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Em entrevista ao Seu Dinheiro, gestores do ASA explicam por que acreditam que produtos temáticos podem recolocar a categoria nos trilhos

O investidor já não compra tão facilmente a velha promessa do gestor capaz de ganhar dinheiro em qualquer cenário — e isso está obrigando a indústria de fundos multimercados a se reinventar.
Durante anos, esses fundos foram vendidos como uma espécie de "solução universal": equipes de especialistas capazes de navegar crises, eleições, juros, câmbio e bolsa quase como uma caixa-preta. Bastava confiar que, no fim, os retornos apareceriam.
Só que essa relação de confiança começou a se desgastar. Depois de anos de resgates bilionários, desempenho irregular e estratégias cada vez mais difíceis de explicar, muitos investidores passaram a questionar se ainda fazia sentido delegar tantas decisões a um gestor "faz tudo".
É justamente nessa leitura que o ASA Investments baseia sua estratégia. Em vez de oferecer um único multimercado com mandato amplo, a gestora passou a "fatiar" suas apostas em fundos temáticos, cada um dedicado a um evento ou classe específica de oportunidades.
Em entrevista ao Seu Dinheiro, Leonardo Costa, economista da casa, e Felipe Balassiano, gestor de estratégias multimercados, revelam por que a especialização pode ser o caminho das gestoras multimercados para reconquistar a confiança dos investidores.
Se a tese do ASA está correta, o problema dos multimercados não foi apenas uma sequência de resultados decepcionantes. Foi uma crise de narrativa.
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Na avaliação de Balassiano, que cuida das estratégias multimercados da gestora, boa parte dos investidores deixou de entender exatamente o que estava comprando.

Em muitos casos, os fundos passaram a reunir dezenas de posições espalhadas por diferentes mercados, tornando difícil explicar por que ganhavam — ou perdiam — dinheiro.
"O ser humano quer mágica, quer saber que os caras são mágicos e têm uma equipe fenomenal que sempre gera dinheiro. Só que isso não é verdade; é muito trabalho e o mercado muda muito", afirma.
Foi justamente dessa constatação que nasceu a decisão de "fatiar" as estratégias.
Em vez de concentrar diferentes apostas dentro de um único mandato amplo, o ASA passou a criar fundos dedicados a temas específicos, permitindo que o investidor saiba exatamente qual risco está assumindo.
O principal exemplo dessa filosofia é o fundo Zafra, especializado justamente em eventos eleitorais ao redor do mundo.
Em vez de acompanhar permanentemente um mercado ou uma classe de ativos, o fundo procura capturar oportunidades criadas por mudanças políticas relevantes, entrando e saindo das posições em janelas relativamente curtas para reduzir o risco residual.
Na avaliação da gestora, quanto mais objetiva é a tese de investimento, maior tende a ser a confiança do investidor.
Até agora, os números parecem reforçar essa percepção. Com patrimônio de R$ 28 milhões, o Zafra encerrou o primeiro semestre de 2026 com rentabilidade de 10,15%, equivalente a 148% do CDI.
Segundo o ASA, o desempenho foi sustentado por uma taxa de acerto de 86%: dos 36 eventos eleitorais operados desde 2023, 31 geraram contribuição positiva para o fundo.
Ao Seu Dinheiro, Balassiano afirmou que o objetivo da gestora é lançar outros produtos temáticos diferentes nos próximos meses.
"É muito estudo de estratégias e subestratégias que já rodam dentro do multimercado, onde tentamos combinar uma ou duas e dar um produto. A ideia é ter uma fábrica de estratégias maturando. Temas de event-driven de ações, eventos de crédito e a parte de eleição", disse o gestor.
Enquanto o fundo eleitoral do ASA percorre o mundo em busca de oportunidades, a avaliação sobre o Brasil continua marcada pela cautela.
Costa lembra que boa parte do mercado iniciou 2026 esperando um ciclo muito mais intenso de cortes na Selic. Esse cenário, porém, ficou para trás — hoje, o ASA trabalha com uma taxa terminal de 14,25% ao ano.
A visão mais conservadora reflete um ambiente internacional mais turbulento, inflação ainda resistente e novos riscos para os preços dos alimentos provocados pelo retorno do El Niño.
Mas, para o economista, nenhum desses fatores supera a questão fiscal. Na avaliação dele, o governo continua sustentando um crescimento próximo de 2% por meio da expansão do consumo e do crédito, enquanto as expectativas de inflação seguem desancoradas.

Segundo o ASA, uma economia caminhando para uma dívida entre 90% e 100% do PIB, convivendo com juros reais próximos de 8%, passa a carregar uma vulnerabilidade crescente.
Na visão dele, caso o crescimento global desacelere de forma mais intensa, justamente o Brasil — hoje um dos países mais endividados entre seus pares emergentes — tende a sentir os impactos antes dos demais.
"Quando a maré baixa, é que você vê quem está nadando sem roupa”, disse Costa, em referência à fala do megainvestidor Warren Buffett. “Esse momento pode chegar daqui a um ano ou daqui a 10 anos, só que a realidade brasileira é muito pior em relação aos demais pares. Do ponto de vista global, o Brasil seria um dos mais penalizados", acrescentou o economista.
Quando o assunto é a eleição brasileira, o ASA evita construir cenários muito arrojados. Para Costa, o mercado encara 2026 como uma disputa essencialmente binária.
De um lado, um projeto que tende a manter maior foco na arrecadação. Do outro, uma eventual oposição que poderia sinalizar maior disciplina fiscal.
"Não acredito que ninguém vá debater ajuste fiscal no horário nobre da TV, mas isso precisará ser enfrentado depois da eleição", afirma.
Na avaliação da gestora, a elevada polarização faz com que investidores prefiram esperar antes de assumir posições mais relevantes.
Essa cautela também aparece na construção do portfólio do ASA para Brasil. Balassiano afirma que o nível de convicção da casa hoje é o menor dos últimos dois anos.
Por isso, o ASA tem preferido operações mais táticas, aproveitando momentos de volatilidade, em vez de grandes apostas direcionais.
Há, porém, uma exceção.
"O real está barato. O Brasil cresce razoavelmente bem e paga um juro muito alto. É muito punitivo apostar contra o real hoje."
Para o restante dos ativos — especialmente bolsa e títulos públicos longos —, a gestora prefere esperar que a visibilidade sobre o cenário fiscal melhore antes de concluir que o Brasil voltou, de fato, a oferecer uma oportunidade estrutural de investimento.
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