da semana mantive diversas conversas com amigos de dentro e de fora do mercado e a percepção foi azedando dia após dia. Amigo bem-humorado de corretora resumiu a questão da seguinte forma: “E aí, Edu, comprado ou vendido em Bolsonaro? Só se fala em impeachment, Dilma 2, Collor, Jânio.. Não tá fácil”.

Com outro amigo, ex-tesoureiro, com passagem por bancos nacionais e estrangeiros, a conversa foi evoluindo da seguinte maneira.

Quarta-feira

Amigo – Azedou rápido né?

Eu – Cara, tá estranho, muito boato no mercado, de mais denúncias contra o Bolsonaro, de fundo liquidando posição em ações. Outro fundo que foi “stopado” no dólar.

Amigo – É, o rumo desse governo não está legal. Minha teoria, e você sabe faz tempo, é que a economia tem que andar.

Eu – Mas o que poderia ser feito de imediato? Tudo está amarrado à reforma da Previdência, ao aceno de previsibilidade fiscal.

Amigo – Um quantitative easing (como feito nos EUA e Europa, com o BC injetando liquidez no mercado público e privado via compra de ativos). Prorrogação de dívidas, limpeza do nome de devedores, aceno de mais reformas...

Eu – Lembra que no começo de março falei da “Angústia do Capitão”? Que a reforma ia demorar mais que o previsto e a economia poderia desandar?

Amigo – Lembro, claro. Mas o problema é que até agora não vejo nenhuma estratégia. Só bagunça, só demora. Esse governo está mostrando sua cara: populista. Mas populismo só funciona com economia crescendo. (coincidência ou não, em outro grupo de amigos de mercado, li a mesma avaliação)

Mais tarde, na mesma quarta-feira, compartilho com ele texto sobre um tuíte do Carlos Bolsonaro, falando que Rodrigo Maia e o Centrão querem o impeachment de Bolsonaro, e comento que esse quadro de desarticulação política fortalecia um personagem só, o próprio Rodrigo Maia, que conta com apoio dos parlamentares.

Amigo – Eu vi isso. Família imperial. E ele não vai ceifar os filhos.

Eu – Sim, Bolsonaro falou algo interessante quando foi na Luciana Gimenez. Perguntado se também falava por meio dos tuítes e redes dos filhos, Bolsonaro falou “nem sempre”.

Amigo – A situação está ficando clara para empresários e sociedade. O capitão não vai entregar nada.

Eu – Mas culpa do Bolsonaro e do Paulo Guedes ou do Congresso?

Amigo – Acho que o Bolsonaro vai colocar a culpa no P.G.

Eu – Mas Guedes e Sergio Moro são bastiões do governo....

Amigo – Esse é o dilema. Estou achando que o mercado vai travar novamente. Muita indecisão, depois falamos.

Quinta-feira

Na quinta-feira, a conversa começa com a notícia de que o líder do PSL quer convocar o ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, a prestar esclarecimento sobre o recuo no contingenciamento da educação, que foi desmentido pelo governo. Depois continua assim:

Amigo – Alguma notícia por aí? Mercado piorou muito. Teve notícia de Vale, mas dólar e juros sobem também.

Eu – Rapaz, não vi nada de diferente. Temos o Bolsonaro culpando a mídia e as esquerdas pelos protestos, mas isso não é novo. Temos também o Paulo Guedes falando em aprovar as reformas em 60 dias. Virou animador de torcida... Sinal de desespero?

Amigo – Sim, hahaha

Sexta-feira

Na sexta, o assunto foi justamente o texto apócrifo postado por Bolsonaro, que tornou ainda mais nebulosa uma semana já difícil de se entender.

Amigo – Para ele soltar um texto desse tipo, já sabe que estão conspirando contra ele. Ele tá sentido que alguém estaria armando para tirar ele. Lembrei de uma coisa, dizem que o Jânio Quadros, depois da renúncia, quando chegou ao aeroporto, ficava olhando pela janela e perguntando: “cadê o povo?” Ele achava que o povo estaria apoiando ele, mas não tinha povo. O que o Bolsonaro está fazendo é mais ou menos isso, quer fazer o povo o apoiar, mas não vai rolar. Você não pode chegar no poder público e fazer 100% da sua vontade. O dono de uma loja pode fazer isso, mas no poder público as coisas são diferentes. A situação está preocupante.

Eu – Pois é. Está difícil de entender. Você falou no Jânio e vi o pessoal do “O Antagonista” relacionar o texto de autor desconhecido à carta de renúncia dele. Muito estranho, mas só se fala de repetir Dilma, Collor, Jânio. Pô, quatro meses de governo?

Amigo – É a língua geral do Brasil antigo, aquela mistura de tupi, guarani, português. No fundo está todo mundo falando a mesma coisa, possibilidade de queda do presidente. Fico pensando: até concordo com a história de que ele ganhou a eleição sozinho, com o discurso de “sou honesto, correto, colocar político na cadeira, reduzir o Estado”. Mas com a eleição ganha, ele deveria distensionar o ambiente, as relações. Mas não, ele foi lá e colocou mais lenha na fogueira. Não agiu como estadista. Não gosto do Maia, mas acho até que ele está tentando ajudar, mesmo que pensando em poder e benefício próprio. Mas os filhos dele vão lá e chamam o Maia de um monte de coisa.

Eu – Sim, de acordo. Mas faz um tempo, também falamos dessa possibilidade de ele romper com tudo e tentar se fiar nas ruas.

Amigo – Acho que o povo não vai para rua ao lado dele. Tem uma parcela do eleitorado que votou nele como negação do PT. Eu mesmo não votaria nesse cara para nada. Mas para mim, se o PT ganhasse, o Brasil estava quebrado. O mercado ia dar uma mega estressada. Além disso, não queria o revanchismo que aconteceria. Além disso, a bandeira de reduzir o tamanho do Estado é algo que sempre achei que precisava acontecer. Mas ele abandonou esses motivos pelos quais votei nele. Sabe os caras que votaram no Paulo Guedes e não nele? É desses caras que Bolsonaro está perdendo o apoio.

Eu – Sim, comentei com você isso, que o Bolsonaro teria de ampliar o arco de comunicação para falar com mais gente do que a base mais fiel. Mas com relação ao Paulo Guedes, o que acontece?

Amigo – Tem uma certa decepção, ele não consegue entregar e não tem proposta. Até um ex-ministro que encontrei outro dia me falou que as ideias do P.G. estavam um pouco ultrapassadas. Fora que as pessoas que elegeram esse governo, elegeram com senso de urgência, queriam uma mudança urgente e esse sentimento de urgência não está sendo levado em consideração.

Eu – Sim, o senso de urgência era e é enorme. Mas no mercado, o que está acontecendo?

Amigo – O mercado ainda está com síndrome de Alckmin. Lembra que na eleição o mercado ficou meses achando que o Alckmin ia subir nas pesquisas e levar? Então, isso é uma síndrome de Alckmin, com o mercado achando que tem saída, tem como contornar. Mas você acha que esse cara vai mudar de postura? Eu acho que ele não vai mudar, por isso dessas conversas de se pensar em outra saída, que é tirar ele.

Eu – Mas achas mesmo que chegamos em um ponto que não tem mais solução?

Amigo – Sempre tem solução, mas realmente não sei se ele está disposto a fazer isso, a distensionar o processo. Fazer um pacto – algo que ele acha que é conchavo. Mas é muito preocupante. O cara manda um texto desses? Falando que o país é ingovernável? Para o investidor, para o cara que está lá fora é muito ruim. Que coisa grotesca.

A semana terminou com essa incógnita de qual será a postura do presidente, que teve outros momentos de desentendimento, mas buscou nova aproximação com a política e os políticos.

Como já disse outras vezes, a lógica da política é o poder e isso é inescapável. É sim um jogo sujo, mas quanto menos a política for idealizada, mais fácil para se compreender o que se passa aqui em Brasília.

A negociação, a barganha e o repudiado “toma lá, dá cá” não são uma exclusividade brasileira. O que muda de país a país é o grau em que isso ocorre e como esses instrumentos são utilizados para se atingir algum objetivo.

Esses são meios de fazer política e não o fim da política. Bolsonaro vem ensaiando rupturas e aproximações com a política como ela é. Agora é aguardar os tsunamis desta semana.

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