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O texto-base da reforma da Previdência foi aprovado pela comissão especial da Câmara. E a animação tomou conta dos mercados brasileiros, levando o Ibovespa a uma nova máxima e derrubando o dólar à vista para abaixo dos R$ 3,80.
Há tempos, os mercados brasileiros usam as coordenadas da reforma da Previdência para navegar. Só que o sinal de GPS andava oscilando, com muitas interferências em Brasília. Isso não impediu que o Ibovespa continuasse avançando, mas essas instabilidades na rede traziam alguma cautela aos agentes financeiros.
Nesta quinta-feira (4), contudo, os ruídos e distorções diminuíram bastante. Afinal, a comissão especial da Câmara finalmente aprovou o texto-base da reforma, abrindo caminho para que o texto seja discutido no plenário da Casa. E, com o sinal nítido, o GPS levou o Ibovespa a um endereço inédito.
Ao fim da sessão, o principal índice da bolsa brasileira subiu 1,56% aos 103.636,17 pontos — é a primeira vez na história que o Ibovespa termina um pregão acima do nível dos 103 mil pontos. Na máxima do dia, chegou a bater os 104.021, 60 pontos (+1,94%).
O dólar à vista pegou carona: fechou em queda de 0,70%, a R$ 3,7994 — a moeda americana não aparecia abaixo da marca de R$ 3,80 desde 20 de março. Na mínima intradiária, a divisa foi além e tocou os R$ 3,7853 (-1,07%).
Essa onda de bom humor foi vista desde o início do dia, com os mercados mostrando amplo otimismo em relação às movimentações em Brasília. Na noite anterior, após horas de sessão, o relator da reforma na comissão especial, deputado Samuel Moreira, conseguiu ler uma nova versão de seu parecer, abrindo espaço para que o documento fosse votado pelo colegiado nesta quinta-feira.
Em meio a essa expectativa, tanto o Ibovespa quanto o dólar à vista já mostravam uma tendência de forte alívio desde os primeiros minutos da sessão. E os prognósticos dos mercados foram confirmados por volta de 14h30, quando terminou a votação no colegiado — e foi dada luz verde para o texto de Moreira.
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Ao todo, 36 deputados votaram a favor do parecer, enquanto outros 13 mostraram-se contrários — eram necessários 25 votos para que o documento fosse aprovado. No entanto, os trabalhos da comissão ainda não acabaram: às 17h, horário de fechamento dos mercados, os parlamentares continuavam reunidos para analisar os destaques, ou seja, os pedidos de modificação no texto.
O mercado mostrava-se ansioso em relação à votação porque o cronograma para a tramitação da reforma está bastante apertado. Afinal, o Congresso entrará em recesso no dia 18, e o governo ainda pretende obter sinal verde para a proposta no plenário da Câmara, em dois turnos, antes dessa data limite.
Caso a empreitada não seja bem sucedida, a tramitação ficará parada até agosto — e há o temor de que, nesse meio tempo, o cenário político possa sofrer alguma alteração que dificulte o avanço do texto quando os trabalhos forem retomados.
"A expectativa é de que os trabalhos da comissão especial sejam encerrados rapidamente para que as discussões no plenário da Câmara comecem logo", diz Luis Sales, analista da Guide Investimentos. "A comissão vem se arrastando, com muitas negociações internas".
Para Sales, o otimismo do mercado está relacionado à percepção de que, após várias idas e vindas em Brasília em relação à inclusão ou não de Estados e municípios na pauta — além de outros pontos de atrito —, há um certo consenso em relação ao teor da reforma.
Esse cenário, de acordo com o analista da Guide, tende a acelerar a tramitação daqui para frente. Assim, não está descartada a possibilidade de aprovação da Previdência no plenário da Câmara antes do recesso do Congresso, embora o tempo seja curto.
O ministro da Economia, Paulo Guedes, também mostrou confiança em relação ao cumprimento do cronograma de tramitação, dizendo acreditar que a Câmara dará sinal verde para a reforma já na semana que vem. "Aprovação é comprovação de que maioria quer botar o Congresso para funcionar", disse Guedes, em evento em São Paulo.
O mercado de juros também refletiu esse clima de animação, com os DIs fechando em queda. Na ponta curta da curva de juros, os DIs para janeiro de 2020 caíram de 5,96% para 5,87%, e os para janeiro de 2021 recuaram de 5,78% para 5,72%.
No vértice longo, os com vencimento em janeiro de 2023 terminaram a sessão em baixa de 6,55% para 6,48%, e os para janeiro de 2025 foram de 7,03% para 6,98%.
A tramitação da Previdência influencia o comportamento das curvas de juros porque o Banco Central (BC) já sinalizou que um movimento de corte da Selic está associado a um avanço significativo da agenda de reformas. Assim, o mercado acredita que, caso o texto seja aprovado no plenário da Câmara antes do recesso, o BC poderá promover ajustes negativos na taxa básica de juros já na próxima reunião do Copom, em 30 e 31 de julho.
Os mercados americanos estiveram fechados nesta quinta-feira — 4 de julho é feriado por lá, em comemoração à independência dos Estados Unidos. Com isso, os fatores locais foram determinantes para o comportamento dos ativos domésticos.
Na Europa, contudo, o dia foi normal. Por lá, as principais praças tiveram desempenhos ligeiramente positivos — a exceção foi o FTSE 100, em Londres, que teve queda de 0,08%. Ainda no velho continente, o índice pan-europeu Stoxx 600 fechou em alta de 0,09%.
As ações de companhias aéreas seguem na dianteira do Ibovespa, dando continuidade ao movimento de ontem. No momento, os papéis PN da Gol (GOLL4) subiram 7,31%, enquanto os ativos PN da Azul (AZUL4) tiveram ganho de 5,87%.
Diversos fatores criam as condições favoráveis para as ações do setor. O dólar abaixo dos R$ 3,80, somado à queda do petróleo no exterior — o Brent recuou 0,81% — ajudam as empresas, uma vez que essas duas variáveis afetam diretamente a linha de custos das companhias aéreas.
Além disso, o mercado segue repercutindo um relatório publicado ontem pelo Goldman Sachs — a instituição analisa que a Gol tende a ser a maior beneficiada com o encerramento das operações da Avianca Brasil e, com isso, elevou a recomendação para os papéis da empresa para compra. A Azul permaneceu com recomendação neutra.
As blue chips do Ibovespa — isto é, os papéis de maior liquidez e peso relevante na composição do índice — tiveram um dia positivo, o que deu forças à bolsa brasileira como um todo. E tudo isso por causa do otimismo dos mercados em relação à reforma da Previdência.
Apesar das perdas do petróleo, as ações ON da Petrobras fecharam em alta de 1,31% — os ativos PN (PETR4) tiveram ganho de 0,96%. Tom semelhante foi visto entre as siderúrgicas e mineradoras: Vale ON (VALE3) avançou 0,74%, CSN ON (CSNA3) subiu 0,42%, Gerdau PN (GGBR4) valorizou 2,82% e Usiminas PNA teve alta de 0,11%.
O destaque positivo, contudo, ficou com o setor bancário. Itaú Unibanco PN (ITUB4), Bradesco PN (BBDC4), Bradesco ON (BBDC3), Banco do Brasil ON (BBAS3) e as units do Santander Brasil (SANB11) fecharam o pregão com ganhos de 1,15%, 2,17%, 2,23%, 1,62% e 2,54%, nesta ordem.
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